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Digitalização ainda a meio gás na ITV

Apesar de ter uma estratégia geral para a indústria 4.0, a maturidade média-baixa ao nível da digitalização, a reduzida partilha externa de dados e a falta de competências internas fazem com que a indústria têxtil e vestuário tenha ainda um longo caminho a percorrer na transição digital, de acordo com o diagnóstico realizado pelo projeto Shift2Future.

Luís Fernandes, Rita Verdelho, José Costa, Rui Oliveira e Maria Maciel

Segundo os dados apresentados por Luís Fernandes, especialista na Quality for Excellence e facilitador do projeto Shift2Future, durante a sessão Calçado e Têxtil: no Caminho da Transição Digital, que se realizou no passado dia 8 de junho na Universidade do Minho, o nível de maturidade do sector têxtil em termos da digitalização encontra-se em 1,47 numa escala de 0 a 5, sendo o do calçado de 1,45. Embora o especialista reconheça que o próprio modelo de avaliação da digitalização esteja pensado para não gerar valores muito altos, incentivando, dessa forma, as empresas a melhorarem continuamente os seus esforços, «os valores são médio-baixos», referiu, algo antecipado também porque ambos os sectores têm «bastantes processos ainda manuais e mesmo a complexidade do produto não proporciona que às vezes existam os upgrades e as modificações necessárias», indicou.

Há, no entanto, sinais positivos, nomeadamente na área das operações inteligentes, «muito por força da maior parte das empresas já possuir um ERP, um sistema centralizado de dados, e fazerem também a recolha de dados de processos produtivos. A questão da segurança das tecnologias de informação também está muito bem aceite nas empresas e daí ter um valor mais elevado», elucidou Luís Fernandes.

Luís Fernandes

Entre as 21 empresas da indústria têxtil e vestuário que integraram o estudo, com um número médio de funcionários de 108 pessoas, uma taxa de exportação média de 74% e um volume de negócios médio de 9,8 milhões de euros em 2020, grande parte afirmou que está a desenvolver uma estratégia de indústria 4.0, com cerca de metade a indicar que a mesma está já formulada e em implementação. «Quer dizer que grande parte das empresas tem, de facto, iniciativas-piloto para a indústria 4.0, só que estas iniciativas não estão formalizadas numa estratégia. E muitas vezes essas iniciativas ocorrem por necessidades pontuais da empresa ou por algumas oportunidades de investimento», justificou o especialista da Quality Excellence. «Na minha opinião, isto também é um dos fatores que está a travar o desenvolvimento mais rápido da digitalização, porque muitas vezes essas iniciativas não estão formalizadas numa estratégia, não há um objetivo, não há um outcome esperado e não há KPIs que permitam monitorizar o desenvolvimento e implementação de diversas iniciativas», acrescentou.

Tanto as empresas da ITV como as da indústria do calçado já usam tecnologias como dispositivos móveis, nomeadamente PDAs e tablets, assim como armazenamento na nuvem e ERPs, havendo ainda quem aplique a realidade virtual e aumentada na parte das amostras e prototipagem.

Quanto aos dados, a maioria recolhe informação e usa-a, com menos de 5% a não fazer qualquer utilização da mesma. «Na têxtil, a maior parte dos dados recolhidos são usados para gestão de qualidade, transparência dos processos e logística», esclareceu Luís Fernandes. Contudo, embora esses dados sejam partilhados internamente, «76% na têxtil mencionaram que não partilham qualquer tipo de dados externamente. É um valor interessante porque ao caminharmos para a indústria 4.0, a visibilidade da cadeia de abastecimento torna-se cada vez mais importante», apontou.

Há ainda a consciência da necessidade de manter os dados em segurança, com backups em servidores internos e serviços na nuvem, mas na generalidade as empresas descuram competências como automação, análise de dados, segurança de dados, software colaborativo e competências não-técnicas no desenvolvimento da indústria 4.0. «Há aqui uma sensibilização a fazer no sentido de vocacionar estes programas de aquisição de competências para as competências que as empresas não acham relevantes, mas que vão ser muito importantes e vão colocar as empresas que as tiverem na vanguarda da digitalização daqui a uns anos», sublinhou o especialista.

Becri é exemplo

Para José Costa, CEO da Becri, estes números «mostram que, se calhar, a têxtil e o calçado estão um bocadinho atrasados em relação ao que seria desejado», um atraso que atribui ao facto de ambas serem indústrias intensivas em mão de obra e pela «muita resistência das pessoas» às mudanças, algo que sente igualmente na sua empresa. «No entanto, depois das tecnologias serem implementadas, nota-se uma viragem completa [de atitude] nessas mesmas pessoas», salientou.

Para a Becri, que tem já diversas iniciativas de digitalização implementadas, desde o ERP à utilização de tecnologias de modelação virtual, «neste momento estamos numa fase complicada na gestão das empresas do grupo, mas a ideia no futuro é realmente termos o grupo todo [que inclui uma dezena de empresas, entre unidades exportadoras e outras meramente produtivas, que funcionam de forma autónoma] alinhado da mesma forma», revelou José Costa. No passado, «muitos empresários têxteis tomaram decisões, às vezes, muito contra os indicadores que eram recebidos. Isso foi possível devido a esses dados serem poucos e terem pouca fiabilidade, mas, no futuro, acho que todas as decisões de um gestor vão ser baseadas em toda a informação que vamos recebendo das nossas empresas e que vão ser integradas no nosso grupo de forma a que possamos tomar decisões estratégicas em relação a cada uma das empresas e ao grupo em geral», acredita o CEO da Becri.

José Costa

Uma evolução necessária até porque a pandemia acabou por acelerar algumas tendências na digitalização, como aconteceu ao nível das amostras virtuais, para as quais a empresa usa a tecnologia CLO. «Começámos em 2019, avançámos, mas não pensávamos que íamos avançar tanto como avançámos, porque antes do covid havia resistências, mesmo a própria equipa do cliente tinha resistências. O que é certo é que o covid acelerou isto de uma forma que hoje temos uma equipa de trabalho de seis designers e duas pessoas só dedicadas a fazer 3D», asseverou José Costa, que assumiu que, neste aspeto, a empresa está atualmente ao nível que projetava estar em 2025. «E cada vez temos mais solicitações», assegurou. «Vai ser o futuro da indústria têxtil», realçou o CEO da Becri.

Um projeto para as PMEs

Desenvolvido em parceria entre a TecMinho, o ISQ, o IAPMEI, o CTCV e a Universidade de Aveiro, o projeto Shift2Future «pretende promover a introdução do digital, a chamada indústria 4.0, economia 4.0 na indústria e nos serviços das PMEs, capacitando-as com conhecimento, com ferramentas que permitam assegurar a sua transformação com vista a uma transição para a economia digital», explicou Eugénio Campos Ferreira, presidente da direção da TecMinho e vice-reitor da Universidade do Minho, no evento.

O projeto está organizado em torno de cinco áreas, incluindo a realização de diagnósticos com o SHIFTo4.0, que «resulta de um projeto anterior, onde foi desenvolvida uma ferramenta que passou a ser usada no âmbito deste projeto, uma ferramenta bastante importante para diagnosticar, para conseguirmos saber onde é que estamos e que permite, através deste diagnóstico, inferir onde é que se pretende chegar», destacou Eugénio Campos Ferreira. Sensibilização, formação e capacitação de PMEs, boas práticas e benchmarking, roadmaps e outras ferramentas de apoio e comunicação e disseminação do projeto são as restantes quatro áreas de atuação do Shift2Future.

Eugénio Campos Ferreira