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Desafios da lingerie na Arábia Saudita

No Reino da Arábia Saudita, a polícia religiosa patrulha as ruas para garantir a adesão às rígidas leis de segregação do país e para se certificar de que as mulheres, que também não estão autorizadas a conduzir, estão cobertas por vestes pretas largas (abaya) quando se encontram em público. O desconforto com o estado de coisas é uma preocupação crescente entre as mulheres sauditas que são forçadas a comprar as suas roupas íntimas em lojas de lingerie com funcionários masculinos, numa sociedade conservadora, onde o recato feminino é fundamental. «Imagine, um homem (estranho) a olhar para a roupa íntima. Isto é muito constrangedor… Nós crescemos na modéstia e na religião. As nossas coisas privadas não devem estar visíveis a desconhecidos», defende Fatima Qaroob, que lançou uma campanha apelando a que os vendedores masculinos sejam substituídos por mulheres. Contudo, a mudança no Reino da Arábia Saudita não é fácil e a campanha de Qaroob “Chega de constrangimento” não é a primeira tentativa de substituir os vendedores masculinos nas lojas de roupa íntima feminina. As empresas sauditas resistiram a um decreto governamental de 2006, instando-as a contratar apenas mulheres para lojas que vendem produtos femininos íntimos, alegando que tal mudança implicaria um aumento nos custos relacionados com as estritas regras de segregação do país. Um boicote por parte de um grupo de mulheres sauditas contra as lojas de lingerie não conseguiu pressionar as empresas a implementarem o decreto de 2006, porque não havia alternativa para a compra de roupas íntimas. As mulheres representam 9,2 milhões dos 18,5 milhões de pessoas da Arábia Saudita. A Câmara de Comércio de Jeddah estima que as mulheres na Arábia Saudita gastaram 10 mil milhões de riais sauditas (2,67 mil milhões de dólares) nos últimos quatro anos em vestuário, 17% dos quais em lingerie. As mulheres de todas as idades estão sujeitas a um sistema de “tutela” masculina, o qual exige a apresentação de uma autorização por escrito do seu responsável – pai, irmão ou marido –, para viajar e, em algumas áreas, trabalhar. Muitas mulheres trabalham como professoras em escolas só para raparigas, uma profissão sancionada pelo clero, mas existe um número crescente de empresárias, médicas e jovens mulheres profissionais que está a tentar quebrar as barreiras. A poderosa instituição religiosa do país pronunciou-se contra uma recente tentativa do Ministério do Trabalho para contratar mulheres como caixas em alguns supermercados, dizendo que as regras de segregação proibiam que as mulheres trabalhassem em áreas do supermercado acessíveis aos homens. Para além do desafio de encontrar candidatas qualificadas, os empregadores que contratam mulheres devem também tapar as suas montras para bloquear a vista para o interior e contratar segurança durante as horas de expediente para impedir os homens de entrarem. Representantes municipais e a polícia religiosa verificam os proprietários das lojas para garantir o cumprimento dos regulamentos. A Nayomi, uma cadeia de lojas de lingerie, decidiu adoptar a campanha para a contratação de mulheres. Foram feitas as alterações necessárias e abriram 20 lojas na Arábia Saudita, todas compostas por mulheres. Mas as fracas vendas devido à falta de clientes do sexo masculino, o alto custo de garantir a segurança, a incapacidade de atrair clientes através da montra e a relutância de algumas funcionárias em trabalhar nos turnos da tarde levaram a perdas financeiras e ao encerramento de pontos de venda. Apesar dos desafios, a mudança está a acontecer, mas a um ritmo lento. As lojas Nayomi na Arábia Saudita ainda estão comprometidas com a campanha de contratação de mulheres, embora estejam a dar passos mais tímidos. A Câmara de Comércio e Indústria de Jeddah (JCCI), na costa Oeste da Arábia Saudita, estima que das 260 lojas de lingerie em Jeddah, apenas cinco possuem mulheres no atendimento, um número que se acredita ser mais do que em outras cidades. «Acreditamos que estes produtos são especialmente para as mulheres. Por isso, é melhor deixar que as mulheres lidem com eles, como o resto do mundo faz», afirmou o director de vendas da Nayomi. «Estamos convencidos desta ideia e queremos que seja um sucesso, mas estamos a implementá-la de forma limitada – isto não vai acontecer rapidamente», concluiu o responsável.