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Empresas lusas antecipam dificuldades

A pandemia do COVID-19 está a levar a uma redução das encomendas colocadas na indústria portuguesa, dos fios ao vestuário. As medidas propostas pelo Governo são bem-vindas mas, acreditam os empresários responsáveis pela Lipaco, Tintex, Becri e Twintex, há ainda outras ações que podem ser tomadas a pensar no futuro.

Bruno Mineiro (Twintex)

A grande preocupação atual é a saúde de todos, nomeadamente os colaboradores. Empresas como a Twintex, que emprega 400 pessoas, colocaram em prática um plano de contingência abrangente para evitar a propagação do vírus dentro de portas. «Implementamos um programa de contingência que passa por 15 medidas de segurança», dá conta, ao Portugal Têxtil o administrador Bruno Mineiro. Utilização de luvas e máscaras, manutenção de uma distância mínima de um metro entre colaboradores, medição de temperatura corporal de duas em duas horas, monitorização de sintomas e redução ao mínimo da deslocação entre sectores fazem parte das regras atuais na produtora de vestuário sediada no Fundão.

A cerca de 400 quilómetros, para norte, na Tintex, 15% dos colaboradores, sobretudo da área comercial, estão em regime de teletrabalho. «Os restantes estão com alguma redução», aponta o CEO Mário Jorge Silva.

Encomendas em queda

A mão de obra é, de resto, o grande ativo que as empresas estão a procurar manter nos próximos tempos, face a uma redução das encomendas que se verifica dos fios ao vestuário.

«Vivemos todos um momento de muito receio, não só pela parte da saúde, porque os colaboradores têm todos muito receio em se manterem a trabalhar, mas com o que pode vir a seguir e que já se começa a sentir de uma forma muito acentuada, que é a quebra de encomendas no mercado», assume Jorge Pereira, CEO da Lipaco. Na produtora de fios e linhas de costura, as dificuldades causadas pelo coronavírus implicam dificuldades em receber matérias-primas, muitas delas retidas em entrepostos em Itália e Espanha, e em enviar as encomendas, assim como na retração dos clientes.

Jorge Pereira (Lipaco)

«Se temos as lojas fechadas por todo o mundo, quem é que vai comprar camisolas ou calças? O consumo não existe nem vai existir nesta estação e mesmo na próxima tenho muitas dúvidas que vá haver», afirma. O CEO da Lipaco «Mais 15 dias e não deve ficar ninguém a trabalhar pelo que vejo no mercado», acredita Jorge Pereira, que realça ainda que, aproveitando a conjuntura, «há muitas empresas que não estão a pagar aos fornecedores».

Na especialista em malhas Tintex, o mês de março trouxe uma redução superior a 30% das encomendas, em abril essa diminuição poderá rondar os 60% e, em maio, as encomendas poderão ficar próximas de zero. Além disso, «cerca de 20% das vendas possíveis para este mês ficam na empresa porque os clientes pediram para suspender, para atrasar, à espera de dias melhores. Temos falado com os nossos clientes e eles preveem travar a fundo na próxima semana ou nas próximas duas semanas», revela Mário Jorge Silva que, por isso, prevê «uma paragem da empresa durante duas ou três semanas, se as coisas continuarem assim». Há ainda a escassez de fios e alguns produtos químicos, que «estamos a contornar com algumas alternativas. Neste caso, os clientes compreendem e estão mais recetivos a aceitar do que no passado», assume o CEO da Tintex.

As confeções sentem também um abrandamento. «De momento, o impacto ainda não é o maior, mas já estamos a ter reduções e cancelamentos de encomendas. Nesta última semana têm sido com mais frequência», admite José Costa, administrador da Becri, que vai procurar manter a atividade «até onde for possível», mas «protegendo a família Becri», os 400 funcionários que emprega diretamente em quatro unidades produtivas.

«O impacto [na atividade] é enormíssimo», reconhece Bruno Mineiro. «Os clientes estão a rever em baixa as encomendas e os fornecedores, em termos de matérias-primas, têm algumas dificuldades nas entregas, condicionadas, em grande parte, pela disponibilidade de transportes», explica.

