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Egipto em mudança

Os juízes egípcios declararam que a Shebin El-Kom Textile Company (que tem grandes clientes internacionais no sector de vestuário) e a Tanta Company for Linen and Derivatives (que não vende para o sector de vestuário) tinham sido vendidas sem os devidos procedimentos, e restauraram a propriedade das empresas para o Estado. Enquanto a Tanta era propriedade de um investidor saudita, a Shebin era detida desde 2007 pelo grupo de investimento indonésio Indorama. Esta última vende fios para marcas globais, incluindo Esprit, Nike, e Gap, e exporta actualmente 35% da sua produção para a Europa. Apesar da decisão do tribunal, que tem sido apoiada por trabalhadores, especialistas do sector e sindicalistas, as duas empresas enfrentam agora novos desafios, na medida em que se juntam a 75% das empresas têxteis egípcias que continuam a definhar no sector público, com máquinas antigas, funcionários mal pagos e, como resultado, tecidos fracos. «Passámos cerca de 20 anos com quase nenhum investimento e se essas empresas não tiverem investimentos anuais para ajudar a modernizar e ser competitivas, vão desmoronar», afrma Mohsen El Gilani, o presidente da estatal Holding Company for Cotton, Spinning and Weaving. A indústria têxtil no Egipto enfrenta muitos desafios num mercado cada vez mais globalizado. Em 2004, um decreto presidencial levantou as tarifas proteccionistas sobre as importações de produtos de algodão de fibras curtas e médias, pouco antes do termo do Acordo Multi-Fibras no âmbito da Organização Mundial do Comércio. O mercado abriu-se aos materiais baratos, aos fios e tecidos e tornou-se saturado com produtos baratos, enquanto a produção local se esforçava para manter preços competitivos. Esta concorrência deixou a indústria na corda bamba, de acordo com El Gilani: «temos de continuar uma política de mercado aberto, mas a profundidade social desta política deve ser aumentada, porque nós temos muitas pessoas pobres a considerar no país», Apesar disso, Ahmed El-Sayed El-Naggar, economista-chefe do Ahram Center for Political and Strategic Studies, está optimista com a medida. El-Naggar considera que a supervisão legal de empresas privatizadas poderá promover boas práticas: «acho que os resultados no sector privado serão melhores do que eram antes» Sob o regime de Mubarak, houve uma pressão para privatizar a importante indústria têxtil do Egipto ao abrigo da transição geral de uma economia estatal para uma de mercado. Até meados da década de 1990, o governo ofereceu apoio financeiro para as fábricas na forma de controlos de preços. Em 1994, uma nova lei de liberalização do comércio de algodão retirou os subsídios e o governo começou a tentar empurrar a indústria têxtil no sentido do sector privado. No entanto, os críticos alegam que muitas das fábricas foram vendidas a pessoas leais ao regime ou compradores estrangeiros bem relacionados. E enquanto alguns investidores privados modernizaram as suas empresas e impulsionaram as exportações, outros ficaram ricos com os cortes nos salários e nos benefícios. Nos meses que se seguiram à revolução, os egípcios têm reivindicado aumentos salariais, reintegração de ex-trabalhadores demitidos e renacionalização de empresas vendidas sob circunstâncias supostamente corruptas – afirmações que foram agora apoiadas pelos tribunais.