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Educar para a economia circular

Não sendo um conceito novo, a educação para a economia circular e a simbiose entre a academia, as empresas e os diferentes sectores industriais são essenciais para alavancar a redução de desperdícios e transformar os resíduos em novos recursos, como mostrou o webinar “As barreiras e oportunidades na economia circular”.

[©Pixabay]

O webinar, que decorreu no passado dia 11 de março, foi promovido pela associação Zero Desperdício, que tem um programa nacional epónimo de recuperação de sobras alimentares «e proximamente de têxteis», revelou Paula Policarpo, cofundadora da associação, para quem importa não só olhar para o desperdício nos bens tangíveis, mas também nas competências humanas e talentos. «É preciso olhar para a questão da sustentabilidade, da economia circular e colaborativa em todas as suas formas», sublinhou.

Segundo Luísa Magalhães, diretora-executiva da associação Smart Waste, o conceito de economia circular não é uma questão nova, «vem até do tempo dos nossos avós, em que aproveitavam tudo nas próprias casas, os restos dos alimentos nos quintais, reutilizavam as mesmas embalagens para tupperwares de gelados, faziam mesmo a reparação dos eletrodomésticos elétricos».

Atualmente, pode definir-se economia circular como «um conceito estratégico que assenta na redução, na recuperação e na reutilização e recuperação de materiais circulares e energia substituindo o conceito de fim de vida da economia linear por novos fluxos circulares, ou seja, é um modelo económico regenerativo e restaurador em que os recursos são geridos de modo a preservar o seu valor e utilidade máxima por maior período de tempo», afirmou Luísa Magalhães, em contraponto com o modelo económico atual que «é baseado na exploração de recursos que são transformados, usados, consumidos e depois depositados no ambiente sobre a forma de resíduos», num «modelo linear da economia em que não é sustentável e que gera muitos problemas ambientais».

Para além dos consumidores, destacou Luís Veiga Martins, associate dean for comunity engagement & sustainable impact e chief sustainability officer na Nova School of Business and Economics, é importante ter em consideração o sector industrial, não só ao nível da água e energia despendida nos processos industriais, mas «também a nível dos resíduos do próprio processo de fabrico e que pode promover também aqui, de uma maneira muito importante, simbioses industriais, ou seja, parcerias entre os diversos sectores económicos em que o que é desperdício ou resíduo de uma indústria possa tornar-se matéria-prima para outra indústria», indicou.

A economia circular pode ainda dar um contributo importante para o objetivo atual de neutralidade carbónica, onde «as grandes empresas têm um papel extremamente importante que pode influencias as pequenas e médias empresas e todos os outros fornecedores e a gestão da cadeia de valor», apontou Luís Veiga Martins.

Empresas atentas

Sílvia Machado considera que «as empresas já estão comprometidas com a economia circular e eu diria que sempre estiveram. Podem é, às vezes, não terem a noção clara da forma como contribuem ou poderão contribuir mais para a economia circular». Aliás, sublinhou a assessora sénior para os temas de Ambiente e Clima da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, «a empresa só é competitiva se for eficiente, sobretudo em áreas que têm grandes custos, não só a área dos recursos humanos, mas sobretudo a área da energia e a área dos recursos e, portanto, a eficiência material e a eficiência energética estão sempre nos objetivos primordiais de qualquer empresa que queira ser competitiva», resumiu. Nesse objetivo, os resíduos «devem ser olhados como um recurso», que pode ser usado por outros, «daí a importância da simbiose entre sectores, que já vão acontecendo», esclareceu. Contudo, referiu Sílvia Machado, «a verdade é que quase todos os investimentos ao nível circular, a nível de processo ou de ecodesign do produto, estão associados a um aumento de custos e esse aumento de custos tem que se refletir obviamente no custo do produto e o mercado ainda não está preparado».

João Pimentel, diretor de proximidade regional e licenciamento do IAPMEI, revelou que foi possível enquadrar no programa europeu Horizonte 2020 e no Portugal 2020 apoios para o desenvolvimento de projetos nesta área, mas que, na transição para um novo quadro de apoio, «do ponto de vista da aplicação e formulação dos sistemas de incentivos que foram criados, aquilo que venhamos a conceber e a desenhar para o futuro terá que ser mais competente do ponto de vista das respostas».

A importância da formação

Contudo, considera Álvaro Beleza, presidente do Conselho Coordenador da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, «para mudar a cultura o essencial é a educação. É nos mais jovens, desde pequeninos, que se tem que se ensinar a usar, a fazer a economia circular, a aproveitar, a não deitar fora porque, desde a revolução industrial, vivemos numa sociedade do novo, da novidade, do crescimento económico constante, do usar e deitar fora».

«É muito importante a formação tanto nas escolas como nas universidades, na indústria e nas empresas», corroborou Luísa Magalhães.

E, acrescentou Álvaro Beleza, uma maior ligação da academia ao meio industrial. «Na SEDES estamos a trabalhar muito essa questão da ligação das empresas à universidade, porque essa é uma debilidade portuguesa. Temos muitos doutorados em Portugal, mas a trabalhar nas universidades públicas e em laboratório públicos. Em Portugal privilegia-se muito o título e menos o saber e nas empresas há poucos doutorados, há poucos académicos. É preciso haver circulação entre as empresas e as universidades, isto é, precisamos de quadros nas empresas que sejam académicos», assegurou.

Também João Pimentel reforçou essa necessidade. «A dimensão do conhecimento é absolutamente fundamental, o conhecimento com referência à investigação e ao desenvolvimento que possam depois, no fundo, gerar inovação nas empresas. Esta ligação do ecossistema empresarial, das empresas, à academia, é absolutamente fundamental», sublinhou o diretor de proximidade regional e licenciamento do IAPMEI, destacando o trabalho que tem sido feito pelos centros tecnológicos, nomeadamente pelo CITEVE e pelo centro tecnológico do calçado, que «têm até uma referência explícita em matéria de bioeconomia».

O IAPMEI está ainda a lançar um projeto em conjunto coma Universidade Nova de Lisboa, que poderá ser alargado a outras instituições de ensino superior, «para podermos elaborar um conjunto de casos de estudo que sirvam de referência para que as empresas encontrem as melhores práticas. No fundo, como é que as empresas alteraram os seus modelos de negócio e naturalmente os resultados que obtiveram», resumiu João Pimentel.

Já a CIP lançou o projeto E+C – Economia Mais Circular com o objetivo de «fazer o levantamento do quadro atual a nível de circularidade, a nível nacional, transversal em todos os sectores» e «ao mesmo tempo que fazemos esse levantamento, iremos fazer múltiplas ações de sensibilização das boas práticas» e «fazer um projeto de demonstração precisamente em prol do desenvolvimento da matéria de indicadores», explicou Sílvia Machado.