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E já lá vão 3 dias

Envolto em ameaças de tempestades de neve, os três primeiros dias da New York Fashion Week foram repletos de apresentações, eventos e desfiles imperdíveis para todos os amantes da moda. As pessoas, num ato de coragem, aventuraram-se pelas temperaturas negativas que se fazem sentir nas ruas da Big Apple e marcaram presença naquele que é o início do mês da moda. E esta temporada não podia ter começado num tom mais positivo, com um elogio à diversificação e integração social pela designer Carrie Hammer e a escolha de uma modelo com síndrome de Down para participar no seu desfile. O fantástico Kanye West A Coach mostrou todo o seu patriotismo, com a inclusão de elementos da cultura americana reinterpretados na nova coleção. Para o outono-inverno 2015/2016, Stuart Vevers não compromete o estilo face ao conforto, com vestidos de malha com painéis de seda transparente, aplicações e estampados com motivos de bandanas numa variação de preto e cinza. A peça que arrancou mais suspiros da assistência foi o perfecto. Perfeito para o tempo frio, com o interior do blusão forrado a pele de ovelha, esta peça grita conforto e muita atitude, que pode parecer direcionada para o público mais jovem mas vai contagiar todas as idades. A fugir um pouco ao pronto-a-vestir, Tadashi Shoji propõe que a elegância nunca saía de moda. Para a época invernal, o preto e o branco dominaram a passerelle, com rasgos de cor em verde, azul e lilás a iluminar uma coleção que reúne todos os elementos associados a Shoji: silhuetas flutuantes, com tule delicado e penas cozidas à mão que conferem um efeito quase etéreo e majestoso. Quer sejam vestidos de cocktail ou propostas de cerimónia com capas de penas, o designer americano apresentou uma coleção que espelha o glamour de outros tempos, ideal para agradar à mulher que nunca abre mão da sofisticação Já a BCBG Max Azria trouxe consigo o espírito cool californiano, com influências entre o boho-chic e o folclórico, que nos fazem lembrar os anos 70 – tendência que tinha já dominado nas coleções para a primavera-verão apresentadas em setembro último. Estas propostas são para aqueles que não vivem num estado permanente de verão, com a sobreposição a ser a tendência por excelência: camisolas de gola alta quase transparentes por baixo de vestidos flutuantes, com motivos folk; túnicas de cetim e casacos de pelo, com botas de salto alto acima do joelho. O destaque deste primeiro dia vai para a parceria de Kanye West com a Adidas Originals. Naquele que foi o desfile com a primeira fila mais popular deste dia da semana da moda – e, muito provavelmente, de toda a edição –, os níveis de expectativa e de curiosidade sobre o que o rapper tinha criado estavam em alta. Com celebridades como Rihanna, Beyoncé e Jay-Z, Alexander Wang e Anna Wintour no papel de espectadores, West apresentou as suas propostas de sportswear, com uma abordagem de aceitação: modelos de todas as formas e feitios, a usar roupa desportiva cool, com um estilo despojado, muito à imagem do rapper – que, aliás, usou peças de roupa da coleção na cerimónia dos Grammys, no início deste mês. O universo militar foi uma forte inspiração para West, com o padrão de camuflado em casacos e uma variedade de cores sóbrias muito restrita, onde o verde tropa, o azul petróleo e os nudes foram reis. As silhuetas apresentaram um contraste coeso entre o superjusto e o descontraído, com macacões de elastano a serem usados com parcas e camisolas oversize com rasgões. No início do desfile, Kanye West fez-se ouvir: «Quero que as pessoas sintam que o fantástico é possível». Moda em maré de sorte Sexta-feira 13 marcou o segundo dia do evento, mas a má sorte esteve bem longe de Nova Iorque. O dia começou com o desfile de Wes Gordon, finalista do fundo CFDA/Vogue, como um reflexo das necessidades de mulheres reais que apreciam a versatilidade sem nunca descurar a elegância, principalmente em dias com temperaturas pouco amenas. T-shirts descontraídas, blazers e calças conjugadas com transparências, vestidos com duas rachas na parte frontal e alguns pormenores de renda – com o preto e o cinzento como cores de eleição – e botas de combate assinadas por Manolo Blahnik parece ser a fórmula certa para encontrar um equilíbrio entre o feminino e a audácia. Jason Wu mostrou-se mais feminino, sensual e elegante do que nunca. As silhuetas informais conservaram a simplicidade e acessibilidade típicas do pronto-a-vestir. As blusas de seda com laços sumptuosos no pescoço, as estolas e casacos de pelo, as transparências e os pormenores em forma de pérolas e cristais conferiram um ar de sofisticação pura e luxúria. A paleta de cores variou entre o claro e o escuro, a encontrar um meio termo no arrojado encarnado, mas o destaque vai para o verde oliva no vestido de pele de crocodilo ou nas estolas de pelo. Catherine Deneuve foi a musa inspiradora de Wu para esta coleção e o encanto inerente à atriz francesa estava, sem dúvida alguma, presente no último casaco de pelo verde brilhante, sinónimo de opulência e glamour. Por seu lado, Nicky Zimmerman