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Design é crítico e indiscutível

“O design como fator crítico nacional” foi o tema da conferência organizada pela Apiccaps, em associação com a Anivec e a Aorp, mas mais do que um debate, a resposta afirmativa de todas as partes – secundada por exemplos nacionais concretos, como Luís Onofre, Vista Alegre, Boca do Lobo ou Josefinas – acabou com todas as dúvidas.

É o design um fator crítico nacional? Para Carlos Coelho, presidente da Ivity, a questão nem se coloca. «Tem-se discutido se o design é um fator crítico. Tem-se discutido como se isso fosse discutível, como se fosse possível existir no mundo sem levar em consideração o design», afirmou.

O design como fator crítico nacional

Formado, ele próprio, em design pelo IADE, perante a plateia no Salão Árabe do Palácio da Bolsa, no Porto, Carlos Coelho declarou que «não acho que passados 30 anos faça muito sentido continuar a discutir se o design é um fator fundamental», apontando como exemplos as marcas portuguesas que o acompanharam no segundo painel da conferência: a Boca do Lobo, a Josefinas e a Daily Day. «Estas três empresas, que muito nos orgulham a todos, são exemplos claros deste sucesso», sublinhou o presidente da Ivity, acrescentando ainda que este «é o espírito que há 500 anos nos levou a ir para o mundo».

Provenientes de sectores tradicionais, a Boca do Lobo, a Josefinas e a Daily Day revelaram o seu percurso e a importância do design, assim como da comunicação, no seu sucesso.

Posicionada no sector do mobiliário de luxo, a Boca do Lobo é conhecida pelas suas peças de mobiliário, que fizeram parte do cenário da conferência – e já chegaram ao “grande ecrã”, em filmes de Hollywood como “50 Sombras de Grey” –, mas também pelo forte investimento em comunicação. Aliás, adiantou o fundador e CEO, Amândio Pereira, «temos cerca de 60 pessoas a escreverem diariamente para blogues», realçando que «se hoje somos o que somos é pela comunicação».

Painel #2

Para Filipa Júlio, fundadora e designer da marca de calçado Josefinas, que abriu uma flagship em Nova Iorque no ano passado e tem no Instagram uma das suas forças (ver Josefinas nos pés do mundo), o mais importante em qualquer marca é «a coerência», desde o produto, incluindo a embalagem, à comunicação nas redes sociais. De Portugal, a marca – que faz questão de colocar o país de origem na sua assinatura – usa igualmente o know-how. «Fomos à envolvente: fomos buscar os bordados do Vale do Sousa, acessórios em latão de uma oficina em Barcelos… Tentamos perceber o que é Portugal nos pode dar e incluir isso numa visão contemporânea, reinventar a tradição», explicou Filipa Júlio.

Um know-how reconhecido também na indústria têxtil, que Filipe Prata, fundador da marca Daily Day (ver O coletivo da Daily Day) e sucessor na empresa familiar Lagofra, quis potenciar com a criação da marca própria, até porque a indústria portuguesa «está muito exposta às marcas internacionais. A sustentabilidade deste negócio vai precisar de algo mais», acredita, acrescentando que há tempo para «substituir gradualmente o negócio por marcas nossas», uma área onde o design tem um papel fulcral.

«Estamos claramente a reinventar-nos como país», acredita Carlos Coelho. «Há duas décadas as pessoas fugiam de qualquer coisa que fosse portuguesa. Começámos a reconciliar-nos e a ter orgulho no nosso passado», destacou o presidente da Ivity.

Renovar o design

Manuel Carlos

Para Manuel Carlos, presidente delegado da Apiccaps, é fundamental «retomar este tema. Porque design é estética. E estética pode ser bom gosto. E temos de fazer isto com muito bom gosto. A ação que fizemos em Paris [ver (A)Mar Portugal em Paris] foi uma iniciativa com excelente bom gosto, de grande sofisticação».

