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Entre a Índia e o Paquistão

A recompensa aguarda os empreendedores que arriscarem estabelecer pontes de união entre a Índia e o Paquistão. Porém, muitos questionam-se sobre se os interesses económicos comuns a ambas as nações poderão superar o passado turbulento da região.

Suspeita, tensão e guerra intermitente têm marcado as relações entre a Índia e o Paquistão desde a partição sangrenta que os separou do Império Britânico – e um do outro – há 68 anos. Mas é também um relacionamento pontuado por momentos raros de proximidade, praticamente inevitável para dois países vizinhos tão diferentes em alguns aspetos, mas tão semelhantes em muitas outras coisas.

Embora a hostilidade prevaleça, frequentemente, a um nível governamental, empresários de ambos os lados da fronteira têm vindo a aperceber-se da semelhança dos hábitos de consumo de ambas as nações. Aqueles que trabalham no comércio de vestuário encaram esta oportunidade de negócio como algo vantajoso. As indústrias da moda de ambos os países foram construídas sobre as fundações de uma história conjunta de tradição, que se tem sedimentado ao longo de vários milénios.

 Oportunidade natural

Na Índia e no Paquistão, as silhuetas quase que são um reflexo umas das outras, frequentemente decoradas com bordados elaborados, apreciados em ambos os lados da fronteira. O shalwar kameez paquistanês é muito semelhante ao seu homólogo indiano e, embora o sari seja mais popularmente usado na Índia, a peça integra, também, a diáspora da indumentária paquistanesa. Simultaneamente, existem peças distintas, que tornam a moda de cada país mais entusiasmante – ainda que não excessivamente estranha – para os clientes do outro lado da fronteira.

«Vejo, definitivamente, um ávido interesse no mercado indiano pela moda paquistanesa», afirma o designer indiano, veterano da indústria, Tarun Tahiliani. «Até há alguns anos, a marca paquistanesa Sana Safinaz estava a vender bem na minha loja multimarcas, a Ensemble [em Bombaim e Deli]. As túnicas eram muito semelhantes ao nosso kurta, mas a mistura de cores com estampados, rendas e decorações conferiam às peças uma essência única», refere.

Tahiliani destaca também que muitos consumidores indianos são atraídos pela moda e têxteis do Paquistão, como comprovado numa feira que teve lugar no centro de exposições Pragati Maidan, em Deli, organizada pela Autoridade para o Desenvolvimento Comercial do Paquistão (TDAP, na sigla inglesa). A Ensemble Pakistan, uma loja multimarca sem ligações ao negócio de Tahiliani na Índia, foi uma das que esteve presente no certame e, segundo Shehrnaz Hussain, diretora-criativa da loja, a experiência foi positiva. «Abastecemo-nos de pronto-a-vestir paquistanês na exposição e diversas mulheres indianas pediram-nos determinadas peças usadas ​​por atrizes paquistanesas em dramas televisivos. As produções paquistanesas de televisão são particularmente bem-sucedidas na Índia, o que, juntamente com o alcance abrangente da Internet, tornou os consumidores indianos mais conscientes do que a nossa moda tem para oferecer», acredita.

No Paquistão, existe um fascínio semelhante e profundamente enraizado pelas tendências de moda inspiradas em Bollywood. A atriz indiana Sonam Kapoor aparece com frequência em desfiles de Anamika Khanna e a designer recorda várias ocasiões em que clientes paquistanesas encomendaram peças usadas especificamente pela atriz.

Em ambos os países, os casamentos envolvem cerimónias exuberantes, cuja dimensão alimenta uma indústria próspera. Nos casamentos da alta sociedade paquistanesa, não é incomum o uso de criações de designers indianos, como Manish Malhotra ou Sabyasachi Mukherjee, que se destacam pela sua paleta de cores tipicamente indiana e bordados tradicionais.

Comércio problemático

Dado o interesse por estas tendências de moda transfronteiriças, os designers indianos e paquistaneses deveriam – pelo menos na teoria – estar a desfrutar dos lucros comerciais decorrentes do envolvimento de consumidores de ambos os lados da fronteira. Porém, nem mesmo o fator lucro tem sido suficiente para convencer os retalhistas e marcas a enfrentarem a pesada legislação comercial, incertezas políticas e uma sensação geral de mal-estar, que resulta de fazer negócios transfronteiriços nesta parte do mundo.

O evento Carnival de Couture, que reúne, no Paquistão, designers de ambos os países, foi apressadamente cancelado em 2008 devido à desconfiança que se seguiu aos ataques terroristas de Bombaim nesse ano. O evento teve lugar em 2010, desaparecendo novamente de seguida, afetado por desafios logísticos e preocupações de segurança, que tornaram arriscado que os designers indianos atravessassem a fronteira.

A exposição Lifestyle Paquistan, que teve lugar no ano passado, em Deli, e a participação de designers paquistaneses na Semana da Moda de Lakme, na Índia, foram precedidas de protestos do partido de extrema-direita nacionalista indiano Shiv Sena. As relações comerciais são, também, dificultadas pelos procedimentos aduaneiros morosos e pelo excesso de burocracia impostos por ambos os países.

«Efetivamente, não é fácil», admite Umair Tabani, diretor-executivo da Sania Maskatiya, um atelier paquistanês que tem procurado sedimentar a sua presença na Índia, participando na Vogue Wedding Show em Deli, este ano, e na Semana da Moda de Lakme, no ano passado.