A redução «é inevitável, a Twintex tem clientes no mundo inteiro e isto afeta todos», assegura o administrador da produtora de vestuário, que, no entanto, está a respeitar a calendarização, prevendo apenas uma paragem de uma semana para as habituais férias de Páscoa.

Medidas insuficientes

As medidas apresentadas pelo Governo para apoiar as empresas são bem-vindas. «Todas as medidas são boas para ajudar, a questão que se põe é se são suficientes», questiona José Costa. «As empresas precisam de dinheiro para fazer face aos seus compromissos, mas acima de tudo precisam de ver perspetivas para o seu futuro», considera o administrador do grupo Becri.

José Costa (Becri)

«Olho para as medidas de forma dinâmica. Neste momento parecem-me insuficientes e o evoluir dos acontecimentos vai mostrar isso mesmo», garante Bruno Mineiro, que está sobretudo preocupado com as pequenas empresas, os subcontratados com os quais a Twintex tem uma relação, em muitos casos, longa e cujo desaparecimento levará a uma perda de capacidade produtiva no país. «As empresas têm dificuldade em, não faturando, ir fazendo face aos compromissos do fim do mês. Como tal, esses que estão mais vulneráveis são os primeiros a sofrer e já temos, infelizmente, alguns encerramentos declarados», assinala. «Penso que devia haver medidas muito rápidas e diretas de financiamento às empresas, para ajudar a passar este período, que esperamos que sejam dois ou três meses e não mais», acrescenta.

Para o CEO da Lipaco, «há uma lentidão do governo em tomar medidas práticas e não políticas», referindo a necessidade do Estado «tomar medidas para cobrir 80% do rendimento dos trabalhadores enquanto as empresas estiverem paradas». Jorge Pereira alerta que «as medidas de financiamento deveriam ser com taxas muito competitivas e não de uma forma das pessoas se aproveitarem para ganhar dinheiro com isto. Mais uma vez, isto é um bom negócio para os bancos». Ainda assim, ressalva o empresário, «mais vale haver uma ajuda do que não haver» e também «há bancos que estão a ser muito proativos».

«O que é essencial é que o Estado coloque rapidamente dinheiro nas empresas através da banca, que se deixe de muitos formalismos», defende Mário Jorge Silva, dando conta que «não há empresas nenhumas interessadas em despedir pessoas. Mesmo no lay-off as empresas têm primeiro de pagar para depois poderem ser ressarcidas. Tudo tem de ser muito rápido».

Propostas para o futuro

Apesar das preocupações a curto prazo, manter as empresas aptas para o pós-crise é uma das grandes preocupações. «O futuro próximo não me preocupa tanto, preocupa-me a seis meses. O impacto maior vai sentir-se mais à frente», afiança o administrador da Becri. É a pensar neste horizonte que José Costa refere a necessidade de assegurar os seguros de crédito, numa altura em que as seguradoras poderão começar a cortar a cobertura de forma mais ou menos generalizada. «Vamos ficar nas nossas próprias mãos, ou seja, as seguradoras vão encolher-se e o risco vai ter de ser assumido por nós», assevera o empresário.

Outra medida que vê com bons olhos é a criação de um lobby junto dos governos de países com os quais a indústria trabalha para «criar confiança e esperança para os empresários portugueses», salienta José Costa.

Mário Jorge Silva (Tintex)

Confiança é, efetivamente, a palavra de ordem para um futuro que se perspetiva difícil. «É fundamental assegurar os contratos [dos trabalhadores] e assegurar que as empresas têm equipas já feitas – se as perdermos, depois para regressar é muito difícil. O que pode vir a acontecer é perdermos a indústria e industrializar um país leva 20 anos», reforça o CEO da Lipaco. «Temos de assegurar o rendimento aos colaboradores até porque são eles que relançam a economia e o consumo depois», acrescenta.

«O mais urgente é colocar dinheiro nas empresas para pagar os salários e os compromissos para que, apesar de tudo, haja confiança e as empresas não deixem de fazer o trabalho de preparação da nova época», destaca o CEO da Tintex. «Se houver um financiamento rápido das empresas, os empresários ficam a ter mais confiança no Estado, percebem que há, de facto, solidariedade e vão ter mais empenho no desígnio nacional e tentar baixar ao mínimo o impacto no PIB», conclui Mário Jorge Silva.