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Elastoni de olho nos nichos

A empresa criou uma solução que combina têxtil e plástico e permite ver a boca. Completamente reciclável, a máscara, que inicialmente foi pensada para suprir as necessidades da população deficiente auditiva, está a ser procurada também por outros consumidores.

Antónia Rafael e Nuno Oliveira

A incursão pelas máscaras começou ainda em fevereiro, quando as notícias da China suscitaram a preocupação de proteger os trabalhadores do grupo Be Angel, ao qual pertence a Elastoni, e da empresa parceira Perfil Cromático. Os primeiros desenvolvimentos acabariam por ser “testados”, de forma não oficial, por profissionais no Hospital de S. João e, face às boas críticas, foram submetidos a testes e resultaram numa máscara certificada pelo CITEVE. Posteriormente, surgiu o repto que levaria a uma nova solução. «O CITEVE colocou-nos o desafio de tentar desenvolver uma máscara para pessoas com deficiência auditiva», conta, ao Jornal Têxtil, Nuno Oliveira, que partilha a administração da empresa com Antónia Rafael. Após diferentes estudos e protótipos, concebidos internamente e com inputs do centro tecnológico, surgiu a solução final «que não está muito longe da primeira que desenvolvemos», garante Nuno Oliveira.

O modelo conjuga um material plástico – que tem a mão da especialista Vizelplas, que foi parceira no desenvolvimento – com uma malha que incorpora acabamentos antibacterianos e repelentes de água e óleo, conferidos pela Perfil Cromático. «Há também a conjugação de um elástico que consegue fechar a máscara de tal forma que as saídas de ar quase não existem. Significa que o ar é todo filtrado pela malha e o plástico permite-nos a visualização», explica Nuno Oliveira.

O objetivo inicial de servir uma necessidade da população deficiente auditiva foi cumprido, mas a procura foi além deste nicho, com pedidos, por exemplo, de professores e educadores de infância, que acreditam que a solução pode facilitar o contacto com as crianças, indicam os administradores.

Mais-valias ambientais

A máscara da Elastoni tem ainda a vantagem de ser completamente reciclada, garantem os administradores da empresa. «Além de ser reutilizável, no final é 100% reciclável. Conseguimos comprovar que é possível pegar na máscara toda, desmontá-la e a partir daí construir uma peça nova para ser aplicada noutra área», afirma Nuno Oliveira. «Mesmo a questão do elástico, é tudo em poliamida e reciclável», acrescenta Antónia Rafael.

O interesse pelo projeto foi imediato, mas a complexidade da construção limita a capacidade produtiva. «A nível de confeção é muito difícil misturar o plástico e o têxtil. Tivemos que optar por bordar e o corte também tem que ser a laser», revela Antónia Rafael. «A produtividade baixa drasticamente», reconhece Nuno Oliveira, admitindo que «temos de ter boas encomendas para garantir a produtividade». Esta complexidade reflete-se igualmente no preço, que para venda ao público foi fixado nos 10 euros.

A estratégia de distribuição será mista, com venda a distribuidores mas também diretamente aos consumidores finais, numa plataforma online própria sob a marca Be Angel. «A questão das máscaras precipitou um projeto que temos há algum tempo, que é a ideia da criação da Be Angel como marca», elucida o administrador, que realça, no entanto, que, apesar da «boa publicidade» que as máscaras trouxeram à marca própria, que está vocacionada para os artigos de moda, «isso é o que queremos fazer no futuro, mas neste momento somos essencialmente uma empresa produtiva».

Embora esta máscara, que tem um pedido pendente de patente para a Europa, não tenha ainda «muitas vendas», apesar das manifestações de interesse não só do mercado nacional, mas também da França e da Bélgica, a Elastoni manteve sempre a laboração nos últimos meses, graças, por um lado, à resposta ao pedido de máscaras convencionais e, por outro lado, à produção dos artigos habituais de moda e roupa interior. «O negócio das máscaras foi fantástico, acabou por aparecer na hora certa e tirou-nos aquele medo que havia. Foi capaz de, felizmente, nos permitir recuperar tudo que estávamos a perder e estamos ainda com mais capacidade de encarar o futuro. Há três meses estávamos bem pior do que hoje em termos negócio», assume Nuno Oliveira. «E alguns dos nossos negócios com vendas online nunca baixaram a produção», destaca Antónia Rafael.

Crescer com pequenas quantidades

A empresa, que trabalha essencialmente com pequenos e médios clientes, num segmento de preço de gama média/alta, tem a flexibilidade para responder a pequenas séries, recorrendo, sempre que necessário, também a confeções na proximidade. «O cliente que nós queremos é aquele que faz 3.000, 1.000 ou 500 peças e com preços mais justos. Aquele cliente que faz 20 mil peças não é o nosso registo. Não queremos estar com um cliente em que sentimos que o risco é muito grande», assegura Nuno Oliveira. Bélgica, França e Finlândia são os principais mercados da Elastoni, que vende quase tudo para exportação.

O impacto do Covid-19 foi sentido no negócio dito normal, mas as máscaras deverão permitir aumentar o volume de negócios, que no ano passado rondou os 2,7 milhões de euros. «As máscaras vieram disparar os números e vão “enganar” os resultados do ano. Fizemos uma exportação muito grande de máscaras, contratámos muitas empresas que trabalharam connosco e vamos ultrapassar bastante os 3 milhões de euros», acredita Nuno Oliveira, ressalvando que «se retiramos as máscaras, se calhar estaríamos num ano ligeiramente abaixo do ano passado».

As máscaras permitiram ainda à empresa cumprir o objetivo de dar um prémio aos 35 trabalhadores que constituem o grupo Be Angel. «O facto de termos uma equipa fantástica, que esteve sempre connosco, fez com que nos aparecessem bons negócios. O facto de terem vindo sempre trabalhar justificava um prémio extra, por toda a questão psicológica que anda à volta do Covid. Felizmente, conseguimos no mês passado atribuir um prémio a todos», considera Nuno Oliveira.