apresentou um coleção que propõe uma fusão de silhuetas dos anos 70 com uma paleta de cores vinda diretamente das casas dos anos 60. As calças à boca de sino com cintura subida e as blusas com mangas em balão multiplicaram-se nas cores bordeaux, laranja tangerina e azul celeste, com alguns apontamentos cinzentos. Os vestidos translúcidos e vaporosos também deram um ar da sua graça, com as cinturas marcadas por cintos ou por cortes na zona abdominal a conferir um toque de sensualidade a peças que normalmente têm algo de folclórico. Para não deixar qualquer dúvida sobre que década vai dominar o guarda-roupa no próximo outono-inverno, os pormenores de renda e macramé conjugados com acessórios dourados, cordões delicadamente entrelaçados à cintura ou como colares e capelines nas cabeças foram os detalhes perfeitos para o ar boho-chic desta coleção da Zimmerman. Também presa à década de 70, Rebecca Minkoff inspirou-se na vida e estilo de Patti Smith, segundo o seu livro autobiográfico Just Kids, acrescentando o elemento rock indissociável da cantora, com correias de guitarras como alças das carteiras e collants de renda ousados, a propostas que recriavam toda uma atmosfera folk. A grande surpresa do dia foi Monique Lhuiller. As propostas da designer – que é conhecida pelos seus vestidos de noiva couture e por dar o nome a alguns das mais memoráveis criações que as estrelas de Hollywood já desfilaram na red carpet – não tinham qualquer vestígio de tule ou de saias rodadas à princesa de contos de fadas, ao contrário do habitual. A coleção de Lhuiller é dedicada à mulher segura de si própria e que não tem medo de arriscar e afirmar-se, um pouco como Kate Moss, a inspiração desta coleção. Com influências nos loucos anos 20 e um pouco de glam rock à mistura, o veludo em cor de cobre, o jacquard floral, os bordados com missangas e lantejoulas e as transparências em silhuetas estruturadas e sensuais sobressaíram na passerelle. O ADN da Lacoste Nem a tempestade de neve nem as comemorações de S. Valentim abrandaram o terceiro dia da New York Fashion Week. A Lacoste deu início às festividades, com um tributo ao seu fundador, René Lacoste. O sentimento de homenagem foi explícito em mensagens nas camisolas da coleção – usada inclusive por Felipe Oliveira Batista na vénia que marcou o encerramento do desfile –, onde se lia “René did it first” – em português, Rene fez em primeiro lugar. Os clássicos de sportswear da marca francesa foram reinterpretados com elementos contemporâneos – destaque para a justaposição das cores verde, azul e vermelho características da marca, com tons neutros – sem nunca perder o estilo clássico que associamos à Lacoste. As propostas que realmente elevaram o fator sporty-chic foram os casacos, que assumiram contornos de elegância, com as capas e os casacos de pelo, e cores arrojadas e ricas, como por exemplo o trench coat verde. São as opções perfeitas para ir da quadra de ténis para uma saída à noite com os amigos. Alexander Wang era o nome que mais amor despertava, neste que era o dia de S. Valentim, e com a plateia mais célebre do dia, com Anna Wintour, Kim Kardashian, Kanye West e a filha de ambos sentados na front row. O designer apresentou uma coleção onde o preto é a cor dominante. Porquê? O motivo não podia ser mais nobre: satisfazer a procura e os desejos das clientes. A execução desta coleção originou muito estudo sobre as particularidades de grupos culturais alternativos que, por norma, têm preferência pela roupa escura, como os góticos e os apreciadores de música heavy-metal. As propostas de Wang revelaram-se muito mais simples do que o styling ou até a própria atitude das modelos. Aliás, houve até uns certos raios de luz por entre a escuridão na forma de casacos com xadrez vermelho e camisolas de malha brancas coordenadas com calças de ganga azul. Apesar de uma premissa sombria, a coleção de Wang adequa-se perfeitamente ao tempo para o qual está destinada, o frio, e não é só por causa da cor, mas porque é uma coleção multifacetada, com opções arrojadas, como os vestidos de cota de malha, e peças funcionais mas cool, como o casaco e a parka com reflexos prateados e golas de pelo preto. O encerramento da noite coube a Joseph Altuzarra. Os anos 70 marcaram mais uma vez presença e a versão de Altuzarra é seriamente apetecível. Vestidos de renda delicados conjugados com casacos de pelo de raposa voluptuosos ou com padrões xadrez de Príncipe de Gales. Saias e casacos assumem tons pastel, com folhos nas bainhas e bolsos à altura das ancas. Isto tudo sem esquecer a racha, imagem de marca de Altuzarra, como é claro. Para a mulher que não tem medo de exibir a sua sensualidade, os vestidos em veludo trabalhado foram feitos para a sedução. Nos tons de rubi e safira, com uns vislumbres dourados e pormenores de renda nos decotes profundos, a fusão de materiais, texturas e cores só engrandeceram a coleção. Destaque ainda para o calçado: botas de todos os tamanhos – acima do joelho, de cano alto ou botins – complementaram os looks de forma irrepreensível, principalmente os pares que tinham apontamentos de renda à espreita.