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Diferenciar pela sustentabilidade

A sustentabilidade está na ordem do dia e cada vez mais se integra na identidade ética das empresas e/ou marcas. Foi com este tema que o CENIT decidiu encerrar o ciclo de conferências do Futures.ModaPortugal, convidando Braz Costa do CITEVE e Ana Silva Tavares da Tintex Textiles para conduzirem o debate.

Ana Silva Tavares e Braz Costa

No contexto do Futures.ModaPortugal, o CENIT – Centro Associativo de Inteligência Têxtil recebeu ontem, pela última vez, um novo workshop, desta vez dedicado ao tema da “Sustentabilidade na Indústria da Moda”. Braz Costa, diretor geral do CITEVE, e Ana Silva Tavares, diretora de sustentabilidade (CSO) da Tintex Textiles vieram oferecer o seu testemunho e promover o debate de ideias sobre o assunto, no sentido de auxiliar os novos criadores a definirem uma estratégia eficiente que siga esta tendência do mercado.

O Futures.ModaPortugal é um programa que visa «identificar boas ideias e submetê-las a um processo de aceleração de negócios, capaz de as transformar em empresas competitivas», esclarece a sua plataforma online. Neste sentido, o CENIT reservou o dia de amanhã, quinta-feira, para o “Empreendedorismo e Novos Negócios”, mote sob o qual irão ser apresentados, avaliados e, posteriormente, premiados os projetos finalistas de vários criadores de marcas e/ou empresas que visam prosperar no mundo da indústria têxtil e da moda. As inscrições para assistir à conferência já estão abertas, mediante a inscrição em https://futures.modaportugal.pt/.

Esta iniciativa faz parte de um ciclo de conferências que se estreou a 11 de outubro com o tema “A Formação na Indústria da Moda”, pelas vozes de Pedro Guimarães, chefe de unidade da Qualificação da Formação do MODATEX, e Elsa Faria, coordenadora de formação do CITEVE, ao qual se seguiu, na semana seguinte, o workshop sobre “Inovação”, com Miguel Neiva, criador do sistema de identificação da cor para daltónicos ColorAdd, e Fernando Merino, diretor de inovação da ERT. A terceira semana foi consagrada à discussão sobre “Marcas/Marketing e Design”, tendo como convidados Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia do Porto, e o designer de moda Júlio Torcato.

Narrativas «bonitas» para criar valor

Desde que assumiu a direção-geral do CITEVE, em 2000, Braz Costa não descansou enquanto não tornou o centro tecnológico numa organização de referência em matéria de inovação e promoção da indústria têxtil e vestuário, no âmbito nacional e europeu.

Braz Costa acredita que a sustentabilidade, para além de ser «um tema sensível a todos», representa também um território desconhecido, já que «ninguém sabe muito bem o que é». Nos últimos anos, as empresas têm vindo a sentir o peso crescente desta temática nas decisões de compra do consumidor, pelo que procuram cada vez mais introduzi-la no seu processo produtivo, de modo a garantir a satisfação das suas necessidades. Contudo, o diretor-geral do CITEVE sustenta que, apesar de os portugueses não terem «uma grande tradição de criar narrativas interessantes, bonitas, à volta dos nossos produtos», «a sustentabilidade não pode deixar de ter esta componente do nosso lado: saber contar uma história, valorizar o nosso produto». Além disso, endereçar este tema no sector é «muito intensivo em termos de investigação e desenvolvimento».

Braz Costa

Deste modo, Portugal é obrigado a enfrentar dois desafios que não integram o seu «core de competências», explica Braz Costa, de forma a obter valor acrescentado e diferenciar-se pela sustentabilidade, face a uma concorrência barata, cujo nível de preços não é praticável pelas empresas portuguesas. Neste contexto, é essencial definir uma estratégia que tenha por base o investimento em inovação e desenvolvimento, já que «o caminho certo no sentido da sustentabilidade e, mais ainda, para este conceito da economia circular, só se faz com grande intensidade de conhecimento, logo à partida ao nível da tecnologia».

