Início Notícias Moda

Designers namoram passerelles internacionais

Alexandra Moura, Miguel Vieira, Marques’Almeida e Luís Buchinho foram alguns dos nomes nacionais que desfilaram pelas passerelles das semanas de moda de Milão e Paris. Mas, afinal, que contributo trazem essas presenças para as marcas?

Hugo Costa

O roteiro dos designers nacionais passa por palcos como Londres, Milão ou Paris. Independentemente do destino, os criadores de moda defendem que a participação em semanas de moda internacionais, tal qual uma relação amorosa, deve ser alimentada e primar pela persistência.

Estreias em Milão

A partir de 2015, as coleções de Alexandra Moura eram presença assídua na Semana da Moda de Londres. Contudo, em 2019, a designer foi convidada pela Camera de la Moda Italiana para integrar o calendário oficial da Semana de Moda de Milão em fevereiro. Alexandra Moura confessa que «já existe repercussão pós-passerelle. Há um volume maior a nível da procura pela marca. A nível de negócio, são coisas que se constroem com mais tempo. O comprador internacional não compra num estalar de dedos. Percebe a marca e namora a marca até dar o passo» explica ao Portugal Têxtil.

Alexandra Moura

A designer reconhece que a presença internacional «contribui para o crescimento da marca. Se não tivéssemos esta estratégia de internacionalização, provavelmente não sobreviveríamos. É um processo desgastante, mas muito importante se queremos crescer».

Para o outono-inverno 2019/2020, a criadora de moda foi beber inspiração à ceramista Rosa Ramalho, que, «apesar de viver no campo, era uma autêntica visionária. Quis muito ir buscar o seu trabalho e trazer para uma coleção», afirma a designer. A coleção, com desenhos de monstros característicos do trabalho de Rosa Ramalho (tanto na maquilhagem dos modelos como nas próprias criações), contava com citações da própria ceramista, como a frase “não é sonho nenhum”.

KattyXiomara

Katty Xiomara, que já marcou presença em Nova Iorque, também se estreou na passerelle de Milão em fevereiro último e explica que, na verdade, «o impacto é bastante fugaz e passageiro, se não dermos continuidade. Ir apenas uma vez não é consistente. É necessário persistir, dar continuidade, através de aparecimentos contínuos durante o ano». A vender maioritariamente para mercados como o Japão, EUA e China, a designer admite que «as semanas de moda são todas muito diferentes. As pessoas que encontramos são diferentes e o impacto é diferente».

Para a próxima estação fria, a designer propôs uma coleção em jeito de homenagem às mulheres e dedicada a Hello Kitty, que celebra o seu 45.º aniversário este ano, tal como a Katty Xiomara.

Miguel Vieira

Experiente na passerelle milanesa é Miguel Vieira, que na sua 5.ª participação consecutiva na Milano Moda Uomo, em janeiro último, apresentou “Um inverno em África”, onde pontuam elementos geométricos que lembraram estampados étnicos, pintados nomeadamente de azul e bege. «Não era normal Miguel Vieira, há 10 anos, colocar botas de montanha com calças de elastano, com lantejoulas e com fatos. Mas eu estou, se calhar, a ficar mais novo», afirma ao Portugal Têxtil.

Londres como casa e passerelle

Sophia Kah

Sophia Kah regressou à Semana de Moda de Londres pela segunda estação consecutiva, desta vez com a coleção Tiger Souls, que flutua entre pretos e azuis noite e apontamentos escarlate e fúcsia vibrantes.

A criadora Ana Teixeira de Sousa, que vive precisamente em Londres, apresentou a sua coleção no exclusivo clube londrino Mark’s Club. «Foi maravilhoso. É uma presença que se reflete em vendas e no posicionamento da marca», assegura a designer que veste nomes como Beyoncé, Sarah Jessica Parker ou Kylie Minogue.

Quando o destino é Paris

A capital francesa tem sido destino de designers como Hugo Costa, que se estreou em junho de 2016 na Semana de Moda Masculina. «Estar em passerelles internacionais ajuda-nos a construir o posicionamento de marca. Acaba por nos fazer elevar a fasquia. Depois, há o buzz que, atualmente, em termos de media, é fundamental ter e, em Paris, acontece mais facilmente», assegura o designer. Hugo Costa vende maioritariamente para o mercado asiático, para países como Japão, Tailândia ou Taiwan. No entanto, confessa que a notoriedade «leva o seu tempo a construir. Neste momento, passa muito mais por procurar a identidade certa e definir a estratégia da marca». A sua última coleção foi buscar inspiração a mensagens de união encontradas no Muro de Berlim.

Paris também tem sido o destino da dupla Marques’Almeida, que, com atelier na capital britânica, participou, desde 2010, na Semana da Moda de Londres para, em outubro de 2018, se mudar para a passerelle da Cidade Luz. Ao contrário dos restantes designers e marcas, a Marques’Almeida desfilou a coleção primavera-verão 2019/2020, «porque é o que está nas lojas neste momento. Interessa-nos fazer um desfile com um produto que pode ser comprado», explicou a cofundadora da marca, Marta Marques.

Marques’Almeida

A participação internacional é «bastante importante em termos de reconhecimento da marca, quer para a imprensa quer para compradores», sublinha. O estilo de Marques’Almeida atraiu não só as passerelles internacionais, como também celebridades como Rihanna, FKA Twigs, Beyoncé, Solange ou Sarah Jessica Parker. «As celebridades não têm um impacto tão direto quanto as pessoas acreditam, mas tem impacto na sensibilização para a marca, que é muito importante», assume Marta Marques. A coleção estival da dupla reflete uma «continuação do que tinha sido apresentado na edição anterior, que conjuga as nossas raízes com os olhos de quem está em Londres há 10 anos», acrescenta.

Luís Buchinho
Diogo Miranda

Diogo Miranda, que se estreou em 2015 na Semana da Moda de Paris, admite que a continuidade é a chave do negócio e a capital francesa é o melhor local para uma marca se projetar. «É de Paris para o mundo. Está toda a gente lá. Pode não acontecer na primeira estação, mas depois acaba por acontecer. As relações têm que ser alimentadas. Acaba por ser um trabalho cansativo e tem que ser feito. Tem que se fazer um follow up ao cliente, mesmo depois da compra», garante. Luís Buchinho já realizou desfiles em Nova Iorque e São Paulo, mas considera que «Paris é um meio que é extraordinariamente competitivo. Os desfiles estão cada vez mais com orçamentos mais elevados e mais multinacional. É uma cidade que realmente tem um patamar muitíssimo elevado».