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Designers negros quebram muro de silêncio em Milão

Depois de uma batalha de anos para aumentar a diversidade nas passerelles italianas, cinco designers negros estrearam-se no calendário da Semana de Moda de Milão, revelando as tendências femininas para a estação fria e cumprindo um marco histórico para a inclusão no mundo da moda em prol do movimento Black Lives Matter.

[©AFP]

Os cinco designers que abriram a Semana de Moda de Milão no passado dia 24 fazem parte do grupo Black Lives Matter in Italian Fashion, cujo nome faz jus ao propósito do movimento que lidera protestos contra a injustiça racial, lutando, por isso, pela inclusão e diversidade na moda.

As tendências femininas para o outono-inverno 2021/2022 foram pré-gravadas dada a situação provocada pelo coronavírus, mas a AFP teve acesso exclusivo aos preparativos do evento na biblioteca Circolo Filologico, em Milão. A Semana de Moda de Milão prolonga-se, digitalmente, até 1 de março e inclui com as apresentações dos designers portugueses Gonçalo Peixoto e Alexandra Moura.

Apesar de não considerar este progresso na inclusão uma vitória, Michelle Ngonmo, designer integrante do coletivo anti-racista, juntamente com Stella Jean, Edward Buchanan, além do presidente da Câmara Nacional de Moda Italiana, Carlo Capasa e outros profissionais, acredita que é um «primeiro passo». «Temos que fazer a sociedade em que vivemos entender que o rótulo “made in Italy” não é uma questão de cor de pele, mas de know-how», afirmou à AFP, apontando este objetivo como algo a concretizar a longo prazo.

Joy Meribe [©AFP/Miguel Medina]
Já para os designers negros que abriram a Semana de Moda de Milão, este marco é um sonho tornado realidade. Claudia Gisèle Ntsama, designer com raízes nos Camarões, admitiu estar «um pouco nervosa» por exibir coordenados ecológicos em tons pastéis feitos totalmente de cânhamo. Já Fabiola Manirakiza, detentora da marca Frida Kiza, apostou em sedas com estampados floridos. «Em geral, somos ignorados, somos invisíveis. Mas isto é um renascimento», reconheceu Fabiola Manirakiza, cujos pais foram assassinados em 1972 no Burundi.

Porta aberta

O grupo fundado no ano passado participou na Semana de Moda de Milão, em setembro, mas apenas com um vídeo dos cinco designers que abriram esta edição do evento, destacou Mokudu Fall do Senegal. O marroquino Karim Daoudi e a nigeriana Joy Meribe completam o quinteto de designers. «Agora estamos no calendário oficial, sonho com isto desde que entrei na moda», confessou Mokudu Fall, que homenageou as origens africanas com leões, zebras sobre cetim e tons de dourado e vermelho, as cores favoritas do designer.

Antes deste marco histórico na diversidade, as coleções dos designers negros limitavam-se somente à Afro Fashion Week, que se estreou em Milão em 2016. «Durante anos nos deparamo-nos com um muro do silêncio ao bater à porta», assumiu Michelle Ngonmo.

Mokudu Fall [©AFP/Miguel Medina]
A morte do afro-americano George Floyd criou o movimento Black Lives Matter nos EUA, que inspirou protestos e o combate pela igualdade em vários pontos do globo, incluindo na Europa, onde se assiste à formação de coletivos como o Black Lives Matter in Italian Fashion. Carlo Capasa, presidente da Câmara Nacional de Moda Italiana, reconheceu que a morte do afro-americano foi um «um momento importante de consciencialização para todo o mundo». «Ficamos mais conscientes desse tema. Na verdade, podíamos ter feito mais», garante.

Por ser mulher e imigrante em Itália, Joy Meribe, diz ter trabalho o dobro para conseguir provar que possui a mesma aptidão que os colegas. A designer levou à passerelle vestidos e saias em seda 100% orgânica, onde o amarelo, o azul e o vermelho-escuro foram as cores predominantes. Tal como os outros coordenados, a coleção foi feita inteiramente em Itália.