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Efeito Vêtements

Chegaram à Europa como crianças refugiadas e hoje decidem os destinos de uma das marcas que mais tinta tem feito correr nos media especializados e que mais tem prosperado em número de seguidores – o cantor Kanye West é um dos mais ativos.

Demna Gvasalia e Guram Gvasalia, os jovens irmãos nascidos na Geórgia que integram o coletivo da Vêtements – cuja nova coleção chegou à passerelle parisiense na quinta-feira, dia 3 de março –, querem revolucionar o negócio da moda.

Dias antes de Demna Gvasalia, de 34 anos, apresentar a sua primeira coleção para a casa Balenciaga (que aconteceu ontem, 6 de março), na qual assume o papel de diretor criativo desde a saída de Alexander Wang (ver O novo homem do leme), o seu irmão mais novo Guram, de 30, que gere a parte comercial da Vêtements, em declarações à AFP, defendia que o modelo de trabalho da Vêtements poderá ser exemplo para os restantes designers.

Com a indústria cada vez mais dilacerada pela querela em torno da venda imediata das coleções mal estas desfilam na passerelle, Guram Gvasalia afirmou à agência noticiosa que a moda tem de ir ainda mais longe e repensar-se para abraçar a raridade e o luxo.

A Vêtements produz apenas duas coleções por ano, referiu Guram Gvasalia, enquanto as grandes casas produzem seis a oito, o que significa que as roupas ficam nas lojas algumas semanas, até verem o seu preço reduzido nos saldos. «A indústria está a superproduzir. Se algo está em saldo, significa que foi superproduzido», explicou o membro do coletivo Vêtements. «De forma a fazer com que as pessoas queiram algo, é necessário promover a escassez. A definição real de luxo é algo que é escasso», acrescentou. «Cada peça das nossas coleções vai passar a ser um item limitado. Nós não reabastecemos o stock e não reproduzimos as peças – se esgotou, esgotou», acrescentou.

A Vêtements, termo francês para “roupas”, começou como um coletivo de sete designers anónimos, até Demna Gvasalia sair das sombras (ver Em nome do anonimato). A marca construiu a sua reputação com um streetwear oversized, justapondo, de forma inteligente, materiais mais baratos e looks de luxo, com Gvasalia a reivindicar a sua fonte de inspiração no metro da capital francesa.

Corrida contra o tempo

«Os designers são seres humanos. As pessoas criativas precisam de tempo. Os grandes grupos não se preocupam com isso», afirmou Guram Gvasalia «Claro que me preocupo com o meu irmão, ele é uma pessoa muito criativa, mas é muita pressão e não quero forçá-lo a fazer quatro coleções para nós, a par das suas coleções para a Balenciaga», acrescentou.

Em vez disso, Guram Gvasalia revelou querer desenvolver apenas dois desfiles por ano, com as semanas de moda de Paris a mudarem de março para janeiro e de setembro para junho. «Quero ter uma solução que não seja apenas boa para mim, quero ter uma solução que seja boa para cada marca que mostre [as suas coleções]», defendeu.

Como parte desta mudança radical, a Vêtements amalgamou já vestuário masculino e feminino no seu último desfile de menswear, em janeiro. «Hoje não há géneros», afirmou Gvasalia, que cresceu com o seu irmão na Alemanha depois de fugirem da sua terra natal devido à guerra civil.

As federações francesa e italiana de moda estão a resistir às tentativas americanas de reorganizar o calendário de desfiles para que o público possa comprar roupas logo que cheguem às passerelles (ver Casas francesas dizem não).

Em vez dos desfiles de outono-inverno que ocorrem na primavera, como acontece agora, Nova Iorque quer que as mostras sejam “para a estação”, no início de cada outono e de cada primavera. Mas Gvasalia disse que a disputa sobre a mudança para um sistema de “ver agora/comprar agora” é apenas uma parte do problema. «Eu e Demna já passamos por uma guerra, já passamos por tantas coisas na vida, já vimos coisas realmente más. E quando se veem coisas más, a indústria da moda é (sobre) divertir-se. Começa-se a apreciar a vida de forma diferente», acrescentou.

A vida como refugiados e a sua origem mista ensinaram-nos a pensar de uma forma diferente. «Somos uma mistura de oito nacionalidades e três religiões. Temos uma avó judia, um avô que é muçulmano e um pai cristão. Quando alguém me pergunta onde é o meu lar, realmente não sei responder», concluiu Guram Gvasalia.