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Economia mundial marca passo

A Organização Mundial do Comércio prevê que até ao próximo ano a economia mundial sofra uma desaceleração do crescimento, fruto das tensões comerciais que se têm manifestado nos últimos tempos. Nos EUA registam-se os valores mais baixos desde a crise de 2009.

A projeção da Organização Mundial do Comércio (OMC) indica que o volume mundial de comércio de mercadorias cresça apenas 1,2% em 2019 e 2,7% em 2020, menos 1,4 pontos percentuais e 0,3 pontos percentuais respetivamente do que o previsto em abril. Contudo, os economistas alertam para risco elevado de uma desaceleração mais profunda, dependendo da evolução das relações comerciais entre os diferentes países em conflito.

Roberto Azevêdo, diretor da OMC, não se deixa surpreender por estes resultados, alegando que, «para além dos seus efeitos diretos, os conflitos comerciais aumentam a incerteza, o que tem levado algumas empresas a adiar os investimentos na melhoria da produtividade», e assume que «a criação de emprego pode ser dificultada» devido à escassez da contratação de trabalhadores. Azevêdo afirma, citado pelo Sourcing Journal, que a dissolução dos conflitos comerciais permitiria evitar o abrandamento e um custo pesado para os membros da OMC, já que «o sistema de comércio multilateral permanece o fórum global mais importante para resolver diferenças e providenciar soluções para os desafios da economia do século XXI».

Exportações aceleram, mas PIB não acompanha

As previsões da OMC apontam que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2019 e 2020 situar-se-á nos 2,3%, menos 0,3 pontos percentuais do que a taxa anterior de 2,6%. A desaceleração reflete também a influência da mudança da posição política monetária e das incertezas do Brexit. Tendo em conta a instabilidade destes fatores e assumindo que as tensões comerciais se suavizarão, o crescimento mundial do comércio estará entre 0,5% e 1,6% em 2019 e 1,7% e 3,7% em 2020.

Roberto Azevêdo

No entanto, estes dados podem rapidamente ficar desatualizados. A OMC explica que «vagas adicionais de tarifas e retaliação podem produzir um ciclo destrutivo de recriminação. A mudança de políticas monetárias e fiscais podem destabilizar os mercados financeiros voláteis. Uma desaceleração mais acentuada da economia global pode provocar um refreamento ainda maior no comércio. Finalmente, um Brexit desordenado pode ter um impacto regional significativo, confinado principalmente à Europa».

Apesar de tudo, no primeiro semestre deste ano houve um crescimento positivo nas exportações anuais, atenuado pelo enfraquecimento da procura global. Os valores mais altos foram obtidos pela América do Norte (1,4%), América do Sul (1,3%), Europa (0,7%) e Ásia (0,7%). Do lado das importações, a América do Norte continua no topo da corrida, com um ritmo de crescimento na ordem dos 1,8%, seguida da Europa com 0,2%. Em contrapartida, a América do Sul e a Ásia já chegaram a sofrer um declínio de 0,7% e 0,4% respetivamente.

EUA quase ao nível da crise de 2009

Nos EUA, a contração da atividade económica no sector da produção começou a fazer-se sentir a partir de setembro, ao contrário da economia mundial que cresceu pelo 125.º mês consecutivo, de acordo com os dados do estudo do Instituto de Gestão de Aprovisionamento (ISM, na sigla original).

Timothy R. Fiore, presidente do ISM, revela que o PMI (o Índice de Gestores de Compras, que calcula a tendência económica nos sectores dos serviços e produção – uma leitura abaixo dos 50% indica uma contração) de setembro se situou nos 47,8%, uma queda de 1,3 pontos percentuais face ao mês anterior. Esta é a leitura mais baixa desde junho de 2009 (46,3%), altura em que os efeitos da crise se fizeram sentir em todo mundo.

O PMI baseia-se em cinco grandes áreas de estudo: novas encomendas, níveis de inventário, produção, entregas de fornecedores e emprego. O índice de novas encomendas chegou aos 47,3%, mais 0,1% do que a leitura de agosto. Das 18 indústrias de produção, o declínio nos pedidos de encomenda foi liderado pelo vestuário, couro e produtos a ele associados e fábricas têxteis. Por sua vez, o índice de produção diminuiu de 49,5% para 47,3% entre os mesmos meses. Também o índice de entregas de fornecedores registou uma descida de 0,3 pontos percentuais para 51,1%, o 43.º mês consecutivo de desaceleração do ritmo de crescimento.

Por outro lado, o índice de preços do ISM aumentou 3,7 pontos percentuais para 48,7% em setembro deste ano, indicando que os preços das matérias-primas diminuíram pelo quarto mês consecutivo.

Fiore argumenta que «o comércio mundial continua a ser a questão mais significativa, como se verifica pela contração de novos pedidos de exportação, que se começou a fazer sentir em julho de 2019», resultando numa expectativa de crescimento cautelosa a curto e médio prazo.