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Desapego material – Parte 2

A valorização da propriedade dá lugar à flexibilidade da troca e do empréstimo, alimentando uma nova tendência que ganha popularidade entre os mais jovens, impulsionados pela conjuntura de incerteza atual.

Nascidos nas últimas duas décadas do milénio, a Geração Y privilegia a partilha ao invés da posse, fomentando um movimento que promete desafiar o sector de venda a retalho tradicional (ver Desapego material – Parte 1).

Impulsionada pela procura e pela tecnologia, a participação no espaço de revenda de produtos infantis Kidizen está a crescer a uma taxa de 40% a 50% ao mês. A empresa foi fundada por duas mães com experiência no retalho e em marketing, que quiseram partilhar o fluxo interminável de produtos infantis que chegou com a maternidade. Os membros publicam fotografias, discutem sobre as suas famílias, enviam pequenas notas e chupa-chupas na encomenda seguinte. «É uma comunidade onde as pessoas se conhecem umas às outras», explica Dori Graff, cofundadora. «Isso faz com que seja contagiosa. As pessoas voltam sempre», afirma.

A plataforma de trocas Yerdle estima que os armários e garagens americanas contêm 100 mil milhões de dólares em roupas, ferramentas e outros itens não usados, pretendendo que os consumidores adquiram a partir do site, ao invés de comprarem algo novo. «Estão a comprar com coisas de que já não precisam», refere o cofundador Andrew Ruben, que já liderou os esforços de sustentabilidade do retalhista americano Walmart.

A Yerdle tem agora mais de 300.000 membros e está a crescer 30% ao mês. O objetivo final, anuncia, será conseguir que as pessoas «comprem menos 25% de itens novos». A empresa não tem custos com o inventário porque os membros publicam uma fotografia de um item e mantêm-no na sua posse até que alguém o queira. Ruben afirmou que 40% dos itens são vendidos no primeiro dia. A empresa recebeu 10 milhões de dólares em financiamento, incluindo cerca de 2,5 milhões de dólares do The Westly Group, que inclui antigos executivos do eBay.

A Menlo Park, uma empresa californiana que se concentra em ganhar dinheiro, resolvendo simultaneamente questões de índole social, investe em diversos segmentos de negócio, desde a empresa Good Eggs, que fornece alimentos frescos de produtores locais, à Greengate Power, um parque eólico no Canadá. «Tudo depende da forma como pegamos nestes ativos e os tornamos mais e mais usados por outras pessoas», aponta Gary Dillabough, sócio-gerente do Westly, que agora ocupa um lugar no conselho de administração da Yerdle. E isso agrada à Geração Y. «Eles querem usar as coisas que já estão na economia», acrescenta.

Vestuário usado
Alguns retalhistas de renome têm tido isso em conta. A Patagonia, já popular entre a Geração Y devido à sua reconhecida qualidade e reputação ambiental, disponibiliza arranjos gratuitos desde os anos 70. Mais recentemente, lançou um programa de incentivo ao comércio de roupas usadas em boas condições de conservação, que são depois revendidas na sua loja de Portland, no estado americano do Oregon, por cerca de metade do preço original. «Descobrimos que incentiva novos clientes a procurarem a nossa marca», justifica Nellie Cohen, gestora de marketing ambiental da Patagonia. «As pessoas vêm para ver o que está na prateleira “Worn Wear” (Vestuário Usado)».

A Highland Capital Partners, que gere mais de 2 mil milhões de dólares, investiu em diversas empresas, incluindo a Rent the Runway e a ThredUp, lojas de revenda de moda online, que incidem na Geração Y e na economia compartilhada, refere Dan Nova, um sócio. A empresa Rent the Runway, fundada em 2009, permite aos utilizadores alugar peças de alta-costura para ocasiões especiais. Apesar de não ser, ainda, lucrativa, a empresa, que já angariou 116 milhões de dólares e está avaliada em 600 milhões de dólares, tem agora quase 5 milhões de membros, incluindo celebridades e milionários, e um inventário avaliado em mil milhões de dólares. O cliente-tipo são mulheres de carreira, com 29 anos de idade e formação superior. «Na era do Facebook, as pessoas não querem ser fotografadas mais do que uma ou duas vezes com o mesmo vestido», resume Nova.