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El Salvador entra na corrida

O país da América Central está a definir uma estratégia para impulsionar a sua indústria têxtil e vestuário. Face à concorrência dos países asiáticos e de nações próximas como as Honduras, El Salvador quer mostrar as suas competências nos sintéticos e desenvolver marcas para ganhar pontos nos mercados externos.

A nova estratégia para a indústria têxtil e de vestuário está a ser pensada para um período de 15 anos e deverá ficar definida no próximo mês de dezembro. O objetivo é melhorar a situação do sector face à concorrência mais acérrima não só das nações asiáticas mas também de adversários mais próximos, como as Honduras.

Recentemente, as Honduras lançaram o plano de desenvolvimento Honduras 2020 para aumentar rapidamente a produção de sintéticos e aumentar a sua presença no mercado em crescimento do activewear, nos EUA e no mundo.

El Salvador, que tem igualmente procurado afirmar-se na área dos sintéticos – que são uma falha de mercado na América Central – tem de responder «e fazer um trabalho melhor» do que as Honduras, afirmou ao just-style.com Patricia Figueroa, diretora-executiva da principal associação da indústria, a Camtex – Cámara de la Industria Textil y de la Confección. «Precisamos de crescer dessa forma», considera Patricia Figueroa, acrescentando que a estratégia será tentar desenvolver novos nichos de sportswear de elevada performance que incorporem tecidos e acabamentos inovadores para conquistar novos clientes “chave na mão” e desenvolver marcas locais.

Para a diretora-executiva da Camtex, é ainda muito cedo para revelar mais detalhes mas sublinhou que a associação, que representa a indústria têxtil, vestuário e zonas de comércio livre de El Salvador, está a preparar o plano com os sectores público e privado.

Patricia Figueroa destacou ainda que El Salvador está a tentar impulsionar as suas capacidades de produção a curto prazo e “chave na mão” para responder à crescente procura das marcas de fast fashion dos EUA, mas enfrenta grandes desafios ao nível de regulamentação, laboral e marketing.

«Temos de melhorar os processos na alfândega», indicou, acrescentando que a indústria está a pressionar San Salvador para tornar os processos alfandegários mais eficientes para reduzir os tempos de entrega de vestuário aos EUA dos atuais seis dias para apenas cinco dias. «Nós [indústria e governo] estamos em diálogo, mas isto tem de avançar mais rápido. Temos de reduzir a burocracia na exportação, rever planos de contingência e tornar as alfândegas mais expeditas para as tornar mais amigas dos negócios», referiu Patricia Figueroa.

Flexibilidade laboral

Aumentar a flexibilidade laboral é também essencial, já que países rivais da América Central, como a Guatemala e as Honduras, têm legislação que permite turnos de trabalho definidos consoante a procura. «O código laboral tem de ser modificado», acredita Figueroa. «Há fábricas que podiam absorver muito mais produção se tivessem turnos flexíveis», acrescentou.

A diretora-executiva da Camtex desvaloriza os estudos que indicam que as exportações de vestuário de El Salvador estão atrás dos seus vizinhos regionais, acrescentando que as mesmas devem aumentar 5%, para cerca de 2,6 mil milhões de dólares (cerca de 2,3 mil milhões de euros), este ano.

Juan Zighelboim, presidente da produtora de activewear TexOps, considera que os planos para aumentar a capacidade de produção de sintéticos de El Salvador estão corretos. O país é já casa de uma das principais fornecedoras de tecidos sintéticos da região – a Pettenati faz 600 toneladas por semana –, que produz para marcas de activewear como a Nike, Patagonia, Lululemon e The North Face, segundo Zighelboim.

Contudo, destacou que é também essencial para El Salvador encontrar sinergias produtivas com a Honduras e outros países da América Central, como a Guatemala. «Podemos ser mais importantes juntos», referiu Zighelboim, citado pelo just-style.com. «Temos mais capacidade nos segmentos mais altos dos sintéticos do que as Honduras, que ainda tem muita confeção a feitio, mas podemos beneficiar se eles aumentarem a produção», acrescentou.

Zighelboim mencionou que as Honduras, El Salvador e a Guatemala estão atualmente a estudar formas de complementar e apoiar as suas cadeias de produção. «Há muitas coisas a serem discutidas, como partilhar matérias-primas e inputs que podem servir todos os produtores de vestuário na região», referiu.

A TexOps emprega 1.300 pessoas e envia, por semana, 150 mil peças de vestuário para marcas de retalhistas dos EUA.

Mais marketing

Walter Wilhelm, fundador da consultora da indústria Walter Wilhelm & Associates, considera que El Salvador e outros países da América Central têm de trabalhar mais para divulgar os seus serviços e acelerar as entregas para as marcas americanas face ao aumento da concorrência das arquirrivais asiáticas, como o Vietname e nações da Parceria Transpacífico.

Isso é especialmente crucial numa altura em que os consumidores americanos estão online, à procura de fast fashion cada vez mais barata, o que esmaga a capacidade de compra dos retalhistas físicos.

O avanço no comércio eletrónico está a forçar muitas marcas e retalhistas tradicionais a reestruturar e, por vezes, a congelar temporariamente as encomendas que se tornaram «complicadas» e mais frequentes, ao contrário do sistema tradicional no passado, em que surgiam duas grandes encomendas por ano, explicou Wilhelm ao just-style.com.

Por entre estes desafios, as exportações da América Central para os EUA podem aumentar 3% este ano, um abrandamento face ao crescimento de 4% em 2015, acrescentou.

«As empresas nunca trabalharam o marketing nem em construir uma relação com os clientes», apontou Wilhelm. «Apenas aceitam encomendas e enviam-nas. Eu disse-lhes que têm de construir uma relação e fazer com que os governos estejam mais envolvidos» para aumentar a competitividade. Wilhelm destacou ainda que os tempos de entrega estão atrás dos propostos pelos rivais asiáticos. «Há algumas empresas que ainda demoram quatro semanas a enviar uma amostra quando eles [os clientes americanos] conseguem obtê-las em dias dos seus fornecedores asiáticos», sublinhou.

A indústria têxtil e vestuário de El Salvador emprega 70 mil pessoas diretamente e 200 mil indiretamente, representando 45% de todas as exportações e, de acordo com a Camtex, as exportações do sector subiram 6,2% em termos anuais em 2015, para 2,55 mil milhões de dólares. O país está na lista dos 10 maiores fornecedores dos EUA, que são o principal destino de exportação. O volume das exportações de vestuário para os EUA aumentou 3,1% entre 2014 e 2015, para o equivalente a 813 milhões de metros quadrados, enquanto o valor subiu 2,5%, para 1,95 mil milhões de euros.