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Designers portugueses em altos voos

Um mercado nacional «muito pequeno» obriga os designers portugueses a exportarem a maioria da roupa que criam. Os showrooms, as feiras internacionais e o comércio online são trampolins para saltos internacionais, utilizados não só pelos jovens designers, mas também por nomes consagrados da moda lusa.

São uma espécie de “designers pelo mundo” que espalham o nome português além-fronteiras, desfilam nas capitais da moda, vestem celebridades e vendem para mercados variados, da Escandinávia ao Japão. No Portugal Fashion (ver Portugal Fashion entre estreias e regressos), foi dado palco a quase 30 designers e marcas portuguesas, que, na sua maioria, estão focados em mercados que ultrapassam os limites geográficos nacionais.

Susana Bettencourt

«Estamos há décadas a espalhar o nome de Portugal e a explicar que Portugal não é só fábrica de quantidades. Também tem design. O que estamos aqui a fazer é a ser relações públicas de Portugal e a mostrar ao mundo que fazemos design, fazemos qualidade e temos mão de obra qualificada», explica, ao Portugal Têxtil, Susana Bettencourt, que se estreou no Portugal Fashion em 2011 e já participou na London Fashion Week e na Vancouver Fashion Week, além de ter realizado um desfile na Malásia.

Miguel Vieira

A internacionalização é palavra de ordem para nomes bem conhecidos das passerelles portuguesas como Miguel Vieira ou Diogo Miranda. O primeiro exporta cerca de 80% do que cria. «Toda a vida vendemos em termos internacionais. O mercado nacional é muito pequeno. Mas isso é verdade para muitos países. Um designer não pode estar focado no seu próprio país, como os franceses ou os italianos», garante Miguel Vieira. O criador de moda, com 30 anos de carreira, revela que os seus clientes chegam de todo o mundo.

Já Diogo Miranda está focado no Médio Oriente, admitindo que a internacionalização é a sua grande aposta desde 2014, altura em que lançou a loja online. «É no Médio Oriente que a marca mais vende, em países como o Dubai, por exemplo. As nossas peças, a nível de volumes e de formas, acabam por ir ao encontro a esse mercado», revelou ao Portugal Têxtil.

Diogo Miranda
Hugo Costa
Carlos Gil

O designer Hugo Costa, presença assídua em showrooms internacionais, estreou-se na Semana de Moda Masculina de Paris em junho de 2016 e tem como mercado primordial a Ásia. «Temos clientes no Japão, Hong-Kong… Só temos um cliente em Espanha», aponta. «A aposta é internacional porque não há mercado para o nosso conceito de marca e o poder de compra cá é reduzido. Se ficarmos focados no mercado nacional, podemos ter vida curta», alerta Hugo Costa.

A Ásia é também o principal destino da moda assinada por Carlos Gil, que vende essencialmente para mercados «como Japão, China e Dubai», adianta o designer.

Made in Portugal, designed in London

Marta Marques e Paulo Almeida (Marques’Almeida)

De igual forma, há marcas portuguesas, totalmente produzidas em território nacional e desenhadas por criadores de moda portugueses que são pensadas a partir de Londres, onde os designers vivem. É o caso da Marques’Almeida, fundada por Paulo Almeida e Marta Marques. A marca participa, desde 2010, na London Fashion Week com a linha de roupa e acessórios femininos. Rihanna, FKA Twigs, Beyoncé, Solange ou Sarah Jessica Parker vestem criações Marques’Almeida. A marca estreou-se no Portugal Fashion no Porto, depois de ter participado também pela primeira vez na Semana da Moda de Paris.

Entre Paris e Londres, «não há nenhum plano demasiado definido» assegura Marta Marques ao Portugal Têxtil. Hoje, a Marques’Almeida é comercializada em cerca de 100 pontos de venda e marca presença em plataformas de comércio eletrónico como Yox Net-a-Porter, Farfetch e MatchesFashion.

Também por Terras de Sua Majestade há outra designer portuguesa a vestir celebridades. Sofia Kha, marca de Ana Teixeira de Sousa, desfilou igualmente pela primeira vez em solo português na última edição do Portugal Fashion. A designer, que nasceu em Felgueiras no seio de uma empresa têxtil (onde produz as suas criações), tem na carteira clientes como Beyoncé, Sarah Jessica Parker, Kylie Minogue e Keira Knightley, sendo o seu principal mercado os EUA.

