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Desporto aquece China

Os consumidores chineses, que ainda vão às compras em busca de status, estão a voltar as suas atenções e carteiras para as marcas desportivas ocidentais. A Adidas e a Nike estão atentas e comprometidas em explorar este renovado interesse, transformando uma predisposição em números.

Para Alex He, residente em Pequim, uma viagem ao shopping pode facilmente chegar aos 3.000 dólares (aproximadamente 2.707 euros). Com 29 anos, He trabalha na banca e apesar de não visitar regularmente estes espaços comerciais, quando o faz, «compra muito», revela à Bloomberg.

As compras recentes de He incluem vários pares da Adidas, mas também shorts e camisas da Under Armour. «Costumava comprar muitas marcas de luxo, mas no último ano, sensivelmente, tenho comprado mais marcas desportivas, porque são mais confortáveis e mais elegantes», justifica.

A campanha do presidente Xi Jinping, que determinou a redução do consumo de artigos de luxo pelos funcionários públicos, tem prejudicado as vendas de marcas como Pernod Ricard, Hugo Boss ou BMW. Mas, se as casas de luxo e o sector automóvel estão em sofrimento, as insígnias desportivas prosperam.

As vendas da Nike no Império do Meio estão em escalada, com as encomendas de setembro a abril a aumentarem entre 27 e 35%. Em junho, a empresa anunciou que vai trabalhar com o Ministério da Educação chinês para formar até 7.000 professores de educação física. «A geração de hoje é a menos ativa da história e nós podemos ajudar a mudar isso», explicou o CEO da Nike, Mark Parker, em comunicado.

Já na Adidas, as vendas no país cresceram 38%, para os 2,47 mil milhões de euros, no ano passado, sendo atualmente responsáveis por cerca de 15% da receita global da empresa germânica.

No ano passado, a segunda maior marca desportiva do mundo abriu mais de 500 lojas na China, elevando o total para cerca de 9.000. Entretanto, já anunciou que vai abrir portas a mais 500 pontos de venda no país ainda este ano. «Estamos muito bem na China», afirmou no início de maio Herbert Hainer, CEO do Adidas Group. As vendas para o mercado chinês aumentaram 22% no primeiro trimestre. «O consumidor chinês realmente aprecia o que nós lhe damos», acrescentou Hainer.

Preocupados com a saúde

Os chineses estão, também, cada vez mais preocupados com a sua saúde. A indústria de fitness registou vendas de 127,2 mil milhões de yuans (aproximadamente 17,3 mil milhões de euros) em 2014, um aumento de 84% em relação a 2009, de acordo com um relatório de março do jornal China Daily.

Os dados apontavam para 3.650 clubes de fitness em 2014, superando os 2,930 de 2009. O governo chinês está a incentivar esta tendência, na esperança de recolher mais interesse em torno das práticas desportivas antes de Pequim receber os Jogos Olímpicos de Inverno, em 2022 (ver Mudança de rota no consumo chinês). «Estamos a assistir a uma onda de consumidores que começou a praticar corrida e outros desportos», sublinha Colin Currie, diretor da Adidas na China.

A indústria desportiva chinesa está, contudo, subdesenvolvida. O desporto representa 3% do PIB nos EUA, mas foi responsável por apenas 0,7% do PIB da China no ano passado, segundo um relatório de janeiro do Banco Industrial e Comercial da China (ICBC).

O boom desportivo está, porém, a afetar as marcas chinesas. A concorrência da Adidas, Nike e outras marcas está a prejudicar muitas delas, revela um relatório da Fitch Ratings de junho. A Fitch alertou para o facto de «as margens dos fabricantes domésticos poderem ficar sob pressão nos próximos cinco anos devido à concorrência crescente, à sua flexibilidade de preços limitada e aos custos crescentes com os trabalhadores». Com uma classe média mais focada no fitness, os consumidores «podem procurar pela identidade de marca e pela diferenciação do produto, que são fracos nas marcas domésticas», destacou ainda o documento.

A Peak Sport, que tem 6.000 lojas na China, anunciou em maio que as vendas no primeiro trimestre estagnaram, com a empresa a endereçar o fraco desempenho à quebra na confiança dos consumidores e ao mau tempo. Já a Wisdom Sports, empresa de eventos desportivos com sede em Pequim, tem uma agenda lotada de eventos para este ano, incluindo 35 maratonas e 75 provas de ciclismo. Mas as suas ações já caíram 57% em 2016.

Mesmo a Anta (ver Corrida chinesa), a marca chinesa na liderança, com mais de 9.000 pontos de venda, viu as ações da empresa caírem 27% até à data e as vendas comparáveis estagnarem no primeiro trimestre de 2016.