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É um mundo de homens

Consumo sem género ou nova masculinidade são apenas duas das recentes entradas do dicionário do menswear. Designers como Miguel Vieira, Júlio Torcato ou Alexandra Moura têm vindo a atualizar o seu vocabulário, mas estarão a falar a mesma língua do homem atual e a capitalizar com o crescimento das vendas do segmento?

Miguel Vieira
Foto: Ugo Camera

Em 2015, de acordo com dados do Euromonitor, as vendas no segmento de menswear rondaram os 408 mil milhões de dólares (aproximadamente 374 mil milhões de euros), chegando aos 457 mil milhões de dólares em 2020. De acordo com o mesmo relatório, os homens tendem a comprar para manter o status, enquanto as mulheres compram por impulso. Para compor os seus looks, eles ainda continuam a preferir camisas, calções e calças mas, cada vez mais preocupados com a aparência, começam a tomar as próprias decisões de compra.

Dentro deste mercado em subida, as vendas de vestuário de designer cresceram 6%, para os 6,4 mil milhões de dólares.

Estará a moda portuguesa masculina de autor a acompanhar esta trajetória ascendente? Integrarão os homens nacionais estes números?

Miguel Vieira, que funde na passerelle do Portugal Fashion – como também o fez na semana de moda de Nova Iorque dedicada ao outono-inverno 2017/2018 – coleções de homem e senhora, incluindo calçado e acessórios, reconhece que «neste momento, os homens começam a ligar cada vez mais à moda». «Estão muito preocupados com a imagem. E é bom, está a traduzir-se em vendas», completa o designer.

Alexandra Moura
Foto: Ugo Camera

Alexandra Moura concorda. «Eu tive experiências fantásticas com os homens a comprarem sem pretensiosismo nenhum, sem barreiras ou tabus, curiosamente a comprarem peças de senhora, percebe-se que o mercado se está a abrir para o unissexo», considera sobre uma estética que desde sempre intersetou as coleções da marca. «Isso é uma coisa que tenho vindo a trabalhar há algum tempo. Estou-me a sentir mais confortável e mais compreendida», sublinha.

Também desde o arranque da marca epónima a apostar em coleções sem género, Hugo Costa tem um grupo de seguidores perfeitamente distribuído pelos dois sexos nas redes sociais, tal como nas vendas. «Não há uma afirmação de um género que é o que nós queremos como conceito», destaca o designer cujas coleções desfilaram na última semana de moda masculina de Paris.

Estelita Mendonça
Foto: Ugo Camera

Sobre o consumidor nacional de moda portuguesa masculina de autor, o designer de menswear Estelita Mendonça é assertivo, «os portugueses compram mais moda, da Zara, mas designers portugueses não. Compram uma ou outra peça, como alguns clientes que compram lá fora e vêm comprar-me a mim também. Mas a maior parte, não», ressalvado que «lá fora sim, há cada vez mais gente a comprar».

Nuno Baltazar, por seu turno, encontra um consumidor mais atento à moda em território nacional. «Estão mais atentos, estão mais vaidosos, mas não é de agora, já é uma coisa que acontece há vários anos», nota.

Atualmente a apostar em força em coleções mistas, Júlio Torcato, considera que o homem atual está mais liberto dos cânones tradicionais. «Há mais procura, a moda e o que os homens vestiam, como nós estávamos habituados, mudaram completamente», defende. «Nota-se um interesse muito grande por novas formas, novos materiais e novas propostas, principalmente numa camada mais jovem», reforça.

Pedro Neto
Foto: Ugo Camera
Inês Torcato
Foto: Ugo Camera

Alinhados com estas exigências do mercado, até por uma questão geracional, os jovens designers do espaço Bloom do Portugal Fashion têm vindo a explorar a estética unissexo e, inclusivamente, a aventurar-se com linhas de homem.

Com uma marca de raiz feminina, mas a apostar na linha de homem nas últimas duas coleções depois dos muitos pedidos, o jovem designer Pedro Neto acredita que «os homens gostam de coisas muito práticas», propondo por exemplo macacões para um look completo.

«Os homens estão a começar a arriscar um bocadinho mais e tenho esse feedback na loja que eu e o meu pai abrimos», corrobora a jovem designer Inês Torcato que, tal como o pai, tem vindo a encaminhar para a passerelle coleções mistas com notas de alfaiataria e streetwear.