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Digitalização acelera na ITV

A digitalização é já uma realidade em muitas empresas da indústria têxtil e vestuário, como provaram a TMG, a Riopele e a Somelos, mas há projetos em curso para apoiar uma maior adoção destas tecnologias pelos negócios da moda, como foi revelado no seminário DigiTVC - Digitalização da cadeia têxtil.

João Oliveira

O seminário foi organizado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e o CITEVE no âmbito do projeto internacional Interreg Sudoe, que reúne entidades de Portugal, Espanha e França. «O principal objetivo deste projeto é melhorar a competitividade das empresas no sector têxtil através do processo de digitalização», explicou Isaque Pinto, adjunto na área de atividades económicas da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão. «Em termos de resultados, pretende-se promover a adoção de tecnologias digitais pelas empresas e desenvolver projetos-piloto em três principais segmentos – moda, têxteis-lar e têxteis técnicos – para depois podermos validar um protocolo de ação que seja replicável pelas empresas», acrescentou.

O processo de candidatura das empresas começa a 15 de março e decorre até 15 de abril, prevendo-se o arranque das atividades em setembro, com os projetos a ter uma duração entre nove e 12 meses. «Se as vossas empresas trabalham nestes subsectores e vocês têm o intuito de digitalizar as compras com fornecedores, a produção, as vendas, a relação clientes, gestão de recursos humanos ou o desenvolvimento estratégico, eu pediria que estivessem atentos ao site digitvc.eu», sublinhou Isaque Pinto.

Este não é o único projeto em curso nesta área, somando-se ainda o projeto mobilizador STVgoDigital, o sucessor do Texboost, que é completamente devotado à digitalização. Tendo com promotor líder a TMG, o projeto reúne 23 entidades, 16 das quais empresas, e está estruturado em cinco subprojectos: I&D têxtil sustentável e circular 4.0; cadeia de abastecimento 4.0; ecossistema da moda 4.0; trabalhador 4.0; e inteligência artificial para a ITV 4.0. «É um projeto focado não na tecnologia em si, mas na aplicação dessa tecnologia», esclareceu João Oliveira, coordenador da agenda de transformação digital e indústria 4.0 do CITEVE.

João Oliveira revelou ainda que foi submetida uma candidatura para um polo de inovação digital da moda, que junta têxtil, vestuário e moda. «É uma oportunidade de criar algo que possa ser de facto motor de uma transformação», afirmou.

O seminário serviu ainda para apresentar três exemplos práticos de implementação de estratégias de digitalização, no caso da TMG, da Riopele e da Somelos.

TMG em todas as frentes

Na TMG, a digitalização é uma realidade há vários anos, com a empresa a dar passos nesse sentido em quatro áreas: produção, manutenção, cadeia de valor e consumidor. «O estado pandémico veio amplificar a velocidade deste movimento que não é, na minha opinião, uma questão meramente informática, mas sim um tema que envolve transversalmente toda a organização, desde a produção à atividade comercial», apontou Manuel Gonçalves.

Manuel Gonçalves

Na área da produção, revelou o administrador da TMG, «vivemos uma era em que os equipamentos tendem a gerar muita informação e se, a esta informação, aplicarmos algoritmos matemáticos e redes neurais podemos aumentar a nossa eficiência e diminuir o desperdício. A TMG já iniciou este processo com empresas especializadas na área da computação, no sentido de começar a ter estes ganhos de eficiência e estas reduções de desperdício».

Numa primeira fase, o processo deverá permitir compreender melhor as diferentes variáveis que influenciam a qualidade e o desperdício, passando depois para uma segunda fase onde, com variáveis «mais afinadas», seja possível obter informação em tempo real e, dessa forma, intervir mais rapidamente. «Numa terceira fase e aqui já com volume elevado de histórico de dados, então podemos criar redes neurais para desenvolver ferramentas avanças de análise», elucidou Manuel Gonçalves. «A quarta fase que, digamos, será a cereja no topo do bolo, é simular antes de produzir», acrescentou o administrador, dando como exemplo a tinturaria. «Se pensarmos no tingimento de um tecido com determinadas características, por exemplo, de solidez à luz, normalmente o que o colorista faz é combinar o conjunto de corantes de forma a conseguir o menor custo, mas atingir as características exigidas. E é capaz de fazer cinco ou seis ensaios antes de acertar. Se através destes algoritmos conseguirmos fazer simulações, certamente o colorista vai apenas fazer um ensaio e atingir imediatamente com os resultados pretendidos», exemplificou.

