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Desflorestação ameaça ITV

Grandes empresas internacionais – incluindo de têxteis e vestuário– estão mal preparadas para o risco que deriva de aprovisionar produtos ligados à desflorestação, uma grande causa das mudanças climáticas. Este problema pode pôr em causa receitas anuais de 906 mil milhões de dólares.

Para muitos, a desflorestação parece ser uma questão que ocupa o rodapé ou nem sequer entra na lista das preocupações da indústria têxtil e vestuário. Mas um estudo publicado pelo Carbon Disclosure Project (CDP) chama a atenção para os problemas que podem advir da desflorestação para as empresas do sector.

No geral, as empresas parecem estar confiantes na sustentabilidade da produção de gado, soja, madeira e óleo de palma, apesar da instabilidade subjacente ao aprovisionamento de produtos vindos de florestas, que estão sujeitas a desastres climáticos, restrições políticas e conflitos territoriais com populações indígenas.

O estudo, intitulado “Receitas em risco: por que é que responder à desflorestação é crítica para o sucesso do negócio”, concluiu que apesar de uma quota significativa dos rendimentos ser derivada de recursos ligados à floresta, menos de metade (42%) das empresas avaliou como a disponibilidade ou qualidade destes recursos vai afetar a sua estratégia de crescimento nos próximos cinco ou mais anos.

A produção de commodities ligadas à floresta, como a madeira, que é usada como fonte para fibras têxteis à base de celulose para a indústria de vestuário, e o gado, que fornece pelos e peles, podem contribuir para as emissões de gases com efeito de estufa e conflitos sociais, resultando em exposições diretas ou da cadeia de aprovisionamento para os fornecedores e, em último caso, colocar pressão adicional sobre o volume de negócios.

As empresas inquiridas reportaram que, em média, quase um quarto do seu volume de negócios depende de quatro commodities – gado, soja, madeira e óleo de palma –, com 906 mil milhões de dólares (cerca de 855 mil milhões de euros) em volume de negócios anual potencialmente em risco.

Os riscos potenciais para os negócios ligados com a desflorestação incluem impactos relacionados com os efeitos físicos da mudança climática na qualidade, disponibilidade e preços das commodities, regulamentação cada vez mais apertada e prejuízos para a marca resultantes do crescente escrutínio dos meios de comunicação social e da sociedade civil sobre as práticas de aprovisionamento de matérias-primas.

«As empresas têm de responder à sustentabilidade de produtos que impulsionam a desflorestação simplesmente para protegerem o seu balanço [contabilístico]», afirma Katie McCoy, diretora de florestas no CDP. «As cadeias de aprovisionamento são como filas de peças de dominó: se matérias-primas não sustentáveis entrarem no início da cadeia de aprovisionamento, há um efeito de cascata. Não responder à questão da desflorestação vai ter impactos na reputação, que se vai manifestar em boicotes de consumidores, oposição da comunidade e um maior escrutínio regulamentar. O crescimento do negócio está em risco», acrescenta.

Cerca de 155 empresas foram analisadas e forneceram dados para o estudo, incluindo a Burberry, Coach, Hanesbrands, H&M, Inditex, Kering, Marks & Spencer, Nike e Tesco. Marcas como a Gap, Guess, L Brands, Polo Ralph Lauren, Target e Walmart não responderam.

No entanto, mais empresas estão a reconhecer os benefícios de aumentar os seus esforços de proteção à floresta. A Marks & Spencer, em particular, está a trabalhar para dar prioridade ao sourcing de áreas que estão a aplicar programas abrangentes de florestas. No estudo do CDP, a empresa recebeu uma classificação A- pelos seus esforços na madeira que usa na produção de vestuário.

O conglomerado de luxo Kering também teve a nota A- pelos produtos provenientes gado e B pelo aprovisionamento de madeira. A Hanesbrands teve a nota B pelo aprovisionamento de madeira, enquanto a Inditex teve um A- pelo sourcing de matérias-primas relacionadas com gado.

Nas quatro commodities, cerca de 72% das empresas afirmaram estar confiantes que vão ser capazes de aprovisionar estas matérias-primas de forma segura e sustentável no futuro. Contudo, menos de metade (44%) desses monitorizam o cumprimento dos padrões e auditam os fornecedores, apenas um em cada cinco avaliam os riscos de desflorestação além de um horizonte de seis anos e apenas 30% conseguem rastrear estas commodities até à fonte.

As empresas apontaram que as principais barreiras que enfrentam em relação à resposta a estes riscos são: sistemas de rastreabilidade desadequados; falta de diretrizes e imposição das políticas nacionais de desflorestação; e disponibilidade limitada de materiais certificados e os seus custos.

O CDP considera que é necessária uma «ação corporativa ousada» para que o volume de negócios, a resiliência e o crescimento futuro não sejam colocados em risco, particularmente com a aproximação da indústria a 2020, quando muitos dos objetivos e compromissos empresariais têm de ser atingidos.

«Mais do que nunca, a desflorestação tem de estar firmemente na agenda do conselho de administração», sublinha Paul Simpson, diretor-executivo do CDP. «Com uma dependência clara destas matérias-primas com risco florestal, crescentes expectativas dos investidores, uma mudança no ambiente regulamentar e o aumento de campanhas de consumo que têm impacto na reputação das marcas, as ações das empresas sobre a desflorestação estão sob um intenso escrutínio. A rentabilidade a longo prazo está em jogo», explica.