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E depois do adeus?

Vou sentir falta de poder desenhar, mas certamente não terei saudade desse mundo (da moda). A moda, como eu sempre disse… é podre. Todas as pessoas copiam-se inevitavelmente, faltando desafio, criatividade e alegria. Hoje, quase tudo é uma questão de dinheiro». Com estas palavras, Valentino despediu-se das passerelles na Semana de Alta-Costura de Paris, onde foi aplaudido de pé por cerca de 800 convidados que seguiram com toda a atenção a apresentação da sua última colecção para a Primavera-Verão 2008. Tendo como cenÁrio o Museu Rodin, foram apresentadas uma série de coordenados em tons pastel com efeitos grÁficos pretos e brancos e novas variações de vestidos longos, assim como as célebres criações em tons de vermelho, que tornaram o estilista popular entre as estrelas de Hollywood. Criações essas que foram guardadas para finalizar com chave de ouro o seu desfile na cidade Luz. Trata-se de uma colecção magnífica, um desfile único com muitos vestidos e muito glamour. A minha meta, com esta colecção, passa sobretudo por festejar toda a minha carreira e abraçar esta nova etapa», salientou Valentino. Fiel à imagem de refinamento, classe e de um estilo marcadamente feminino, associado à explosão da “dolce vita”, o estilista italiano deixarÁ (certamente) saudades. Ele despede-se de forma gloriosa. Contudo, na minha opinião o mundo da moda estÁ de luto e fica hoje muito mais pobre», afirmou o convidado da primeira fila David Furnish que, tinha ao seu lado, o seu parceiro e cantor Elton John e ainda celebridades como a princesa Marie-Chantal da Grécia, a actriz Uma Thurman, os estilistas Emanuel Ungaro e Alber Elbaz; assim como a ex-top moldel Claudia Schiffer ou a celebridade da televisão italiana Simona Ventura. Estou extremamente triste, porque sou testemunha do fim de uma era de grandes estilistas de moda italianos. A verdade é que Valentino não terÁ ninguém à altura de o substituir», salientou com emoção Simona Ventura. Na realidade, o próprio estilista afirmou à imprensa italiana que a sua maior pena é não ter deixado um “herdeiro” na sua casa de alta-costura. O meu maior arrependimento? Não ter tido tempo, nem vontade de formar um jovem capaz de ficar no meu lugar. Se eu não fiz isso, é porque a ideia de entregar o meu lugar nunca me entusiasmou», explicou. Valentino, cuja casa de alta-costura foi comprada pelo fundo de investimento Permina no ano transacto, é apontado – ao lado de nomes como Giorgio Armani e Karl Lagerfeld – como o último dos grandes estilistas de uma era anterior à que fez da moda uma indústria global e altamente comercial. Tive a sorte de transformar a minha vocação de adolescente na minha profissão. Tal deu-me muitas satisfações e reconhecimento e, ao mesmo tempo, sinto que consegui conservar um estilo próprio, apesar das grandes mudanças que a moda foi sofrendo ao longo dos anos», explicou o estilista. Em 45 anos de carreira – data que celebrou com pompa e circunstância em Roma entre mais de 500 convidados – vestiu a realeza europeia, estrelas de cinema e celebridades políticas, da moda e do desporto. No entanto, foi a americana Jackie Kennedy que pôs Valentino nas luzes da ribalta ao escolhê-lo como seu assessor e ao usar os seus vestidos no mediÁtico casamento com Aristoteles Onassis. Agora, passa o testemunho a novos nomes como Alessandra Facchinetti, ex-directora artística da Gucci (alta-costura e pronto-a-vestir), e Ferruccio Pozzoni, ex-Prada (para a colecção masculina). Mas o que farÁ Valentino depois do adeus…? Além da jardinagem e do cultivo de rosas, de tratar dos meus cães e de praticar ski na Suíça, tenho inclusivamente vontade de desenhar roupas para ópera e peças de teatro», revelou. Porém as novidades não ficam por aqui, o estilista estÁ actualmente a preparar uma retrospectiva da sua carreira, com 200 das suas criações, que serÁ inaugurada em ItÁlia a 28 de Junho de 2008. Antes, no mês de Maio – mais precisamente no festival de Cannes – serÁ exibido um filme biogrÁfico sobre o estilista, denominado Valentino, le dernier empereur» (Valentino: o último imperador), com direcção artística de Matt Tyrnauer. O adeus às passerelles foi dado, mas fica a certeza que ainda se vai ouvir falar (muito) de Valentino nos próximos anos.