Início Notícias Mercados

Diversificar é palavra de ordem no Bangladesh

A força do Bangladesh como produtor de vestuário low-cost pode também revelar-se a sua fraqueza, segundo dois novos estudos do Asian Development Bank, que afirmam que a produção a baixos custos pode estar a limitar a inovação e a capacidade do país para se afirmar na cadeia de valor da indústria de moda mundial.

Com uma indústria de vestuário voltada para as exportações no valor anual de 24 mil milhões de dólares (21,4 mil milhões de euros) graças aos baixos custos laborais, mão de obra abundante e acesso sem taxas a países ocidentais, o Bangladesh está a colher os benefícios do investimento realizado no sector de pronto-a-vestir.

Mas dois novos estudos do Asian Development Bank (ADB) afirmam que este sucesso surgiu, inadvertidamente, à custa de um baixo crescimento e perspetivas limitadas de desenvolvimento noutros locais.

O sector de pronto-a-vestir no Bangladesh começou no final dos anos 70 com nove empresas direcionadas para a exportação, com um volume de negócios anual inferior a um milhão de dólares. Em 2015, o país foi o segundo maior exportador mundial de vestuário, a seguir à China, e as perspetivas de crescimento continuam. Contudo, segundo o estudo “Bangladesh: Looking Beyond Garments, Employment Diagnostic Study”, uma publicação conjunta do ADB e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a economia ainda é afetada pelo subemprego, emprego informal generalizado, baixa produtividade e lucro e más condições de trabalho.

Estes fatores limitam o impacto que o forte crescimento teve na redução da pobreza, com a proporção dos trabalhadores no sector informal a aumentar para 87,1% em 2013, em comparação com 78,4% em 2005/2006. O estudo acrescenta que é essencial mudar trabalhadores para sectores mais produtivos e incita a uma diversificação substancial da produção e do emprego dentro do sector industrial.

«O sector de pronto-a-vestir e os pagamentos estrangeiros alimentaram um forte crescimento de mais de 6% na última década, permitindo à economia atingir o estatuto de rendimento médio recentemente», afirma Edimon Ginting, diretor do departamento de pesquisa económica e cooperação regional do ADB. «Para o futuro, o país pode sustentar crescimentos mais elevados através do investimento em sectores como engenharia elétrica, reparação de maquinaria e produtos agrícolas frescos. Melhores infraestruturas e reformas políticas podem ajudar o país a captar estas oportunidades», acrescenta.

Embora a indústria seja ainda o motor do crescimento e uma grande fonte de emprego, a sua base precisa de ser diversificada, argumenta o ADB. O estudo indica que o sector teria de crescer 12% a 15% nos próximos 15 anos e que o crescimento anual do PIB teria de ser de 8% para absorver completamente o excesso de trabalhadores disponíveis. Além disso, sectores mais intensivos em mão de obra, incluindo o do vestuário, terão de continuar a crescer.

«Para além de vestuário, há sectores promissores para diversificar a economia, incluindo a farmacêutica, serviços de tecnologias de informação e turismo. Aumentar o treino vocacional para os trabalhadores, melhorar a qualidade da educação, fazer uma melhor utilização do trabalho de migrantes e melhorar o acesso financeiro vai ajudar a desenvolver indústrias fora do sector do vestuário e alargar oportunidades de emprego, sobretudo para as mulheres», explica um comunicado do ADB.

O estudo “Bangladesh: Consolidating Export-led Growth – Country Diagnostic Study” aponta conclusões semelhantes, enumerando como as restrições mais críticas ao crescimento produtivo o fornecimento pouco fiável de energia, políticas que indiretamente exploram o desenvolvimento de atividades económicas não relacionadas com as exportações de vestuário pronto-a-vestir e insuficiente segurança em relação a propriedade e direitos sobre a terra devido, em parte, a sistemas de registo desadequados.

«Se forem pensadas políticas para urgentemente atacar estas restrições, o Bangladesh ficará livre para aproveitar todo o seu potencial para um crescimento ainda mais inclusivo e sustentável», indica o ADB. «É preciso, por isso, uma nova estratégia que proporcione um terreno de jogo nivelado nos sectores produtivos. Novas atividades têm de se desenvolver. Deve haver menos apoio apenas no sector de produção low-cost orientado para as exportações, o modelo de crescimento económico típico de países nas primeiras fases de desenvolvimento», acrescenta.

Analisando de forma mais profunda o desenvolvimento do sector de pronto-a-vestir, o estudo argumenta que, no seu estado atual, este tem um potencial limitado de expansão da economia porque está unicamente dependente da vantagem de custo resultante do excesso de oferta de mão de obra e de incentivos governamentais, como devolução de taxas sobre as exportações. De acordo com o estudo, se as vantagens de custo mudassem, o Bangladesh não seria atualmente suficientemente diversificado para compensar com outras exportações. Além disso, nos últimos anos a procura pela “fast fashion” tornou mais difícil para o Bangladesh subir na cadeia de valor.

O ADB afirma que a formação, para expandir capacidades, com um crescimento estável na qualidade da educação, será essencial se o país quiser desenvolver-se mais rapidamente.