Ana Teixeira de Sousa (Sophia Kah)

A marca lançou a primeira coleção em 2011 e, em Portugal, está representada numa loja em Lisboa. O objetivo agora «é chegar a outros países, através do online e da presença em showrooms», adianta Ana Teixeira de Sousa ao Portugal Têxtil.

Quando Portugal é o principal foco

Carla Pontes
Estelita Mendonça

De igual modo, há designers cujo principal mercado é Portugal. Exemplo disso é Carla Pontes, que marca presença em lojas no Porto, Lisboa, Viseu, Espinho e Coimbra. Ainda assim, também vende para países como Kuwait, Arábia Saudita, Japão e França. O canal online também ajuda, daí a aposta recente numa plataforma eletrónica.

Online e Portugal (que representa 45% do volume de negócios) são também as grandes apostas de Estelita Mendonça, que já fez desfilar as suas criações na Vienna Fashion Week. «Percebemos que temos um mercado interessante aqui. Acho que há uma falta de cultura geral e de cultura de design gigante, mas acredito que as pessoas se importam cada vez mais com o que está a acontecer no mundo da moda», afirma o designer. «Temos que tentar vender cá. Não podemos dizer que vendemos lá fora e está feito… Claro que apostei primeiro lá fora, mas as vendas em Portugal estão a funcionar bem», admite.

Emergentes querem voar

Sara Maia

De olhos postos no futuro, os designers mais jovens também querem voar, com o canal online e os showrooms como parceiros. É o caso de Sara Maia, cujo maior objetivo será, a partir de agora, a internacionalização. «Neste momento estou muito virada para os países nórdicos, como a Suécia e a Dinamarca. É onde acho que me enquadro melhor, dentro de um sector europeu. É uma necessidade de um designer de qualquer país. O público português é um bocado conservador, principalmente as mulheres, que têm medo de arriscar», reconhece a designer.

Nycole
David Catalan

Por seu lado, Nycole está já presente em algumas lojas no Japão, fruto de ações internacionais em Paris. «O meu mercado é asiático. É onde me quero focar é onde tem imensas facilidades financeiras, a nível de IVA e pagamentos. Sinto que os asiáticos apostam em diferença e não se importam de pagar pela diferença», justifica.

Inês Torcato

No Japão também é possível encontrar peças de David Catalán. «Estamos em lojas novas no Japão e em Los Angeles. O principal mercado é o asiático», aponta.

Já Inês Torcato está a investir em feiras e showroom em Paris, com o apoio do Portugal Fashion, onde vão clientes do mundo inteiro. «Gostava, daqui a um ano, conseguir entrar no mercado asiático e países nórdicos. Para quem faz roupas menos comerciais, é uma necessidade. Existe pouco público em Portugal que veste roupa mais alternativa», afirma.

Turismo ajuda a moda

Nuno Baltazar

A crescente afluência turística tem ajudado os designers a internacionalizarem-se, sem saírem de portas. A loja de Nuno Baltazar mudou-se da Boavista para a baixa do Porto, o que fez com que as vendas «aumentasse significativamente», sublinha. «É uma dinâmica completamente diferente, um Porto mais moderno e com mais energia. Isso reflete-se em mim e nas vendas. Não só o volume de vendas, mas o tipo de venda. Os turistas privilegiam as peças mais autorais, mais especiais e isso agrada-me», esclarece.

Teresa Martins

Teresa Martins, por sua vez, possui um ponto de venda no Chiado, em Lisboa, onde 80% dos clientes são estrangeiros. Aliás, as vendas internacionais representam cerca de 70% do negócio da designer, que tem Inglaterra, França, Espanha e Itália como principiais mercados. «Portugal é pequenino», reconhece, sem deixar de realçar que o canal online é «essencial» (ver Moda em Mudanças).

Luís Sanchez e João Branco (Storytailors)

No Chiado está também a loja da Storytailors, marca formada pela dupla João Branco e Luís Sanchez. «Com a popularidade de Portugal, os nossos clientes são muitas vezes pessoas que estão a descobrir Portugal. Vêm do Canadá, EUA, Austrália, Holanda, Noruega, Suécia, Japão e Inglaterra», enumera João Branco. «O crescimento internacional é uma batalha diária e um sonho que se alimenta», assegura ao Portugal Têxtil.