Na área da manutenção, o ónus está colocado nos fornecedores de equipamentos, que cada vez recolhem mais informação sobre a utilização dos seus equipamentos e, com isso, estão a desenvolver «algoritmos matemáticos que permitam uma maior precisão nos momentos e nas peças a serem intervencionadas», apontou Manuel Gonçalves.

No âmbito da cadeia de valor, «claramente uma das áreas em que o estado pandémico veio acelerar a transformação», como salientou o administrador da TMG, estão a ser feitos avanços na desmaterialização de amostras. «Toda a gente está a perceber que pode poupar muito dinheiro, que pode encurtar dramaticamente os tempos de desenvolvimento, bem como os tempos de produção, ao agilizar os processos administrativos e esta nossa impossibilidade de deslocações é o que nos está também a fazer ver outras formas de fazer o mesmo com mais eficiência. Hoje claramente existe tecnologia que permite criar uma coleção, um moodboard, um catálogo digital sem produzir uma única peça», reforçou, adiantando que «começamos a ter clientes verdadeiramente empenhados em digitalizar todo o seu processo de desenvolvimento, de produção e de comercialização dos seus produtos», o que em si é «um desafio grande para empresas industriais que têm que acompanhar. Aqueles que forem à frente neste processo, vão ter a capacidade de captar mais clientes», acredita Manuel Gonçalves.

Por último, a evolução do consumidor e a adesão às novas tecnologias estão a deixar os intermediários para trás, gerando novas oportunidades para as indústrias. «Na área têxtil temos aqui oportunidades na aproximação do consumidor à indústria e podemos e temos a capacidade para promover soluções de customização de produção por medida», referiu o administrador da TMG.

Riopele orientada para o digital

Há pelo menos uma década e meia que a Riopele tem implementado um programa de transformação digital, garantiu Rui Godinho Oliveira, diretor de sistemas de informação da empresa, tendo mesmo sido a primeira empresa têxtil, a nível mundial, a implementar o ERP SAP «desde a produção do fio até à peça confecionada». É nesse sentido que nasce a Riopele Digital, que «não é mais do que pegar na nossa espinha dorsal de processos e começar a inovar, quer nos processos internos, quer nos processos de relacionamento com os clientes e fornecedores, quer com a própria dinâmica das equipas dentro da empresa», resumiu.

Rui Godinho Oliveira

Por isso mesmo, na perspetiva da empresa, que é vertical, «em termos de digitalização, pensamos que a pandemia não veio mudar nada, veio simplesmente acelerar», afirmou Rui Godinho Oliveira. No entanto, há alterações no ambiente de negócios, até porque, citou, «os analistas dizem que cerca de 80% das marcas de moda, que são os clientes a jusante de empresas como a Riopele, vão ter problemas financeiros com o lockdown».

Em termos de mercado, as questões da transformação digital e da sustentabilidade vão também ter impacto na organização das empresas. «A transformação digital já vinha em ritmo acelerado e agora vai ser fundamental para quem quiser continuar no mercado. E a transformação digital vai influir na criatividade e na excelência operacional das cadeias de valor», assegurou o diretor de sistemas de informação da Riopele, acrescentando que «os dados vão ser um ativo valiosíssimo no futuro e, portanto, esse ativo que muitas empresas têm dentro de portas tem que ser tratado e aproveitado. No caso da Riopele, temos muitos dados na empresa que estamos a tratar como um ativo», garantiu Rui Godinho Oliveira, destacando ainda o papel do capital humano. «Na Riopele acreditamos que, cada vez mais, o papel das pessoas é fundamental», realçou.

Tendo em conta estas mudanças, que vão «dar origem a uma nova cadeia de valor, com novos modelos operacionais de negócio e novas oportunidades», a Riopele criou «uma framework para lidar com a transformação digital», tendo por base uma forte infraestrutura tecnológica, incluindo dois data centers de última geração. «Não vale a pena estarmos a construir aplicações muito inteligentes, muito inovadoras, muito à frente quando não temos uma base que sustente tudo isso», reconheceu. A somar a isso, «as pessoas têm de estar preparadas, não vale a pena comprar tecnologia, contratar consultores quando estrategicamente a empresa não está orientada para o digital», admitiu o diretor de sistemas de informação.

Em cima dessa estrutura, a empresa tem diferentes pilares de evolução, incluindo novos modelos de negócio digital como as parcerias com retalhistas de moda para desenvolver tecidos e coleções em conjunto, graças à tecnologia digital.

A Riopele está ainda «a fazer um grande trabalho num projeto chamado R+, em que estamos a analisar todos os parâmetros produtivos e estamos a descobrir algoritmos e redes neuronais de inteligência artificial que nos vão permitir fazer tecidos com maior assertividade e menor grau de desperdício», afiançou Rui Godinho Oliveira.

