Início Arquivo

Efeito casulo beneficia têxteis-lar?

Enquanto a ofensiva militar foi desencadeada sem que se possa adivinhar o seu fim, torna-se cada vez mais difícil disfarçar que a incerteza presente em todo o mundo, assim como uma indisfarçável inquietude. Mas existe uma surpreendente boa performance do consumo na maioria dos países europeus, que assegurou um bom mês de Setembro a muitas lojas e que poderá, porque não, prolongar-se durante toda a estação. Mas sinais de dificuldades vão-se acumulando paralelamente: os Salões europeus de tecidos que foram realizados depois de 11 de Setembro, incluindo a Première Vision, tiveram quedas de frequentação históricas, principalmente devido à ausência dos compradores americanos, mas também dos japoneses. A gama alta do mercado também foi afectada: as boutiques de luxo viram a sua estação comprometida, o mesmo aconteceu com algumas grandes lojas que trabalham bastante com os turistas. Para o têxtil europeu, que pela força das situações se foi especializando nos produtos sofisticados, o horizonte não é risonho. Com certeza, a situação a que estamos a assistir está mais ou menos latente, mas as proporções e a rapidez dos fenómenos arriscam a mudar seriamente. Já antes bastante sensível, a incerteza conjuntural atingiu o seu auge depois dos atentados nos Estados Unidos, que já datam de há dois meses. Se o choque imediato foi superado mais rapidamente no mercado europeu em geral, ainda persistem muitas incertezas, no que respeita aos meses que se seguem. Esperava-se um mês de Setembro em baixa, porém, esse não foi o caso. A chuva e o frio levaram os franceses às lojas de roupa. As vendas do mês de Outubro devem ter um aumento em relação ao mês de Setembro de 2000, mês no qual um Verão prolongado foi de facto favorável. Segundo Gildas Minvielle, responsável pela conjuntura no Ctcoe – Centro Têxtil de Conjuntura e de Observação Económica, «o que prevaleceu foi o clima sombrio ligado aos atentados». Mesmo que o analista do Ctcoe admita que o 11 de Setembro «teve um impacto inegável sobre as vendas dos dias seguintes» o mês foi de curta duração. No entanto, Gildas Minvielle acrescenta que os primeiros resultados do mês de Outubro são negativos, só não se sabe no entanto, se se podem atribuir aos efeitos do clima característico do Outono ou aos primeiros ataques americanos. Jean-François Mézaize, responsável dos assuntos económicos da União de Indústrias Têxteis, afirma que a maioria das previsões estimam que serão os bens de consumo duradouro (automóveis, electrodomésticos, etc) que mais vão sofrer nos meses que se seguem com a retenção das despesas domésticas. À Federação da Malha, que prepara o Salão Intersélection, o delegado geral Xavier Marin diz que «os fabricantes aguardam com um certo número de receios justificados». Acrescenta que os comerciantes esperam uma redução do consumo até ao início do ano 2002, quando o efeito do euro – que impele os consumidores a adquirir os seus bens em francos – tiver terminado. Essa redução poderá ser ampliada pelas «consequências dos atentados: isso irá depender do grau de compromisso que os vários países tenham com o conflito». Por outro lado, Xavier Marin estima que haverá «provavelmente incidentes para as empresas que trabalham com os Estados Unidos, pois os compradores deste país não viajam mais». A inquietude é sem duvida maior na indústria têxtil visto que a situação dos cinco primeiros meses do ano já não foram nada surpreendentes. Segundo o Ctcoe, a produção têxtil recuou cerca de 5% em quantidade, em Janeiro-Maio de 2001, em relação ao mesmo período do ano anterior. Além disso, segundo os industriais do sector têxtil interrogados pelo Insee, «a actividade degradou-se no decurso dos meses anteriores e os stocks dos produtos acabados aumentaram» ao mesmo tempo que «as carteiras de encomendas estrangeiras diminuem claramente, devido à sensível baixa das encomendas externas”. O organismo avança