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«É a altura de começarmos a aparecer outra vez ao mundo»

Depois de uma ausência prolongada, a Polopiqué está de volta às feiras, numa estratégia que se apoia na verticalização da empresa, como explica o presidente Luís Guimarães. Os desafios para os próximos anos passam ainda pela concretização de um projeto do PRR e pela introdução de novas tecnologias, como a KPP.

Luís Guimarães

A Polopiqué apresentou-se na mais recente edição da Première Vision Paris com uma coleção baseada em misturas de fibras e acabamentos com assinatura própria, graças à sua capacidade de produção vertical, que lhe permite diferenciar-se no mercado. A estratégia consolidada, de resto, justifica o regresso da produtora de têxteis e vestuário às feiras, como revela o seu presidente, Luís Guimarães, em entrevista ao Jornal Têxtil, numa altura em que o grupo está envolvido num projeto de 97 milhões de euros no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), voltado para a sustentabilidade e onde prevê construir duas novas fiações, e a fazer apostas em tecnologias inovadoras, como a energia KPP, para continuar a crescer junto de novos clientes com produtos de maior valor acrescentado.

Porquê o regresso à Première Vision cerca de uma década depois da última participação?

Os tempos mudam. Especialmente nos últimos anos, as coisas foram-se alterando. A Polopiqué também foi crescendo, foi-se diversificando e nada como mostrar ao mundo aquilo que somos capazes de fazer e, para isso, nada melhor do que a presença em feiras.

Mas há um realinhamento da estratégia?

Com certeza. A Polopiqué, quando vinha às feiras, vinha como Teviz, a empresa que tinha sido adquirida, e achámos que não era bom continuarmos a fazer as feiras como Teviz. Queríamos criar uma diversidade de artigos mais forte dentro da Polopiqué. Estávamos a fazer muitos investimentos. Ainda não é aquilo que gostaria de ver, mas lá chegaremos. Os nossos grandes investimentos acabaram em 2017. Todos os anos investimos três ou quatro milhões de euros em ajustes. Era preciso solidificar tudo isto e não andarmos um bocado retalhados, que era aquilo que eu sentia. Agora não. Uma vez que a empresa tem uma estratégia bem definida e temos uma diversidade de produtos muito grande, desde os fios ao vestuário e agora têxteis-lar, é a altura de começarmos a aparecer outra vez ao mundo, mostrar quem somos.

Há uma orientação de cada área de negócio para o mercado, com cada uma a ter as suas feiras?

Sim, há uma estratégia. Nos têxteis-lar estivemos na recente edição especial da Heimtextil, nos tecidos participámos na Première Vision, nos fios vamos estar já em setembro na Filo. E no vestuário também iremos a feiras, mas será mais para a frente.

Recentemente, a Polopiqué foi notícia por liderar um grande projeto no âmbito do PRR. Em que consiste exatamente o mesmo?

É a união de quatro empresas que resolveram criar músculo – a Polopiqué, a Riopele, a Paulo de Oliveira e a Calvelex – e mostrar que os portugueses também se sabem unir e não andar de costas viradas uns para os outros. É uma forma de fazermos um investimento grande no têxtil e muscular toda a nossa área. Juntos, dominamos, se não toda, praticamente toda a fileira têxtil.

Esse projeto prevê a construção de novas unidades industriais?

Vamos ter duas unidades novas: uma unidade de fiação de linho e uma unidade para fiação de fios reciclados. A fiação de linho terá uma capacidade em torno das 100 toneladas por mês. A outra fiação, que irá fazer fios reciclados de qualquer matéria-prima, andará em volta das 300 toneladas por mês.

O investimento vai incidir no parque industrial da Polopiqué?

Não. É uma zona completamente nova. Vai ser mesmo no Vale do Sousa e Tâmega, em Lousada. É um projeto grande, são quase 100 milhões de euros.

 

Que modelo de negócio está a ser equacionado?

É para ser um negócio para produzir para nós e para vender para outros também. Além disso, e porque é uma agenda mobilizadora, depois as cinco empresas têm outros projetos em comum e outros projetos também dentro deste projeto. Os 100 milhões de euros não são só para as fiações. Contempla as energias renováveis, a I&D, a descarbonização, etc.

Atualmente, em que fase se encontra o projeto?

O projeto foi aprovado, entrámos na agenda, agora estamos a aguardar.

Em termos temporais, quando deverá ficar concluído?