E ao nível do marketing e das vendas, a empresa está a desenvolver tecnologias em parceria para criar tecidos e aplicá-los em modelos 3D sem necessidade de produção. «Com digitalização e com as amostras digitais de tecidos e de outro tipo de acessórios é perfeitamente possível fazer uma imagem com aspeto 100% real sem ter que estar a perder tempo a desenvolver o tecido fisicamente», declarou.

Somelos otimiza produção

Com duas coleções com mais de 3.500 artigos, 8.000 artigos faturados por ano, uma produção anual de 8.500 teias e 75 mil movimentos de fio, a operação produtiva da Somelos é complexa e, pelos métodos tradicionais, exige muita mão de obra para responder às necessidades, asseverou Rui Sousa, responsável da Fluxodata, a empresa de desenvolvimento de soluções aplicacionais para a indústria têxtil que nasceu da autonomização do departamento de tecnologias de informação do grupo Somelos.

Rui Sousa

Isso fez com tenham procurado fazer mudanças «e nos últimos dois anos temos tido algumas alterações ao processo produtivo [da Somelos] de forma a torná-lo mais ágil e mais rápido», adiantou.

A empresa faz já, há vários anos, o agrupamento de pequenas encomendas «para não estarmos a penalizar a produção com setups [que demoram quatro a seis horas] desnecessários», pelo que estavam já implementadas ferramentas de otimização na produção, nomeadamente nas teias. Contudo, «a quantidade de produtos que temos ao mesmo tempo ou repetidos é quase nulo, normalmente são artigos únicos e isso aumenta muito a pressão na parte da produção», revelou Rui Sousa. Para o setup, «o tear está parado e parado não produz – estamos a perder eficiência. Por isso tentamos arranjar uma ferramenta para otimizar o processo ao máximo», referiu. No exemplo mostrado pelo responsável, «podem ver uma teia e dois tecidos – fazemos isto para evitar fazer duas teias só porque queremos tramar os artigos de formas diferentes. E com isto poupamos um setup», explicou.

No caso dos fios usados, «temos que ter a rastreabilidade do nosso produto, para saber exatamente o que é que gastamos e em quê», apontou. O processo de alocação dos fios, que era manual, passou a ser automatizado, ou seja, «o sistema já verifica se tem ou não tem o fio, aloca o fio e dá o melhor prazo que tem para aquele fio ao planeador. O planeador não precisa de sair do sítio dele, não precisa de ligar a ninguém porque se houver stock ou encomendas previstas ele vai dizer qual é o melhor prazo que tem e o planeador pode colocar isso no sítio certo», resumiu Rui Sousa.

Em curso estão ainda outros projetos de otimização da produção, como os avisos automáticos para a produção a partir da alocação, com «algoritmos simples – não estamos a falar de nada sofisticado como inteligências artificiais. Estamos a falar em algoritmia pura, de maneira a que a gente consiga criar regras que permitam alocar sem que um humano tenha que intervir», sublinhou o responsável da Fluxodata, assim como a implementação de um sistema automático de envio para acabamento das telas e a otimização do planeamento. Este último é um projeto para os próximos dois anos que envolve não só a Fluxodata, mas também o CITEVE, a Universidade do Minho e o Centro de Computação Gráfica e pretende desenvolver «uma ferramenta que irá pegar na carga daquela tecelagem e vai tentar reorganizar melhor aquela carga, para que o indicador de performance seja melhor do que o que tinha originalmente», indicou. Com este melhor planeamento, «iremos ter melhor resposta ao cliente, melhores prazos, vamos diminuir a nossa perda devido aos setups que temos e com isto temos a diminuição de custos», enumerou Rui Sousa, confessando que «é um projeto que nos deixa muito entusiasmados».

Tudo isto a somar à digitalização da coleção, com a plataforma Somelos Digi, que foi acelerada com a pandemia. «A Somelos reagiu tendo já de base um sistema que tinha as imagens digitalizadas de todos os artigos que produz. Isso proporcionou uma hipótese de desenvolver uma ferramenta de interação com os seus clientes», contou o responsável da Fluxodata, avançando que a ferramenta foi desenvolvida em poucos meses. «A partir de meados do ano passado já estávamos a mostrar aos nossos clientes a coleção em formato digital de maneira a que eles tivessem uma ideia dos padrões», elucidou Rui Sousa, assegurando que «tivemos até novos clientes e novos contactos que não tínhamos tido antes, porque nos permitiu ganhar tempo na deslocação dos nossos profissionais».