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Direitos humanos travam Etiópia

A Etiópia ambiciona que as marcas de vestuário olhem para o país como um dos destinos de sourcing mais hospitaleiros do mundo e, de facto, os baixos salários dos trabalhadores e os baixos custos energéticos são bastante convidativos, garantindo-lhe uma posição de destaque no mapa de aprovisionamento global.

O governo do país reconhece a importância estratégica da indústria têxtil e vestuário e continua a investir no sector, construindo grandes parques industriais, como é o caso do parque industrial Hawassa. No entanto, os problemas da Etiópia no que diz respeito aos direitos humanos e aos direitos da terra podem vir a prejudicar as suas ambições, de acordo com um novo relatório da consultora Verisk Maplecroft.

Os protestos sobre a reforma agrária e a participação política têm abalado o país desde 2015, resultando na morte de centenas de pessoas e na detenção de dezenas de milhares. «O sector continua exposto a uma série de riscos políticos, sociais e ambientais», enumera Emma Gordon, analista da Verisk Maplecroft, numa entrevista à Quartz. «Muitas dessas questões provavelmente não serão resolvidas nos próximos cinco a dez anos», refere.

Estas preocupações podem afetar a indústria do algodão e travar a oportunidade de expandir a produção sustentável. A persistência do trabalho infantil, a poluição da água, a exposição dos trabalhadores a substâncias químicas nocivas e a possibilidade de regresso aos protestos também representam ameaças à afirmação do país.

A Etiópia é um dos países do Leste Africano – incluindo o Quénia, Uganda e Tanzânia – identificado como importante centro de aprovisionamento de vestuário. Numa pesquisa de 2015 da empresa McKinsey, a Etiópia surgiu em destaque como um dos países do mundo onde as empresas pretendiam produzir as suas roupas nos próximos cinco anos.

Nos primeiros seis meses do ano fiscal 2016/2017, a Etiópia atraiu investimento estrangeiro no valor de 1,2 mil milhões de dólares (cerca de 1,12 mil milhões de euros) com estas injeções financeiras a serem dominadas por grandes empresas chinesas – metade das quais no sector têxtil e vestuário (ver Etiópia atrai novos investimentos).

Gigantes da moda rápida como a H&M e a Primark também implementaram fábricas ou começaram a aprovisionar-se na Etiópia para diversificar os seus fornecedores, muitas vezes garantido em países como a China e o Bangladesh.

Entretanto, a indústria de calçado da Etiópia também está a crescer. O grupo Huajian, fabricante chinês que produz a marca de calçado de Ivanka Trump, está inclusivamente a ponderar transferir a produção para a Etiópia.

Estas operações podem ser minadas pelos protestos políticos e sociais. No auge dos protestos, em agosto e setembro de 2016, campos de cultivo de flores e propriedades comerciais estrangeiras no valor de milhões de dólares foram queimadas. O governo respondeu aos protestos, limitou o acesso à Internet e decretou o estado de emergência em outubro, que se prolongou até à data. Emma Gordon considera «altamente provável que protestos semelhantes venham a irromper», uma vez que muitas das exigências ainda não foram atendidas.

Os problemas com as terras também deverão intensificar-se, à medida que a seca vai assolando o país. Recentemente, o governo anunciou que 7,7 milhões de pessoas precisavam de ajuda alimentar. A rivalidade por solos férteis, bem como o controverso plano do governo para arrendar grandes extensões de terra a investidores estrangeiros podem comprometer o interesse das empresas na Etiópia. «Os investidores tendem a tornar-se cada vez mais impopulares dentro das comunidades das quais dependem», conclui a analista da Verisk Maplecroft.