ainda que «depois dos Estados Unidos, o abrandamento económico chegou aos países europeus, no qual aparece em primeiro lugar a Alemanha». Vamos assistir também na Europa do Norte a uma deslocação do consumo para as gamas baixas». A Première Vision, num salão claramente menos frequentado e os tecelões no seu conjunto, mostram-se muito preocupados, mesmo que Lucien Deveaux, presidente da Ferderação da Malha e cujo grupo realiza cerca de 6% do seu volume de negócios nos Estados Unidos, vá contra esta intranquilidade afirmando que têm tido exactamente «o mesmo número de visitantes no seu stand que teve na edição anterior». Antes atentos do que assustados. Os fiadores europeus lastimam-se sobretudo sobre a falta de visibilidade. Mesmo tendo o Salão Première Vision, que terminou a 7 de Outubro, uma queda no número de visitantes na ordem dos 25%(os franceses tiveram uma diminuição de 12%, os japoneses de 62% e os americanos de 68%), os expositores não estão tão inquietos quanto poderiam estar tendo em conta os números apresentados. Enquanto alguns empresários esperam o pior, eles prevêem que a clientela europeia resista ao choque. Como recorda Mario Boseli, presidente da Câmara Nacional da Moda Italiana, as vendas já não eram boas no primeiro trimestre: «Antes de 11 de Setembro, não estávamos contentes com a conjuntura desfavorável que pesa sobre três dos nossos maiores mercados: a Alemanha, nosso principal mercado de exportação, os Estados Unidos e o Japão». O choque terrorista certamente acentuou estes fenómenos, mesmo não estando a sua extensão bem delineada. Alguns, principalmente os italianos, estão contudo optimistas. «Certamente, a conjuntura é actualmente sombria – o futuro está antes de tudo na mão dos militares, o problema é saber durante quanto tempo a crise vai durar – mas o fundamental da economia continua a funcionar bem, em França e na Itália», assegura Innocenzo Cipolletta, director geral da Marzotto, que confirma para o seu grupo uma previsão de aumento na ordem dos 10%, tanto do volume de negócios como de lucro, para o corrente ano. Única recaída visível neste momento é o decréscimo das vendas nos Estados Unidos, que estão a acusar o golpe. «Nós ressentimos pelo clima de bloqueio dos negócios quase completo que se faz sentir além do Atlântico. O maior problema para nós é a exportação, que soma 35% do nosso volume de negócios, de onde 1/3 é para os EUA. Nós vimos os nossos clientes americanos em Julho, em Nova Iorque, e estávamos bastante optimistas. Como eles não vieram à Première Vision para confirmar as suas encomendas, vai fazer com que tenhamos que ir até eles. Mas qual será o clima?», interroga-se Lucien Verplancq, director comercial da Alba la Source. «Nos Estados Unidos, onde realizamos 20% da nossa actividade, os negócios são muito difíceis visto que os compradores estão com a cabeça noutro lugar. E nós estamos bastante pessimistas, na medida em que eles vão rever as suas compras nesta descida. Por agora eles estão a esperar para ver», reconhece Christian Pays, director geral da Malhia Kent, que apresentou as suas esperanças sobre o último Salão de tecidos da estação, Ideacomo, que teve lugar de 18 a 20 de Outubro. Enquanto se dava inicio à Première Vision, o fabricante de rendas Desseilles, que realiza já 65% do seu volume de negócios na exportação, abriu no entanto uma filial em Nova Iorque, em plena Manhattan, a cinco minutos do World Trade Center. «Os atentados não nos impediram de inaugurar esta filial de representação, com dois comerciais e uma administração» sublinha Jean Malraux, o novo director geral da sociedade representada pelo Fenway Group em Julho de 2001, que recusa deixar-se arrastar pela sinistralidade: «Aqueles que falam muito, fazem a crise». Por sua parte, Umberto Rognoni, director de marketing da Nylstar, observa que um impacto negativo sobre as encomendas ainda não foi registado na Europa. Os Estados Unidos, onde a Nylstar realiza cerca de 8%