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Eletricidade tira energia ao Paquistão

O Paquistão, um peso-pesado na produção mundial de algodão, tem sofrido com o fornecimento errático de eletricidade. A situação está agora a melhorar e a indústria têxtil começa a recuperar, mas o país sente ainda dificuldades em relançar as exportações.

Devido à corrupção, ineficiência e falta de investimento, o nível de produção de energia manteve-se bastante abaixo das necessidades do país nos últimos 10 anos, uma situação que tem prejudicado a indústria têxtil, que emprega 30% da população ativa do Paquistão e representa a maioria das suas exportações, afirma um artigo publicado pela AFP. O país é o quarto maior produtor mundial de algodão, a seguir à Índia, China e EUA.

Metade do tempo «precisamos de fornecer eletricidade às fábricas com geradores a diesel, o que é muito dispendioso, por isso preferimos fechá-las em vez de perder dinheiro diariamente», explicou, à AFP, Rehan Bharara, que detinha várias unidades produtivas e atualmente é diretor de um projeto público que promove a infraestrutura têxtil.

Em poucos anos, um terço da capacidade produtiva da indústria perdeu-se, milhares de fábricas encerraram e a maior parte das que continuam a produzir está a trabalhar a capacidade reduzida, acrescentou Bharara.

As falhas intermináveis de eletricidade e gás estão a impedir as fábricas do Paquistão de serem competitivas e de cumprirem as encomendas a tempo, perdendo clientes para as suas congéneres no Vietname e no Bangladesh.

Algumas fábricas investiram fortemente na produção energética, como a Sadaqat, que fornece têxteis-lar a cerca de 50 retalhistas ocidentais de mass market, entre os quais Intermarché, Auchan e Leclerc. O abastecimento de energia nas suas enormes unidades produtivas depende da altura do dia. As empresas dependem sobretudo do gás, que é mais barato, mas trocam para a empresa pública de eletricidade Wapda se falhar o gás. No caso de um apagão, recorrem a geradores a petróleo, revela o proprietário, Mukhtar Ahmed, à AFP.

Contudo, as empresas mais pequenas, que dependem da rede de eletricidade pública, têm de parar de cada vez que a energia falha. Uma situação que se torna igualmente um problema para os trabalhadores, uma vez que só recebem se houver eletricidade para alimentar as máquinas, uma prática habitual no Paquistão.

O governo do país prometeu acabar com os apagões até ao final de 2018 e duplicou os esforços para dar prioridade às empresas produtoras. Em dezembro, o Paquistão ativou a sua quarta central nuclear.

Os apagões são agora significativamente menos e Wahid Raamay, presidente da associação de tecelões em Faisalabad, no norte do país, acredita que se esta tendência continuar, mais investimentos vão impulsionar o sector. «A questão crucial é ter um abastecimento de energia 24/7», admitiu.

Apesar destas melhorias, os produtores de têxteis ainda têm problemas consideráveis. A corrida para expandir a rede elétrica e a utilização de gás natural liquefeito tornou a energia mais cara. O custo da energia que vem da rede quase que duplicou em oito anos, segundo Rehan Bharara. Ainda é mais barata do que a energia produzida a partir de um gerador a diesel, mas é mais cara do que a que está disponível em países concorrentes.

O Paquistão está, pelo menos, a beneficiar de um abastecimento mais fiável de energia e espera, com o tempo, baixar os custos energéticos através de fábricas que operem a energia solar, hidroelétrica e carvão, prometidas pelo governo.

O Asian Development Bank está menos otimista. Werner Liepach, que representa o banco no Paquistão, teme que a eletricidade fornecida por um número crescente de centrais construídas por empresas chinesas possa tornar-se mais cara, devido à falta de transparência no processo.

Algo que pode afetar ainda mais as exportações do país, que nos primeiros nove meses de 2016 caíram 13%, num sinal claro de que a indústria têxtil ainda não recuperou.