«Não podemos fazer transações financeiras diretas ou abrir uma conta na Índia», explica. «Quando expedimos vestuário para exportação, temos de criar protótipos que são extensivamente testados antes da aprovação do embarque. Diversos retalhistas multimarcas indianos, como a Ensemble e a Ogaan, abastecem-se de designs provenientes do Paquistão, mas no momento em que os impostos e taxas são adicionadas ao preço de venda, o vestuário torna-se demasiado caro, em comparação com os seus homólogos indianos. Os clientes perdem, frequentemente, o interesse em comprá-lo», refere.

Em resultado, o comércio continua oscilante, entre os momentos auspiciosos subsequentes às feiras e exposições, e os mais desafiadores, durante os quais amigos dos designers transportam vestuário através da fronteira, conseguindo satisfazer algumas encomendas.

De acordo com um relatório produzido em 2014, que analisa o efeito da normalização das relações comerciais sobre as economias indiana e paquistanesa, os autores estimaram que o potencial do comércio bilateral (19,8 mil milhões de dólares) entre os países é dez vezes superior ao volume real do comércio bilateral (1,97 mil milhões de dólares). Apresentado pelo Conselho Indiano de Pesquisa sobre Relações Económicas Internacionais, o relatório sugere que o sector de vestuário, em particular, poderia beneficiar desta oportunidade transfronteiriça inexplorada, uma vez que os têxteis e tecidos representam um número significativo dos «produtos sensíveis» que beneficiam do estatuto de livre comércio, nos termos do SAFTA (Área de Comércio Livre do Sul da Ásia), dos quais a Índia e o Paquistão são membros.

Como agravante, os designers indianos estão menos interessados ​​em explorar o mercado relativamente novo, de menor dimensão, do Paquistão do que o inverso. Isso não é surpreendente, no entanto, uma vez que, de acordo com o Banco Mundial, o PIB da Índia é de 2 biliões de dólares, cerca de oito vezes mais do que o PIB paquistanês, de 246 mil milhões de dólares. A dimensão do mercado da Índia é cerca de dez vezes superior, em termos de população, face ao do Paquistão. «A indústria de moda indiana está a crescer de forma constante e existe um grande mercado para explorar dentro do próprio país», afirma Bandana Tewari, diretora de moda da Vogue Índia.

«Anualmente, diversos jovens designers, incrivelmente promissores, entram no sector, enquanto as marcas mais antigas continuam a evoluir. A arena indiana está a ficar cada vez mais competitiva e a maioria dos designers pretende, atualmente, sedimentar a sua presença local, bem como entre o grande número de comunidades indianas dispersas pelo mundo. Existe, definitivamente, uma curiosidade face ao Paquistão, mas os designers são dissuadidos pelas restrições comerciais», acrescenta.

Para muitas empresas de moda transfronteiriças, o fracasso é inevitável. A boutique indiana Karmik, que vendia criações de vários designers, abriu em 2013 em Lahore, no Paquistão, mas encerrou apenas alguns meses mais tarde. E a marca paquistanesa Sana Safinaz já não está presente na Ensemble, de Tarun Tahiliani, na Índia.

«Temos uma base muito forte de admiradores indianos que ainda adquire as nossas peças através da loja eletrónica ou através de amigos que visitam o Paquistão», indica a designer Safinaz Muneer. «Não compensará o esforço, porém, até que as relações comerciais sejam mais propícias», considera.

Sinais encorajadores

Para os designers que conseguiram conquistar uma clientela fiel ​​do lado oposto da fronteira, o Dubai representa um terreno neutro, particularmente conveniente. Manish Malhotra, por exemplo, atende, frequentemente, clientes paquistaneses na sua loja no Dubai, ou em Londres, enquanto a designer paquistanesa Shehla Chatoor atende clientes indianos através do envio de remessas para o Dubai, a partir de onde são, posteriormente, encaminhadas para os clientes, evitando as restritas normas aduaneiras.

«A logística prejudica gravemente o comércio, mas o meu forte é o vestuário de luxo, com margens de lucro substanciais», afirma Chatoor, acrescentando que «mesmo um número limitado de encomendas provenientes da Índia é muito lucrativo para mim».

Outros estão, também, dispostos a avançar apesar dos desafios. Rohit Gandhi, um dos elementos do duo de estilistas indianos Rohit+Rahul, diz estar ansioso para construir o seu mercado no Paquistão. «Como posso deixar que preocupações de segurança ou restrições governamentais infundadas dificultem o crescimento do meu negócio?», questiona. Uma seleção de designs de Rohit+Rahul, bem como de pesos-pesados da moda ​​indiana, como Sabyasachi Mukherjee e Ritu Kumar, estão esporadicamente disponíveis na Ensemble Pakistan.

Alguns designers descobrem outras formas de contornar as barreiras comerciais. A designer paquistanesa Faiza Samee detém uma base firme de clientes indianos, em resultado da realização consistente de feiras e de uma presença intermitente de retalho em lojas indianas multimarcas, como a Ogaan e a Karma. As suas propostas sob medida são, frequentemente, encomendadas por clientes indianos através do Skype, sendo enviadas imagens por e-mail para aprovação antes da conclusão das peças.

Por serem persistentes, adaptáveis e excecionalmente conhecedoras, algumas empresas têm encontrado formas de contornar as barreiras governamentais e superar a burocracia onerosa, somando lucros no outro lado da fronteira. Pode ser apenas, uma ínfima parte do potencial que o comércio de moda poderá representar na Índia e no Paquistão – se abolidos os obstáculos – mas é um sinal de esperança de que o espírito empreendedor do subcontinente poderá, um dia, ajudar as empresas a libertarem-se das amarras da partição.