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Dinheiro das linhas de crédito ainda não chegou às empresas

O dinheiro resultante da atribuição dos empréstimos ao abrigo das linhas de crédito bonificado disponibilizadas às empresas no período da pandemia ainda não chegou às empresas.

A queixa é dos empresários, alguns têm inclusive as respetivas aprovações, quer por parte da banca, quer por parte das Sociedades de Garantia Mútua, mas ainda não têm o dinheiro disponível. Mas há também quem só tenha assegurado a aprovação da banca e aguarde ainda a aprovação por parte das Sociedades de Garantia Mútua. As queixas prendem-se assim com a morosidade do processo e o excesso de burocracia.

Há mesmo quem esteja à espera desde o primeiro dia de acesso à primeira linha, ou seja, há mais de um mês, isto apesar dos cinco maiores banqueiros em Portugal terem garantido no Parlamento que já aprovaram mais de 12,7 mil milhões de euros, mais do dobro do que está disponibilizado nessas linhas.

Luís Figueiredo, fundador e administrador da Hall&Ca, empresa que se dedica à produção e comercialização da marca Laranjinha, diz que recorreu às linhas de crédito disponibilizadas pelo Governo e não teve nenhum problema.

«Recorri logo à primeira linha de crédito disponibilizada, penso que foi a 18 de março, o processo de aprovação foi extremamente rápido, quer por parte da banca, quer por parte da Sociedade de Garantia Mútua, mas a verdade é que o dinheiro ainda não chegou», revela. «Dizem-me que até este fim de semana devo ter o dinheiro disponível», assegura o também vice-presidente da ANIVEC.

A Laranjinha recorreu ao regime de lay-off simplificado, medida apresentada pelo Governo para ajudar a mitigar os efeitos do novo coronavírus, para as lojas, mas tem a parte industrial a trabalhar.

A contar abrir as lojas de rua, o chamado comércio de proximidade, no início de maio, Luís Figueiredo pensa levantar aí o lay-off a esses trabalhadores, ficando apenas nesse registo os trabalhadores das lojas de shoppings e El Corte Inglês, cujas portas deverão abrir mais tarde.

Relativamente à parte industrial, o administrador da Hall&Ca afirma que «temos encomendas, aliás em termos de encomendas estamos semelhantes ao ano passado, mas não estamos a trabalhar a 100% porque temos algum receio que possam existir algumas anulações».

Ainda no mundo da moda infantil, a Knot foi outra das empresas a recorrer às linhas de crédito bonificado. Neste caso, Carla Caetano, administradora da empresa, adianta que «os nossos bancos, entre os quais está a Caixa Geral de Depósitos, aprovaram de imediato o nosso pedido, mas agora falta a aprovação por parte da Sociedade de Garantia Mútua».

Carla Caetano diz perceber a demora por parte da Sociedade de Garantia Mútua, devido ao excesso de trabalho que estão a ter, e aponta o dedo ao processo complexo. «Penso que o acesso às linhas de crédito devia ter sido mais simplificado, as Sociedades de Garantia Mútua não têm capacidade para responder em tão curto espaço de tempo a tanta procura», acrescenta. «A situação é grave e se o dinheiro não chega rapidamente às empresas vamos ter um problema grave», sublinha.

A administradora da especialista em moda infantil relembra que «no nosso caso, ainda temos o online a funcionar, mas há quem nem esse canal tenha e isso quer dizer que não há receitas».

De resto, a Knot diz que começou a sentir os efeitos logo em janeiro e fevereiro, altura em que os clientes internacionais deixaram de efetuar os pagamentos. Carla Caetano confessa-se ainda preocupada com «os nossos fornecedores, uma vez que temos mais de um milhão de euros de mercadoria comprada e podemos não ter como pagar». E sobretudo deixa um aviso: «há aqui um efeito secundário que ainda ninguém falou e que tem a ver com a próxima coleção, a roupa de inverno, que é preciso produzir e pode não haver condições».

Mas nem tudo é mau dentro do sector. Há empresas que estão à espera de crescer neste período de crise provocado pela pandemia.