Atualmente, o processo de reciclagem e reutilização de fibras está ainda muito aquém dos objetivos estipulados, porque ainda «não temos forma de desmantelamento das peças para reencaminhar cada um dos materiais [que as compõem] por vias diferentes no processo de reciclagem», reflete o diretor. «Precisamos de tecnologias que permitam a separação» e, ao nível da confeção, é necessária uma alteração da «engenharia que colocamos na construção e produção da peça, para facilitar o processo futuro da reciclagem», prossegue Braz Costa, referindo que o sector automóvel é aquele que conquistou mais progressos nesta área.

Assim, o CITEVE prepara-se para lançar, no início do próximo ano, um departamento exclusivamente dedicado à sustentabilidade, de modo a acelerar as inovações tecnológicas neste campo e integrá-las nos processos produtivos das empresas, permitindo, não só, minimizar as lacunas da reciclagem e reutilização de fibras, como também acompanhar os progressos alcançados até ao momento no que diz respeito à exploração de matérias-primas mais ecológicas e alternativas sustentáveis na produção, que reduzam a pegada ambiental da indústria têxtil e vestuário.

O segredo é a transparência

Por sua vez, Ana Silva Tavares ocupa, desde 2015, o cargo de diretora de sustentabilidade (CSO, na sigla inglesa) da Tintex Textiles, uma função que, tal como explica Braz Costa, «não existia há uns anos atrás». Dada a crescente importância deste tema no seio empresarial, Ana Silva Tavares assumiu, então, a responsabilidade de monitorizar os sistemas sociais e ecológicos da empresa, além de promover a sua consciencialização e certificação para garantir a rastreabilidade de todos os seus produtos.

Deste modo, a Tintex assume-se como «líder mundial no fornecimento de malhas circulares inovadoras e, ao mesmo tempo, responsáveis», sublinha a CSO, através da colaboração com centro tecnológicos, ONGs e outras empresas para incentivar o progresso dos processos que «estão ligados ao desenvolvimento dos materiais propriamente ditos e, por outro lado, ao crescimento do tingimento natural». Em 2017, a empresa decidiu apostar num rebranding e «posicionar a Tintex não como produtora, mas como uma marca», no sentido de potenciar a sua estratégia de comunicação, apresentando-se como «fornecedores de soluções», explicou a CSO.

Ana Silva Tavares

No contexto atual, Ana Silva Tavares considera que há uma dualidade entre a procura do consumidor, que «incentiva as marcas a levar o mercado para a sustentabilidade» e as empresas que não querem suportar este custo. Contudo, «Portugal situa-se exatamente no sítio da cadeia de valor onde podemos atuar, porque temos boa qualidade [e], só cumprindo a legislação, permite-nos dizer que somos muito mais sustentáveis que muitos outros países no mundo que produzem têxtil». Neste sentido, basta «arranjar uma forma de comunicar o valor acrescentado que temos nos nossos produtos às marcas», esclarece a CSO, referindo que «é por isso que Tintex se diferenciou».

Ana Silva Tavares considera que «esta banalização da sustentabilidade que se criou [fez com que] as pessoas deixassem de confiar». Deste modo, já não chega continuar a apostar nesta área – é também necessário um esforço acrescido de comunicação e de transparência, para fidelizar o cliente. «Sermos abertos e transparentes relativamente a tudo aquilo que fazemos, quer seja o melhor ou não tão bom, conta muito», corrobora a diretora. A Tintex tem «abertura para mostrar aos nossos clientes como é que processamos as nossas malhas, quem processa as nossas malhas e de onde é que elas vêm», acrescenta, principalmente no que diz respeito ao algodão, uma das matérias-primas que tem um maior peso na produção da empresa.

«O objetivo é continuar a inovar», afirma Ana Silva Tavares. Para tal, a Tintex desenvolve projetos em conjunto com centros tecnológicos, que resultam «quase sempre em tecnologias ou em produtos completamente inovadores (tingimento natural, incorporação de resíduos de outras indústrias na nossa unidade de revestimentos, como a cortiça e o serrim)» e colabora com outras empresas portuguesas, porque «acreditamos que em Portugal temos um potencial muito grande de atuar enquanto cluster». E ainda preocupa-se em apoiar «jovens designers, em estabelecimentos de ensino, como a ESAD, para influenciar a moda portuguesa, no sentido de a tornar progressivamente mais sustentável e transparente», assegura a CSO.