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Dólar destabiliza vestuário

Um dólar forte tem garantido aos consumidores dos EUA um maior poder de compra, especialmente no acesso aos produtos provenientes do exterior, mas o seu impacto está a pesar sobre os ganhos das marcas e retalhistas norte-americanos, cujas operações dependem do exterior.

Ao longo dos últimos 12 meses, o dólar valorizou, em média, mais de 20% em relação às principais moedas mundiais. Isto significa que o seu valor tem aumentado à taxa mais rápida dos últimos 40 anos e, desde o início do ano, subiu 14%. Tal representa, para marcas de vestuário e retalhistas americanos, que os seus produtos se tornam menos atrativos para os compradores estrangeiros, devido ao seu preço dramaticamente superior, o que, consequentemente, atinge vendas e lucros internacionais.

A isto, acresce o risco resultante do aumento da concorrência estrangeira por parte dos fabricantes que exportam para os EUA, que procuram agora capitalizar através da redução dos preços, de forma a aumentarem as vendas no país. E os efeitos são ampliados para as empresas multinacionais, cuja parte substancial das suas vendas é feita no exterior. Scott Brown, economista da consultora financeira Raymond James & Associates, acredita que o dólar forte tem sido extremamente positivo para o consumidor americano, proporcionando-lhe maior poder de compra, mas destaca as consequências negativas para os exportadores.

«O crescimento mais lento no exterior tem sido uma restrição ao aumento dos lucros. Um dólar forte torna os produtos e serviços americanos relativamente mais caros (em comparação com os seus homólogos estrangeiros) e qualquer quantia de rendimentos em euros irá valer menos em dólares», explica. A Reuters acredita que a valorização do dólar poderá ser a maior ameaça aos lucros das empresas dos EUA desde a crise financeira de 2008, prejudicando os resultados da maioria das multinacionais sediadas em solo americano. Prevê-se, atualmente, a possibilidade das empresas públicas norte-americanas perderem mais de 25 mil milhões de dólares em receitas no primeiro trimestre, devido à volatilidade cambial.

No seu primeiro trimestre, o grupo PVH anunciou a fragilidade do desempenho das marcas Calvin Klein e Tommy Hilfiger em território americano, afetado pela valorização do dólar que inibiu as despesas de turistas internacionais. Outras empresas de vestuário duramente atingidas pela valorização do dólar incluem a Levi Strauss, Michael Kors, Guess, o gigante do vestuário Gap e até mesmo o prodígio do desporto americano Nike e a sueca H&M. Jonathan Feeney, analista da firma Janney Capital Markets, concorda que o dólar afetou os resultados do primeiro trimestre de muitas empresas de vestuário e também pode pesar sobre os ganhos do segundo trimestre do ano.

«Diante de contrariedades destas, há uma tendência entre os analistas da indústria para adotarem uma visão excessivamente conservadora de potenciais resultados corporativos», acrescenta. O analista da UBS, Michael Binetti, diminuiu as suas estimativas de lucro para 2015 em diversas empresas com sede nos EUA, incluindo a Nike, VF Corporation, Ralph Lauren, PVH, Coach, Hanesbrands e Foot Locker. Binetti refere que essas empresas normalmente geram 25% a 50% dos seus lucros no exterior, uma vez que as operações internacionais são geralmente mais rentáveis e atraem uma taxa de imposto mais baixa do que a aplicada a empresas nacionais, pelo que o impacto de um dólar mais forte sobre os ganhos poderá ser 1,5 vezes maior do que o seu efeito sobre as vendas. De forma a atenuar os efeitos, algumas empresas com vendas internacionais superiores a 15% implementaram estratégias de “hedging” de maior duração, o que efetivamente lhes permite fixar os preços no decorrer da próxima temporada.

Isto tornou-se particularmente popular entre as empresas que exportam para a Europa. Susan Anderson, analista da FBR&Co, reconhece que o “hedging” é de facto uma forma de amenizar o golpe, mas admite que uma empresa «só pode fazer cobrir durante um determinado período de tempo». Anderson explica que «a menos que a direção mude, a dado momento terão de levar a pancada.

Algumas empresas não fazem “hedging” por essa razão e estão apenas a explorar a sua cadeia de aprovisionamento, diminuindo os custos. Esperam assim compensar a pressão sobre as margens que estão a sentir em resultado do câmbio» Em face disso, se uma empresa paga aos seus fornecedores em dólares, poderá estar a pagar efetivamente mais 20% em comparação com o valor praticado há 12 meses, quando traduzido em moeda local dos fornecedores.

E, enquanto a força do dólar reduz o valor das vendas internacionais, o custo de produção dessas receitas – incluindo mão-de-obra e materiais – cai na mesma proporção. Por isso, algumas empresas estão a adaptar as suas estratégias da cadeia de aprovisionamento de forma a compensarem os efeitos negativos. Steven Winoker, analista da firma Sanford Bernstein, indica que a maioria das empresas que monitoriza desempenha um esforço concertado de regionalização das suas cadeias de aprovisionamento, de forma a se alinharem com os seus clientes. No entanto, para as empresas americanas, o desafio da subida do dólar não está necessariamente na cadeia de aprovisionamento, mas na tradução.

Sam Poser, analista da Sterne Agee, explica que «a maior parte do aprovisionamento das empresas [americanas] que monitorizo é feita fora da China, por isso não afeta realmente a sua fonte, afeta a tradução. Seria muito útil se pudessem abastecer-se na Europa e em euros. Se é um retalhista americano na Europa, recebe um “hedge” natural, porque está a economizar dinheiro na folha de pagamento. Portanto, não é uma questão de sourcing, este é realmente um problema de tradução na Europa». Poser acredita que o segredo está na forma como as empresas inovam. «Se conseguir inovar, então irá obter melhores preços. Se o fizer bem, não é afetado», sustenta.

Desta situação resultam, também, consequências positivas para economia americana, com o menor preço dos bens importados a diminuir a inflação e, mais importante, a aumentar o poder de compra do consumidor. «A valorização do dólar tem sido benéfica para a economia global. Isso é mais importante do que a obtenção dos lucros programados pela empresa», defende Scott Brown, economista da Raymond James & Associates. Os especialistas preveem que o valor do dólar irá aumentar em cerca de 10% este ano, pelo que as empresas de vestuário terão de continuar a procurar formas de minimizar o risco.