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Descarbonizar nos materiais e na energia

Utilizar menos matérias-primas produzidas com base em combustíveis fósseis e encontrar novas fontes de energia e aquecimento são os caminhos a seguir para reduzir a pegada carbónica da indústria têxtil e vestuário.

Atualmente, segundo os dados apresentados por Lutz Walter, secretário-geral da Plataforma Tecnológica Europeia para o Futuro dos Têxteis e Vestuário, na iTechStyle Summit, são usadas anualmente 110 milhões de toneladas de fibras têxteis, 60% das quais são produzidas a partir de combustíveis fósseis.

As previsões do nova-Institute para 2050 apontam para um enorme crescimento na utilização de fibras nas próximas décadas. «Passamos de menos de 100 milhões de toneladas em 2013 para mais de 250 toneladas de fibras têxteis produzidas no mundo em 2050», afirmou Lutz Walter. O instituto alemão aponta ainda dois cenários possíveis. O primeiro, que batizaram b.a.u., ou business as usual, mantém o foco nas fibras sintéticas, sobretudo poliéster. Já o segundo, chamado biobased, aponta para um crescimento significativo das fibras artificiais de celulose. «Independentemente do cenário, ainda estaremos entre 40% e 66% com fibras de base fóssil. Por isso, em 2050, estaremos ainda muito longe de ter 100% de fibras renováveis», salientou o secretário-geral da Plataforma Tecnológica Europeia para o Futuro dos Têxteis e Vestuário.

Lembrando que o carbono irá sempre fazer parte da indústria têxtil, uma vez que os «materiais têxteis têm por base carbono e a única forma de sermos neutros em carbono seria livrar-nos de todos os têxteis no mundo», Lutz Walter sublinhou que o caminho é «tornar esse carbono renovável». Segundo indicou, «podemos reduzir até 50% a nível mundial o carbono embebido na produção e consumo de energia até 2050, até 90% nos transportes, com a eletrificação, mas a nível dos químicos e matérias-primas, o carbono embebido na verdade irá duplicar face aos níveis atuais», tendo em conta o crescimento da população mundial e o aumento do consumo por parte dos países em desenvolvimento.

Lutz Walter

Recorrendo mais uma vez aos números do nova-Institute, Lutz Walter revelou que «o total de carbono embebido em todos os materiais dá um total de 840 milhões de toneladas por ano, dos quais 55% são químicos e materiais produzidos a partir de fontes fósseis».

Reciclagem a crescer

Para o secretário-geral da Plataforma Tecnológica Europeia para o Futuro dos Têxteis e Vestuário, é nos materiais que a indústria têxtil e vestuário deve intervir para reduzir a sua pegada de carbono, recorrendo à reciclagem, «uma área ainda pequena, mas que deverá crescer», à utilização de biomassa para produzir fibras celulósicas e a tecnologias de captação de dióxido de carbono. «Não temos um problema com o CO2, nós precisamos de CO2. As plantas precisam de CO2 para crescer. Mas há demasiado CO2 na atmosfera que é transferido do solo e não estamos a reduzi-lo. Por isso, manter os combustíveis fósseis no solo e usar o carbono que existe na atmosfera, reciclar os produtos que usamos todos os dias,… são tudo opções», apontou.

Nesse sentido, «a nossa melhor opção são os materiais de base biológica – atualmente, as fibras naturais mais a celulose artificial representam 30%, mas acho que podemos chegar a 60% no horizonte de 2050», acredita Lutz Walter.

Usar mais fibras naturais, especialmente opções como cânhamo e linho, recorrer a fibras celulósicas produzidas a partir de biomassa e criar novas fibras de biopolímeros, como o PLA, são algumas das opções.

Contudo, reforçou, «a grande questão será sempre se isto é mais ecológico, mais responsável e mais rentável do que as opções que temos atualmente». Ainda assim, e como sustenta o nova-Institute, citado por Lutz Walter, «o equivalente à descarbonização no sector da energia é uma transição para carbono renovável nas indústrias dos químicos, plásticos e fibras», sendo que, «pela primeira vez desde a revolução industrial, a tecnologia permite-nos desvincular as indústrias dos químicos, plásticos e outros materiais da utilização de carbono fóssil».

Encontrar novas fontes de energia

Pedro Mota, diretor de inovação da empresa especialista em soluções de energia CapWatt, por seu lado, concentrou a sua apresentação na parte energética. «A indústria têxtil representa cerca de 10% das emissões de gases com efeito de estufa – mais ou menos o mesmo que todos os navios e aviões em conjunto», assegurou.

Para descarbonizar ao nível da energia, «não há apenas uma solução», reconheceu, deixando algumas opções como a troca para equipamentos que usam energia elétrica, que em Portugal tem uma melhor pegada sustentável, incluindo no que diz respeito à frota automóvel.

Pedro Mota

Ao nível do aquecimento de água e produção de vapor, fazer a transição do gás natural para caldeiras a biomassa pode ser uma opção. «Precisamos de substituir o gás natural e encontrar novas fontes», garantiu Pedro Mota.

Uma dessas fontes pode ser o hidrogénio, uma área em que a CapWatt está a trabalhar, nomeadamente com o projeto H2GreenPower, que prevê a instalação de uma unidade pioneira de produção de hidrogénio verde por eletrólise de água por tecnologia PEM com capacidade total de 1,2 MW, que irá produzir hidrogénio verde para injetar na rede de distribuição interna que alimenta o motor da cogeração do polo empresarial do Sonae Campus, na Maia. «É um pequeno passo», assumiu o diretor de inovação da empresa, mas que poderá abrir portas para o futuro.