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Dinamarca na vanguarda da circularidade têxtil

Alguns dos maiores players da indústria de moda dinamarquesa uniram forças para apoiar uma nova tecnologia de reciclagem e um projeto de design circular, cujo objetivo é reutilizar todos os resíduos têxteis do país.

[©Pexels]

A Dinamarca tem vindo a fomentar a sustentabilidade em geral, e a reciclagem em particular, como aliás poderá ser confirmado no webinar do CENIT agendado para amanhã, dia 20 de maio, consagrado a este mercado.

Uma das várias iniciativas levadas a cabo na área da reciclagem é o ReSuit – Recycling Technologies and SustainableTextile Product Design), liderada pelo Danish Technological Institute e que conta com um financiamento de 2,11 milhões de dólares (1,74 milhões de euros) proveniente do fundo de inovação da Dinamarca.

O consórcio inclui a Bestseller, a Elis, a Design School Kolding, a produtora de matérias-primas A/S Dansk Shell, a especialista em comportamento do consumidor Naboskab e as especialistas em tecnologia de reciclagem Aarhus University e Fraunhofer.

«Anualmente, 100 mil milhões de unidades têxteis são produzidas em todo o mundo e, em grande parte, tratadas como peças descartáveis», aponta Anders Lindhardt do Danish Technological Institute. «São perdidos materiais no valor de 400 mil milhões de euros porque não temos infraestruturas nem tecnologias de reciclagem de sólidos em grande escala. Neste projeto, estamos a tentar colocar todos os resíduos têxteis da Dinamarca num ciclo, onde podem ser convertidos em novos têxteis ou matérias-primas para outros produtos. Se for bem-sucedido [o projeto], pode ser um ponto de viragem», explica ao  just-style.com.

[©Bestseller]
Como a indústria têxtil pode melhorar o design sustentável e quais são as tecnologias que podem garantir a circularidade para os resíduos têxteis de consumo, contudo, são dois desafios centrais aos quais o consórcio responsável pela iniciativa tem de responder. No que diz respeito ao design, o foco é o design sustentável dos produtos têxteis, ou seja, têxteis projetados já com a reciclabilidade em mente, assim como a erradicação de substâncias que não são adequadas para as tecnologias de reciclagem futura ou que não se enquadram nos parâmetros de design para produtos têxteis sustentáveis.

«A circularidade não é uma mercadoria em stock. Precisamos de inovação disruptiva para criar as soluções circulares que procuramos na Bestseller. Trata-se de um campo extremamente complexo, por isso estamos a trabalhar em vários elementos simultaneamente para poder garantir a produção da moda sustentável do futuro», revela Camilla Jørgensen, diretora da Sustainable Materials & Innovation. «Com o ReSuit, integramos uma parceria ambiciosa e multifacetada. Aqui, os princípios de design circular da Bestseller entram num contexto significativo e, se o projeto conseguir desenvolver tecnologias adequadas com várias áreas de conhecimento, teremos uma solução unificada com um potencial de longo alcance», afirma.

Motivar a ação sustentável

No âmbito do projeto, o papel da Naboskab é precisamente o que a descrição sugere: compreender e alterar as formas de agir dos compradores, citando práticas que os motivem a atuar em função da sustentabilidade.

O ReSuit surge no sentido de acabar com as grandes quantidades de têxteis e vestuário que terminam anualmente no lixo – só na Dinamarca são 85 mil toneladas. A partir de 2022, o país vai começar a efetuar a separação de vestuário e, a partir de 2025, a União Europeia irá seguir o exemplo.

[©Unplash]
«O poliéster está em metade de todas as roupas do mundo. Portanto, vamos desenvolver ainda mais a tecnologia baseada na reciclagem química para reciclar os materiais em poliéster de forma a que possam ser reintroduzidos na indústria têxtil», destaca Anders Lindhardt.

Os restantes produtos têxteis devem ser degradados através da tecnologia de liquefação hidrotérmica (HTL), cujo processo permite, sob ação da temperatura, da água e da pressão, converter o material têxtil em derivados de petróleo que podem ser aproveitados para a produção de plástico, combustível ou fibras têxteis sintéticas. Ainda que esta tecnologia seja muito conhecida, trata-se de uma inovação quando aplicada ao têxtil.

No projeto, a tecnologia HTL será desenvolvida e ampliada pela colaboração com a A/S Dansk Shell, que testou, com sucesso, a possibilidade de refinar produtos de bio-óleo e antevê oportunidades para a reciclagem de outros produtos derivados do petróleo.