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Despedimentos colectivos com passagens bíblicas

A saga dos trabalhadores da Safil está longe de terminar. Desta vez o protesto das 40 operárias foi abafado por passagens bíblicas, proferidas pelo administrador da empresa, Joaquim Simões. Com os argumentos bíblicos o administrador pretendia esclarecer que os protestos das operárias não tinham fundamento pois, segundo S. Mateus, na “Parábola dos trabalhadores da Vinha”, onde é explicada a salvação, refere-se que não existe distinção entre os trabalhadores da vinha, sendo assim, as indemnizações a pagar devem ser as mesmas para todos os funcionários quer estejam na empresa há um ano, quer trabalhem nela há 10. As operárias nem queriam acreditar no que estava a suceder, “primeiro só me apetecia rir, mas depois até chorei” disse Fátima Matos, umas das trabalhadoras que desde há uma semana luta para não perder o seu emprego ou para, pelo menos, receber o que é seu por direito. Desde o início do ano que estavam a suceder várias mudanças de turno e até mesmo mudanças de lugar, o que levou as operárias a desconfiar que alguma coisa não corria bem. A resposta a esta suspeita foi dada quando em férias receberam uma carta a informar que “por conveniência de serviço” as férias seriam prolongadas por mais dois dias. E só quando voltaram ao trabalho é que os funcionários foram “convidados” a abandonar a empresa a troco de um cheque de cerca de 200 contos e uma carta para o Fundo de Desemprego. Este montante seria igual para todos os trabalhadores e servia, alegadamente, para “pagar os direitos”, o que deixou as operárias perplexas. Seguiu-se uma semana de protestos que terminou em “aulas de catequese” por parte do administrador da Safil, que mostrando ser um homem extremamente católico ( é ministro da Comunhão na paróquia de Vermoim), pensava que com estes argumentos poderia convencer as funcionárias, o que não aconteceu. Resignadas com o facto de não poderem reaver o seu emprego, já que a Safil irá manter em funcionamento unicamente as secções de tinturaria e acabamentos, as operárias apenas querem que lhes seja dada a quantia “justa” que lhes permita viver até à pré-reforma. Mas Joaquim Simões garante não estar disposto a pagar mais nada, acrescentando que “as cartas de despedimento e as indemnizações já seguiram pelo correio”. O empresário atira a culpa de toda esta “confusão que se está a passar” para o sindicato. “Os sindicatos mandam e os trabalhadores obedecem, como se fossem carneirinhos e não tivessem cabeça para pensar”, refere Simões. No que diz respeito à leitura da bíblia, Joaquim Simões refere que “há dois mil anos atrás, também faziam pouco de Jesus Cristo”.