Ainda não está bem definido, uma vez que a aprovação atrasou. Saíram as empresas que foram aprovadas para entrar neste projeto, mas ainda não sabemos mais nada. Teoricamente, até ao final de 2022 teremos o ok para depois ser finalizado até 2026.

O projeto prevê a criação de novos postos de trabalho?

Sim, serão mais cerca de 350 trabalhadores.

Como correu 2021 para o grupo Polopiqué?

Correu mal, porque o peso das energias foi brutal, uma catástrofe que fez com que a empresa tivesse resultados menos bons. Gastámos mais quatro milhões de euros nos últimos quatro meses do ano.

E este ano como se tem revelado?

Em 2021, a nossa fatura de energia foi de cerca de oito milhões de euros. Em 2022, até maio, já gastámos mais 2,5 milhões de euros comparando com 2020 e mais 2,3 milhões comparando com 2021. Mas não foram só os combustíveis que aumentaram. Tivemos aumentos transversais em tudo. As matérias-primas aumentaram para o dobro, os produtos químicos e auxiliares estão a aumentar todos os meses. Acho que vamos ter um ajuste, talvez lá para o final do ano, um ajuste pequeno, mas nunca mais vamos voltar aos números que tínhamos. Isso é impossível. E agora é uma questão de timing para tentar passar, que é o que estamos a fazer lentamente, estes aumentos para os clientes. Não é fácil.

No total, quanto aumentaram os custos da empresa?

Aumentaram mais de 30%.

Como tem procurado passar esses aumentos para os clientes?

Tem sido muito difícil fechar negócios e só fechamos a pensar que vamos ganhar dinheiro, porque o preço de hoje não vale para amanhã. Temos vendido menos, mas no que vendemos, ganhamos dinheiro. Não podemos estar a vender só por vender.

Que medidas de apoio, na sua perspetiva, seriam prementes por parte do Governo numa crise tão grave como esta?

Em Portugal, não se está a fazer nada. Penso que Portugal não tem dinheiro para poder ajudar porque já se gastou tanto dinheiro na TAP, e agora vamos gastar na Efacec também, e antes foi no Novo Banco… Agora, quando é preciso dar um empurrãozinho a quem realmente faz dinheiro e traz dinheiro para o país e emprega muita gente, não há. Num raio de 30 km, quantos milhares de pessoas temos? Só com o dinheiro que vai para a Efacec, até fazíamos todos o pino.

Dada a escalada dos custos, que soluções tem procurado adotar no dia a dia para manter a estabilidade do negócio?

Inventar, que é aquilo que os portugueses estão habituados a fazer. Somos resilientes e inventamos. Infelizmente, é aquilo que temos vindo a fazer já há muitos anos e, por isso, continuamos na mesma. Penso que estava na hora de o Governo nos ajudar, mas, honestamente, não estou a ver. Penso que haverá da parte do Ministério da Economia vontade para isso, mas, só por si, isso não chega, é preciso assinar o cheque.

Então, por onde passam as soluções?

Isto é um ajuste global, mundial. Claro que o fator guerra veio influenciar os custos dos combustíveis e tudo isso, mas era óbvio que já estávamos a ter uma inflação que estava escondida e que agora apareceu. Há quem diga que não ultrapassa os 10%, mas estou convencido que não chegamos ao fim do ano abaixo dos 12% de inflação. Para já, ainda não vi medidas a nível de governos para conseguir estabilizar a inflação. Acho que não é só pelas taxas de juro que vamos lá. É preciso fazer algo mais. É preciso conter o consumo. Só por aí é que conseguimos controlar a inflação.

Mas isso levaria a uma recessão.

Sim. Penso que o mundo já está numa recessão forte. Aliás, os sinais já têm vindo a ser dados pelos EUA. A Europa é que ainda está, digamos, a esconder um bocado. Mas veja-se as bolsas. São sinais puros e duros de que o mundo está a atravessar uma recessão e um período difícil.

Que medidas tem implementado a Polopiqué para reduzir, por exemplo, o consumo energético sem fechar fábricas nem parar máquinas?

