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Desapego material – Parte 1

O materialismo dá lugar a uma nova tendência de partilha, alimentada pelos mais jovens, que privilegiam a flexibilidade da não-propriedade, instigando um novo movimento que promete transformar o sector de retalho tradicional.

Allison Armour gosta de moda, mas não precisa de mantê-la no seu armário. A jovem de 24 anos de idade frequenta a cadeia privada Crossroads Trading Co., onde compra produtos de marca em segunda mão com desconto, revendendo os artigos de seguida, quando pretende atualizar o visual.

Armour, gestora de marketing de uma organização sem fins lucrativos, em Oakland, Califórnia, comprou saias e blusas, sapatos Oxford por 30 dólares, um trench-coat J.Crew por 40 dólares e uma bolsa Dooney & Bourke por 150 dólares, menos de metade do preço de retalho. «Quando me canso de certas coisas, coloco-as de lado e vendo-as de novo», revela. Para os membros da Geração Y – os cerca de 77 milhões de americanos nascidos entre 1980 e 2000 –, o fascínio da «não-propriedade» estende-se além da habitação e posse de automóveis.

Uma nova indústria baseada na partilha ou aluguer de vestuário, eletrónica e aparelhos de pequeno porte emergiu do nada nos últimos cinco anos, representando uma força perturbadora para os retalhistas tradicionais. Atingidos pela dívida do empréstimo de estudante e pela Grande Recessão, estes jovens colocam menos ênfase na propriedade, focando-se mais na partilha, troca e negociação de acesso aos bens cobiçados. Esses comportamentos têm impulsionado a criação de diversos negócios, como o serviço de aluguer de automóveis Zipcar, o serviço de táxi Uber e o site de renda de habitações Airbnb. O que a Geração Y compra, e mantém, são os smartphones.

Cerca de 85% dos indivíduos com idades compreendidos entre 18 e 34 anos possui um aparelho desta categoria, de acordo com uma pesquisa realizada pela Nielsen, e os dispositivos são a porta de entrada para a economia de partilha. Agora estes “NOwners”, como Jamie Gutfreund, diretor de marketing da Deep Foco, os denomina, estão a impulsionar uma nova vaga de empresas de capital fechado, como os mercados de revenda de produtos infantis Kidizen e Yerdle, que permitem que os clientes troquem ou comprem itens como vestuário e bens de consumo usados.

A empresa Deep Focus realiza pesquisa de mercado sobre as tendências dos mais jovens. Se os seus pais frequentavam lojas em segunda mão como forma de poupar dinheiro, a Geração Y dispõe de meios financeiros para comprar produtos novos mas encara a partilha e a reutilização como uma forma de promover benefícios ambientais, entre os quais a redução dos resíduos. «Em vez de pagar por algo e se desembaraçar dele, já desvalorizado, quando se farta – trocar e revender permite à Geração Y estender o seu valor», explica Gutfreund. «É eficiente e é verde» Com efeito, 59% dos compradores da Crossroads admite que o facto de «ser uma forma ambientalmente amigável de fazer compras» é um dos seus aspetos favoritos da loja. «Muitas pessoas não podem pagar produtos novos de marcas atemporais, mas apreciam a qualidade», aponta Erin Wallace, diretora de marketing da Crossroads Trading e da sua loja-irmã Fillmore & 5, que inaugurou seis lojas desde 2012.

Muitas destas novas empresas recebem financiamento de fontes tradicionais, como indivíduos e firmas de capital privado, incluindo a Bain Capital Ventures, mas também de plataformas start-up como a Onevest. «Praticamente todas as principais indústrias poderão experienciar perturbações [devido à economia de partilha]», afirma Joe Atkinson da firma de contabilidade e consultoria PwC, cujo relatório de abril revela que a Geração Y figura entre os mais entusiasmados com a partilha e são responsáveis por quase 40% daqueles que forneceram objetos. Na segunda parte deste artigo são reveladas diversas abordagens a esta nova tendência, provenientes de empresas inovadoras que procuram dirigir-se diretamente a este novo público, assim como as respostas do sector mais tradicional de retalho, que se procura adaptar a este novo movimento emergente.