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Do velho se faz novo

Os investidores de risco, a par das entidades que dominam Wall Street, investiram mais de 360 milhões de euros em negócios online de revenda e troca de vestuário, procurando antecipar-se e destroar os gigantes do retalho digital, nomeadamente o eBay e a Amazon.

James Reinhart passou meses a tentar convencer alguém, qualquer um, a investir na sua ideia – uma plataforma online de troca de peças de roupa, focada no segmento feminino e infantil. Para tal, percorria os principais núcleos de investimento de risco, da fronteira leste à costa americana do Pacífico, em busca de um investidor.

Os investidores de risco recusaram-no 27 vezes, alguns troçando da sua proposta. Reinhart, na altura recém-formado pela Harvard Business School, ignorava.

Isso foi há seis anos. Em setembro, o mercado de moda em segunda mão criado por Reinhart, batizado ThredUp, angariou 81 milhões de dólares (cerca de 73,5 milhões de euros) numa ronda de financiamento liderada pela Goldman Sachs, elevando o total de financiamento para mais de 131 milhões de dólares.

O ThredUp não é caso único. Existe uma guerra pela conquista das peças de roupa abandonadas nos guarda-fatos de cada um de nós, com os investidores a financiarem negócios online de revenda de vestuário, apoiando uma dezena de empresas, que procuram maximizar o que veem como pontos fracos da Amazon ou até do líder em revenda, o eBay.

As empresas de capital de risco estão a canalizar centenas de milhões de dólares para o segmento de revenda de vestuário em 2015. A totalidade do financiamento do sector, nos últimos cinco anos, ascende aos 400 milhões de dólares. Em janeiro, a loja de consignação online Tradesy angariou 30 milhões de dólares. No final de abril, o revendedor de artigos de luxo vintage RealReal angariou 40 milhões de dólares e o site de comércio social Poshmark conquistou 25 milhões de dólares. A loja de revenda europeia Vestiaire Collective alcançou 37 milhões de dólares numa ronda realizada em setembro. A esta seguiu-se a ronda da Goldman para o ThredUp, talvez a entidade mais generalista do sector.

«É uma categoria na qual o vencedor fica com tudo», considera Reinhart. «Os investidores de risco sabem que se escolherem o vencedor, terão uma vantagem sustentável de longo prazo», acrescenta.

E a lista continua. A Vinted, sediada na Lituânia, aposta na troca de peças. O mercado à consignação da Threadflip dirige-se, especificamente, às fashionistas que dispõem de pouco tempo. A Rebagg foca-se, exclusivamente, em bolsas de design. A Shop Hers aposta no luxo e a Vaute explora o guarda-roupa dos conhecedores de moda. A Snobswar estabelece parcerias com lojas offline. A Refashioner privilegia itens únicos e a Material Wrld troca cartões de presente por vestuário já não desejado.

Estas empresas estão a atrair o interesse dos investidores porque cada empresa procura preencher um vazio deixado pelos grandes operadores de retalho online. Embora a Amazon esteja profundamente enraizada em quase todas as categorias de produtos de comércio eletrónico e o eBay domine na revenda, muitos consideram o segmento de moda o mais vulnerável destas entidades, em peças novas ou usadas. A Amazon e o eBay prosperam como máquinas de venda automática, quase sem limites, nas quais os clientes procuram tudo. Mas a moda faz-se de curadoria meticulosa.

O eBay estreou-se no segmento de outlet de moda em 2011 e inaugurou novas lojas online de marca para os designers em 2014. Este ano, adquiriu a Twice, uma empresa de compra e venda de vestuário que angariou 23 milhões de dólares e integrou os funcionários e tecnologia da start-up nas suas próprias equipas. Existe, também, o novo serviço de consignação, eBay Valet. Apesar dos novos operadores, o eBay permanece o líder da indústria de revenda, em tamanho e seleção, e tem expandido a categoria e a sua aplicação (app), de forma a maximizar a pesquisa dos itens. «Para a moda, é realmente fundamental mostrarmos aos consumidores todo o inventário de que dispomos», sublinha Marcelle Parrish, diretor-geral de moda do eBay.

A Amazon estreou-se no mercado de vestuário em 2002, adquiriu a Shopbob em 2006 e a especialista na venda de calçado Zappos, em 2009. Paralelamente, detém a loja Amazon Fashion, a East Dane e a MyHabit. No livro “The Everything Store: Jeff Bezos and the Age of Amazon”, de 2013, o CEO Jeff Bezos afirma que «de modo a construir uma empresa de duzentos mil milhões de dólares, temos de aprender a vender roupa e comida».

« A moda poderá ser a única categoria na qual a Amazon falhou espetacularmente», considera Josh Goldman, partner na Norwest Venture Partners e investidor da Threadflip, acrescentando que são as mesmas razões pelas quais o eBay se tem mostrado incapaz de extinguir as empresas recém-chegadas ao segmento de revenda. Um site de busca e listagem simples «não é o lugar certo para consulta e aquisição de moda», afirma.

Talvez tenha razão, mas para as start-ups existe ainda o perigo iminente de que a Amazon possa descodificar o segredo deste mercado. De acordo com os analistas da Cowen and Company, a Amazon investiu significativamente no segmento de vestuário no ano passado, representando uma ameaça para os retalhistas de massas, como Wal-Mart e Target. Se os seus planos se concretizarem, a Amazon poderá, inclusive, superar a Macy’s como o principal vendedor de vestuário nos EUA, no decorrer dos próximos anos.

Se as start-ups, por sua vez, provarem ser diferentes da experiência tradicional de comércio eletrónico, então poderão prevalecer. Cada um dos concorrentes por este espaço movimentado está a apostar na tendência de guarda-roupas partilhados, num momento em que as pessoas estão mais dispostas e capazes de atualizar os seus armários, trocando roupas usadas, subscrevendo serviços de assinatura ou alugando itens, de forma a manterem os seus looks atualizados.

Tudo dependerá da forma como as empresas desenvolverem as suas estratégias, uma vez que os concorrentes não estão a investir num modelo de negócios fundamentalmente inovador, optando por aprimorar métodos comprovados, tais como lojas de consignação e mercados de venda direta. E, embora alguns estejam separados pelo preço, a maioria vende o mesmo tipo de marcas, desde itens de marcas de moda de luxo, como Alexander McQueen, aos menos dispendiosos, como J. Crew. Em consequência, nenhum dos intervenientes do sector se conseguiu, ainda, distanciar do pelotão.

Algumas empresas incentivam os utilizadores a simplesmente enviarem as suas peças de roupa excedentes, deixando as restantes etapas do processo à responsabilidade da empresa, enquanto outras pretendem auxiliar os utilizadores a fotografarem os itens e a divulgarem autonomamente os seus artigos. Em ambos os métodos, tudo tem a ver com conveniência e facilidade.

«Este é um negócio de execução», sustenta Brian O’Malley, partner da Accel Partners, uma empresa de risco que investiu na Vinted. «Estão todos a competir pelo mesmo espaço no guarda-roupa», acrescenta.

Investidores e analistas concordam que a concorrência é demasiado dura para que seja possível assegurar a sobrevivência de todos. O processo de consolidação já começou. O Bib +Tuck, um site de revenda financiado, entre outros, pelo empresário de moda Christopher Burch, anunciou o seu encerramento depois de ter sido adquirido pela Crossroads, uma cadeia de lojas americana.

«Nem sei se existirá um vencedor», revela Sucharita Mulpuru, analista da Forrester Research. «Este modelo nunca irá dominar o mundo», resume.