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Desporto ganha velocidade

O desporto continua a ser uma influência fundamental na moda e nos consumidores. Atentas à tendência, as empresas portuguesas de tecidos e malhas estão a incluir nas suas coleções propostas mais casuais para servir este mercado em crescimento.

Paulo Augusto Oliveira (Paulo de Oliveira)

Os códigos de vestuário mais casuais e a disseminação do desporto como um símbolo de status estão a levar a um crescimento significativo do mercado do sportswear um pouco por todo o mundo. O aumento do valor gasto per capita em calças versáteis e leggings é um indicador da quota crescente da categoria no guarda-roupa quotidiano dos consumidores. De acordo com os dados do estudo “Sportswear in Western Europe” do Euromonitor International, as vendas de sportswear atingiram os 63 mil milhões de dólares (57 mil milhões de euros) na Europa Ocidental. Este valor foi, contudo, bastante superior na América do Norte (123 mil milhões de dólares) e na Ásia-Pacífico (83 mil milhões de dólares). As projeções apontam para que, só na Europa Ocidental, as vendas de sportswear atinjam os 74 mil milhões de dólares em 2023, graças a uma taxa anual de crescimento de 3%.

O estudo sublinha ainda que a estética do desporto e do exercício físico espalhou-se rapidamente como símbolo de estatuto entre os consumidores europeus e, como tal, o vestuário inspirado no desporto é a principal categoria por valor de vendas na maioria dos mercados, tendo representando 27% das vendas de sportswear na Europa Ocidental em 2018.

Tecidos em sintonia

As propostas das empresas portuguesas de tecidos para o outono-inverno 2020/2021 estão em sintonia com esta tendência de mercado. «Cada vez mais os nossos tecidos, apesar de um aspeto formal, têm sempre essa vertente de poder fazer peças com aparência desportiva», afirma Rita Fortes, diretora comercial da Riopele.

Rita Fortes (Riopele)

«Temos uma série de peças desenvolvidas com um tecido aparentemente formal que depois se pode transformar numas calças jogging – um modelo desportivo com um tecido formal», revela ao Jornal Têxtil. Aliás, explica, as propostas da Riopele, que «é conhecida pelo tailoring, encaixam perfeitamente, porque é mesmo esta tendência de pegar em tecidos formais e passá-los para modelos sport».

O mesmo acontece no grupo Paulo de Oliveira, tanto com a empresa epónima, como na Penteadora. A Paulo de Oliveira tem uma nova gama de overcoat para outerwear pensada para sobretudos, parkas e blusões, «numa vertente mais sportswear, caracterizada por estruturas especiais como acolchoados, revestimentos e laminados com espumas ou membranas, cujas propriedades podem apresentar permeabilidade ao ar, repelência à água, corta-vento, etc.», destaca o administrador Paulo Augusto Oliveira, que assegura que «temos de criar produtos onde incorporemos algum do nosso saber-fazer para fazer produtos diferentes, mais desportivos».

António Teixeira (Penteadora)

Já António Teixeira, administrador da Penteadora, garante que «as nossas propostas têm sido muito bem recebidas e captadas como muito interessantes. A Penteadora esteve sempre muito ligada e identificada como uma empresa tradicional, com uma coleção correta mas que trazia pouco de novidade em termos de cor e atrevimento. Agora temos ouvido um “uau” de clientes e boas casas internacionais fazem essa referência, como o grupo PVH. Isso quer dizer que estamos no caminho de descolar um bocadinho dessa imagem, o que é ótimo». O esforço é de continuidade. «Estamos a tentar aprender e compreender o que é a evolução do mercado e o que podemos, com os nossos produtos, adaptar e ir ao encontro dessas linhas do sportswear», indica António Teixeira. No entanto, essa adaptação coloca desafios. «Com tecidos de teia e trama, no caso da nossa produção, não é fácil caminhar nessa direção, mas estamos a fazer isso mesmo», assume, realçando a linha Hybrid, que combina lã com outras fibras. «Estamos também a tentar introduzir alguns produtos mais básicos, dando-lhes eventualmente novas funcionalidades e outra performance em termos de conforto. Exagerando, por exemplo, na elasticidade dos mesmos, tentamos aproximar-nos daquilo que são linhas mais jovens», acrescenta o administrador da produtora de tecidos laneiros.

Malhas jogam no conforto

O conforto é igualmente uma área que está a ser aprimorada pela Adalberto. «Hoje, as pessoas têm uma grande preocupação com o bem-estar e são menos formais», assevera Paulo Ferreira, CSO da especialista em tingimento e estamparia.

Paulo Ferreira (Adalberto)

«As peças são construídas para que tenham uma vestibilidade bastante mais confortável e os próprios tecidos são tratados com essa preocupação – têm um cair melhor, um toque mais suave e um aspeto mais natural», aponta.

O sportswear está ainda a influenciar, embora não seja o foco, a RDD. «A sociedade tem de se inspirar em qualquer coisa e quem quer vestir tenta sempre procurar uma identidade. Essa identidade, neste momento, está a vir do mundo desportivo, uma influência que é usada nos concertos, pelos DJs, pelos rappers, que se vestem desta maneira desportiva e técnica», explica Elsa Parente, diretora-geral da empresa de malhas.

Como tal, «as casas de moda estão a trazer isso. Não textualmente como está a ser apresentado, porque às vezes as matérias não são para o dia a dia, mas estamos a tentar receber essa informação e transformá-la», esclarece, dando como exemplo a Zegna para o universo masculino e a ottod’Ame. «Temos uma procura muito grande em clientes que há uns tempos acharíamos impensável eles pedirem este tipo de peça mais casual. Todos estão a querer criar estas linhas em gamas médias/altas, clientes muito clean e muito mais clássicos», adianta.

Elsa Parente e Francisco Rosas (RDD)