Temos fotovoltaicos, mas temos períodos do dia em que, pura e simplesmente, deitamos energia fora porque não podemos passá-la para outra empresa. Agora já há acumuladores e vamos fazer investimentos nessa área e também numa caldeira de biomassa, mas claro que são coisas que demoram tempo. Só no final do ano é que teremos isso a funcionar. Vamos ainda aumentar a parte dos fotovoltaicos – penso que podemos aumentar mais cerca de 2,5 a 3 megawatts e chegar a 5 ou 6 megawatts – e possivelmente uma outra energia que também já foi aprovada, que é a KPP [Kinetic Power Plant]. É uma energia completamente inovadora e que faz lembrar um bocadinho a teoria de Arquimedes. É basicamente um depósito de água que tem bidões a fazer tipo um moinho e esses bidões, quando chegam à parte de baixo, são injetados com ar comprimido para fazerem subir e, nesse movimento, produzem energia. É uma tecnologia alemã, mas que a Alemanha não adotou. Estava mais preocupada com o gás e agora vai ter de ligar outra vez as centrais a carvão. Mas é uma energia que já está a funcionar na Tailândia e que eu espero também poder usá-la em Portugal.

Ninguém ainda está a usar a KPP em Portugal. A Polopiqué vai ser a primeira?

De momento, ainda ninguém a está a usar. Há um compromisso em que tem de ser a Câmara de Vouzela, e não me pergunte porquê, a ter a primeira instalação e, depois, a Polopiqué será a segunda, seguramente.

Qual será a ordem desse investimento?

Estamos a falar de cerca de três a quatro milhões de euros de investimentos.

Há outras medidas no grupo para tentar mitigar o aumento de custos?

Estamos a tentar encontrar tecnologias alternativas e penso que já vai ser uma ajuda importante. Depois, é acompanhar mais, é vender mais produtos de valor acrescentado, que é o que já estamos a fazer. Aliás, já no ano passado produzimos menos, mas vendemos o mesmo que no ano anterior, porque já começámos a sentir o aumento do efeito das matérias-primas logo após o primeiro trimestre.

Que tipo de produtos são esses com maior valor acrescentado?

São produtos com matérias-primas diferentes. Usar menos algodão e mais fibras amigas do ambiente, artigos com mais mão de obra especializada. Um bocadinho de tudo.

Mas o grupo Inditex continua a ser o principal cliente do grupo Polopiqué?

Sim, representa 60% das receitas.

Então quando fala de produtos de valor acrescentado, está a falar dos 40% que lhe restam para outros clientes?

Sim. Temos sido procurados até por bastantes clientes e penso que o grupo Inditex acabará até por ter uma descida, pelo crescimento dos outros clientes. Não a diminuição em termos de volumes de compra, mas o crescimento dos outros clientes fará com que se faça uma inversão dos 60%/40%. A Polopiqué terá sempre uma parceria importante com a Inditex, sempre teve ao longo dos tempos.

Sente alguma retração das encomendas do grupo Inditex para Portugal a favor da Turquia?

O aumento na Turquia é porque também estão a abandonar a Ásia, como todos os outros. O fator transporte é muito importante. Mas a Turquia não chega para todos, nem para os níveis de preços com que o grupo Inditex trabalhava. Com a inflação que tem e com os custos das matérias-primas, também já não consegue substituir a Ásia para o grupo Inditex. A falta de confeção e de mão de obra em Portugal para a confeção, também faz com que o grupo Inditex, hoje em dia, compre mais tecidos e fabrique fora, no Norte de África, mas essencialmente em Marrocos.

Quantos postos de trabalho tem hoje a Polopiqué em Marrocos?

Diretos são poucos. Mas temos muitos em parceiros, temos linhas adjudicadas.

Quanto produz atualmente em Marrocos?

Cerca de 85%.

Quantas pessoas emprega em Portugal?

Mais de 900 pessoas.

Quanto faturou o grupo em 2020 e em 2021?

O grupo faturou, consolidado, 90 milhões de euros em 2020 e o mesmo em 2021.

Quem são hoje os clientes da empresa, além da Zara?

São vários. Nos EUA temos um cliente com quem estamos a fazer uma parceria muito interessante em economia circular que é a Outerknown – produtos sustentáveis, só a trabalhar com matérias-primas sustentáveis. Na Europa temos a Armani, a Ted Baker, a Next – só o topo de gama deles, temos dois ou três produtos que estão lá sempre nos bestsellers.

Por onde passa o futuro da Polopiqué?

Vejo a Polopiqué muito mais como uma empresa a produzir com mais diversidade de produto, produto com mais qualidade e a caminhar para um consumidor médio-alto e a abandonar, de alguma maneira, a fast fashion. Não só a Zara, como muitas outras marcas, vão ter de se readaptar.