Já Manuel Lopes Teixeira, CEO do CENIT, considera que «ainda não temos a definição do tipo de design, da estética que temos no nosso país». No entanto, «o design tem crescido de importância em todos os sectores, nomeadamente no vestuário, tal que neste momento de alguma forma até desperdiçamos o design, isto é, as nossas empresas muitas vezes produzem coleções – para clientes, porque a nossa indústria de vestuário é sobretudo para private label – e nem tudo é vendido. Temos muito material desenvolvido, com enorme potencial, que por vezes não chega a ser utilizado». Um cenário que levou o CEO do CENIT a sublinhar que a presença do design «é indiscutível. Neste momento ninguém põe em causa e todo o nosso sector incorpora essa componente – de outra forma não consegue entrar no jogo», resumiu.

Manuel Teixeira

«O design hoje em dia, já não é, sozinho, um fator de distinção. Tem de se ter. Se não se tiver, está-se fora», garantiu Nuno Barra, administrador do grupo Vista Alegre Atlantis, responsável pelo marketing e design, que no caso da conhecida empresa de artigos de mesa e decoração, tem de «gerir tradição com modernidade» e trabalha com designers de todo o mundo. «O importante é que tenha a ver connosco», afirmou, acrescentando, contudo, que «Portugal tem muitos bons designers, há muita qualidade».

Esta ideia foi igualmente reforçada na intervenção de Ana Freitas, presidente da Aorp. «A marca Portugal está a ganhar cada vez mais força internacionalmente. Todos sabemos que ainda há um longo caminho pela frente, mas é evidente que a indústria da moda portuguesa tem vindo a atrair a atenção e o interesse dos mercados internacionais», advogou, destacando que essa visibilidade além-fronteiras está a ser conseguida com o know-how e a qualidade da indústria portuguesa, a que se soma o design e «a criação de marcas com uma entidade forte e diferenciadora».

Ana Freitas e Luís Onofre

Luísa Rosas, nascida e criada numa família joalheira, apesar de arquiteta de formação, acabou seduzida pelo sector e estar na origem da marca epónima, focada em «reinterpretações da natureza». Há pouco tempo, «decidimos internacionalizar», revelou.

Também a marca de Luís Onofre, designer e atual presidente da Apiccaps, está a chegar aos quatro cantos do mundo, com o cunho da criatividade e o know-how – é a terceira geração à frente dos destinos de uma empresa familiar de produção de calçado – “made in Portugal”. O designer, que abriu recentemente a segunda loja própria, a primeira no Porto (ver Onofre inaugurou loja no Porto), afirmou, em jeito de conselho, que é preciso combinar «o design com a técnica. É crucial hoje em dia ter um bom design e perceber a técnica, como se faz, até à exaustão».

Manuel Teixeira e Luís Onofre

Algo que Pedro Nogueira, country manager da H&M, que recorre a «designers portugueses, nomeadamente o Luís Onofre», considera da maior importância, «porque a parte do design é muito importante, mas é bom que o designer tenha a parte técnica. Ajuda-nos imenso a nós, que somos produtores e também somos designers – a H&M desenha as próprias coleções. Ter pessoas na indústria que nos ajudem e nos orientem, é meio caminho andado, quer na têxtil como no calçado, porque não temos conhecimento técnico. A linguagem do design ajuda-nos a criar o nosso look».

É, no entanto, importante perceber para quem se está a trabalhar e ter em conta a evolução do consumidor, onde as gerações mais jovens, como referido por Petah Marian, editora sénior do portal de tendências WGSN, terão um papel central. «Os millennials estão interessados em experiências. A Geração Z vai exigir o que quer e pode trabalhar a favor ou contra [as marcas] para melhorar a oferta que corresponda às suas necessidades. Já a Geração Alfa tem as expectativas mais altas e vai exigir uma experiência completamente imersiva», explicou.

Painel #1

Desafiada por Mónica Seabra-Mendes, da Universidade Católica Portuguesa, que moderou o painel, Eduarda Abbondanza encarnou o papel de “Ministra do Design” e apontou algumas medidas para estimular o design em Portugal. «A primeira coisa que faria seria um diagnóstico sobre o país e depois tentaria criar um conjunto de ferramentas que os agentes que estão cá fora possam usar no seu dia a dia», apontou. Como exemplo, a presidente da ModaLisboa citou a pertinência da criação de residências de design, com linhas de produção mais pequenas que «permitissem a junção do pensamento industrial com o pensamento do design, para a criação de produtos realmente bons, necessários e muito tentadores», concluiu.