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Emergentes fora de moda

Como qualquer outra tendência, os mercados emergentes oscilam em popularidade. Na sequência de altos e baixos, que se sucederam ao longo das últimas décadas, alimentados pelas flutuações da economia mundial, os mercados emergentes enfrentam agora um novo desafio.

Ao pico de entusiasmo experienciado no final da década de 1980, seguiu-se a crise do final dos anos de 1990. Na primeira década do século XXI, a sua popularidade voltou a disparar e foi cunhado o termo BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China. Quando as principais economias mundiais foram severamente afetadas pela crise económica de 2008, os mercados emergentes representavam, o que parecia ser, uma esperança para o futuro.

No entanto, nos últimos anos, a sua popularidade voltou, uma vez mais, a cair. Esta mudança de sentido é justificável. O FMI previu que 2015 será o quinto ano consecutivo em que o crescimento económico dos mercados emergentes abrandará. Dois dos membros do BRIC – Brasil e Rússia – estão em recessão. Muitos mostram-se receosos face à capacidade das autoridades chinesas de conduzirem a sua economia, cujo crescimento desenfreado das décadas anteriores deu lugar a uma crescente desaceleração. A diferença de crescimento entre os mercados emergentes e os países desenvolvidos será a mais reduzida desde 2001, segundo dados divulgados pelo FMI.

Andrew Haldane, economista sénior do Banco de Inglaterra, considera que os mercados emergentes serão a «terceira vaga» numa série de crises que se iniciaram em 2008, nos Estados Unidos da América, propagando-se, de seguida, ao continente europeu. A temática da «terceira vaga» foi abordada numa pesquisa recentemente realizada pela Goldman Sachs.

O problema subjacente reside no facto de o abrandamento do crescimento dos mercados emergentes ser acompanhado por uma acumulação de dívida corporativa. Excluindo elementos financeiros, as empresas sediadas em mercados emergentes têm um nível médio da dívida de 90% do PIB, de acordo com o HSBC. Na Ásia, a dívida corporativa não financeira passou de 80% do PIB em 2009 para 125% atualmente. O crescimento mais lento dificultará o pagamento da dívida e a desvalorização das moedas agravará as dificuldades de pagamento da parcela de dívida denominada em dólares. De acordo com um inquérito realizado junto de gestores de fundos, pelo Bank of America Merrill Lynch, os investidores apontam que os dois maiores riscos para a economia mundial são uma recessão chinesa e uma crise de dívida dos mercados emergentes.

Além disso, os lucros corporativos não têm aumentado tão rapidamente como antecipado pelos investidores. A Goldman Sachs estima que as empresas asiáticas não apresentam um crescimento de duplo dígito das suas receitas desde 2010. John-Paul Smith da Ecstrat afirma que, no cômputo geral, a rentabilidade de capitais das empresas sediadas em mercados emergentes caiu mais de sete pontos percentuais desde a crise financeira.

Smith receia que um ciclo cruel se esteja prestes a iniciar, «no qual a má governação e formulação de políticas, a depreciação da moeda e uma pressão decrescente dos padrões de vida atuam de forma reflexiva». Um crescimento económico lento irá encorajar os governos a intervirem mais na economia, conduzindo a impostos mais elevados ou ao controlo dos preços. Os governos poderão, também, desviar as atenções, culpando os especuladores e as empresas estrangeiras pelo fraco desempenho.

A retórica nacionalista, por sua vez, irá enfraquecer a confiança dos investidores, reduzir o investimento direto estrangeiro e provocar a fuga de capitais. Isto irá «aumentar a pressão descendente sobre a moeda e, consecutivamente, sobre os padrões de vida das famílias, e incentivar à elaboração de políticas mais populistas», sustenta Smith.

Esse pessimismo reflete-se já nos investidores. Na pesquisa realizada pela Merrill Lynch, a participação dos gestores de fundos, cuja exposição a ações de mercados emergentes foi menor do que o normal, excedeu aqueles com uma dotação invulgarmente alta, por 28 pontos percentuais. A Capital Economics estima que os mercados emergentes perderam mais de 260 mil milhões de dólares no terceiro trimestre do ano. Em termos nominais, este resultado superou o fluxo de saída assinalado durante a crise de 2008/2009. Em termos proporcionais, considerando o PIB dos mercados emergentes, essa perda foi menor: 4% contra 6% em 2008.

Os mercados emergentes transacionam, geralmente, com um custo menor face aos seus pares nos mercados desenvolvidos, embora ocorram exceções pontuais. O valor mais elevado foi testemunhado no outono de 2010, transacionando, atualmente, a um custo menor.

Porém, essa redução de custo não é tão significativa agora como era na década de 1990. Até que os caçadores de pechinchas encontrem algum sinal de melhoria dos princípios económicos fundamentais, a sua indiligência parece justificar-se.