É o caso da Clothe-up. A empresa com mais de 30 anos de experiência no mundo da moda, deixou de lado a confeção dos vestidos e está a produzir os chamados EPI’s (equipamentos de proteção individual), ou seja, batas e fatos para o Sistema Nacional de Saúde.

Pedro Fernandes, administrador da empresa com sede em Guimarães, coonta que «fazíamos vestuários e adaptámos em três dias e agora espero um aumento de faturação».

Aliás, a Clothe-up está inclusive a contratar pessoas para fazer face às encomendas.

Ainda assim, a empresa recorreu às linhas de crédito, tem as respetivas aprovações, mas o dinheiro também ainda não chegou. «Não tivemos qualquer dificuldade, é certo que o dinheiro ainda não chegou mas também só pedimos muito recentemente», indica.

Mas afinal o que está a entravar o processo?

Os cinco maiores bancos já aprovaram 12.721 mil milhões de euros no âmbito das linhas de crédito. No entanto, estas operações, depois de passarem pelo crivo dos bancos, têm de ser submetidas à aprovação das Sociedades de Garantia Mútua (SGM) e é aqui que o processo tem sofrido atrasos. O elevado número de operações que deram entrada no portal destinado para esse efeito terão inclusive levado ao bloqueio do mesmo.

A procura é tanta que os próprios banqueiros admitem que deverá ser necessário um reforço das linhas de crédito, não só no que diz respeito à dotação disponível mas também quanto ao montante que pode ser concedido em cada operação.

O Governo tem autorização da Comissão Europeia para conceder garantias estatais a linhas de crédito no valor total 13 mil milhões.

No meio da crise ainda há quem não recorra a crédito

Apesar das grandes dificuldades que as empresas de uma forma geral estão a sentir, e em particular as empresas ligadas ao sector de vestuário e confeção, há quem ainda não tenha recorrido a crédito.

Maria José Machado, da Axfilia, empresa dedicada ao vestuário profissional e de proteção, garante que «não recorri a nenhuma linha de crédito, para já não». A ideia, elucida, é que «há uma crise no setor, mas como na Axfilia não fazemos moda, continuamos a trabalhar, ainda que a um ritmo mais lento».

De resto, a empresa de Barcelos também não recorreu ao regime de lay-off simplificado, mas tem a equipa desfalcada porque tem alguns membros a recorrer ao apoio excecional às famílias.

Quem também não recorreu foi a Confeções Cruzeiro. Jorge Sampaio, administrador da empresa, assevera que tem tido o feedback de que o processo é muito complexo e burocrático, ainda assim reconhece que «estamos a analisar, mas não temos nenhuma decisão tomada».

Também Filipe Prata, da Daily Day Studios, refere que não recorreu às linhas de crédito disponibilizadas pelo Governo, apesar de ter chegado a pensar no assunto.

«Decidi não recorrer a crédito até ao limite», realça.

A empresa deixou de lado a produção de vestuário e dedicou-se à confeção de máscaras, que esta semana foram já certificadas pelo Citeve.

Filipe Prata assume que só partiram para a confeção das máscaras depois de haver regulamentação, pelo que só depois da Páscoa meteram mãos à obra. Nos últimos dias, o conjunto de cinco máscaras, que vende por 20 euros, estão a ter muita saída. De tal modo, que «esperamos ainda hoje fechar alguns contratos com institucionais. A confirmarem-se esses contratos, Filipe Prata vai levantar o lay-off. «Mal se confirme as grandes encomendas levantarei o lay-off, espero o mais tardar até segunda-feira comunicar essa decisão aos trabalhadores», avança.

Sobre a atividade da empresa, Filipe Prata reconhece que «até hoje ainda estivemos a fazer vestidos, mas agora vamos centrar-nos apenas na produção das máscaras». Até porque, adianta. «temos clientes com quem temos relação há mais de seis anos, que sempre foram pontuais a pagar, e que devido a esta crise está a ser muito difícil receber o dinheiro». Para já, garante, as máscaras produzidas pela Daily Day serão todas para consumo interno. «Enquanto Portugal precisar deste material não devemos exportar», admite.