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Espelho do mundo

Dos valores de cuidado para com o planeta, passando pelos alinhados pela neutralidade de género, até à emergência da tecnologia como fator criativo, são várias as tendências que estão a influenciar o trabalho dos designers de moda portugueses.

Alexandra Moura

Vencedor, no ano passado, do Concurso de Ecodesign Bloom, que lhe garantiu lugar na plataforma dedicada aos talentos emergentes do Portugal Fashion, Vítor Dias juntou nas suas propostas para a próxima estação fria a sustentabilidade, a tecnologia e o conceito de sem género. «A coleção dirige-se a todos, homens e mulheres – é bastante não-binária porque tem muitos modelos unissexo, e dirige-se a quem tem o à-vontade de ser si próprio na rua, às pessoas que gostam de vestir coisas diferentes, que valorizam o conceito por detrás da marca», explica ao Jornal Têxtil.

Ainda recente, mas já bem definida, a marca assume, a cada conjunto de propostas, um conceito que reflete «o que se passa na atualidade, algum assunto, social ou não, que me está a incomodar», afirma. Para a próxima estação fria, o conceito parte da forma como o digital está a moldar as relações interpessoais. “Vacas Digitais”, como batizou a nova coleção, é uma espécie de sátira ao universo das redes sociais, «nomeadamente ao nível dos relacionamentos, em que somos quase como carne fresca num talho à espera de consumo, porque, no fundo, o que funciona ali é o visual – não conhecemos a pessoa, gostamos da pessoa por aquilo que estamos a ver e não por aquilo que ela é», aponta.

A preocupação com a sustentabilidade também se mantém. «Quando estou a escolher matérias-primas não olho só ao facto de gostar, mas também ao facto de ser sustentável – a Troficolor, que é uma das minhas patrocinadoras, tem um leque bastante grande de materiais sustentáveis – e tento ir sempre pela via mais sustentável, não faço lavagens nem tingimento em peça. Depois também não faço grandes produções, faço mais por encomenda», enumera Vítor Dias.

Vítor Dias

Sustentabilidade e tecnologia

Sustentabilidade também não é novidade para Alexandra Moura, que na nova coleção, batizada “Lar Doce Lar”, usa desde matérias-primas recicladas, como lã, até ao reaproveitamento de stocks. «A nível de materiais já há uma preocupação inevitável com o reaproveitamento de materiais, que sejam reciclados, em trabalhar o espólio de materiais da própria marca, deadstock que possa existir», assume.

Nesta coleção em particular, a criadora de moda concebeu calças a partir de excesso de sacos em pano cru e lançou uma coleção cápsula de artigos para a casa a partir dos restos dos sacos. «Fizemos uns individuais de mesa, com pousa-copos e a argola para o guardanapo, a partir da reciclagem das alças dos sacos de pano cru», revela.

A nova coleção de Alexandra Moura está repleta de peças confortáveis, que combinam o lado urbano e silhuetas alusivas ao streetwear com um toque mais clássico e refletem uma certa introspeção do que é a casa para cada um. «Foi um bocadinho esta introspeção do tempo que vivemos dentro de casa e que lar é aquilo que nós quisermos. Podemos trazer o lar connosco no coração, na cabeça, o nosso local de trabalho ser o nosso lar… “Lar Doce Lar” é isto mesmo, é trazer aquilo que nos conforta para a rua», esclarece a designer. As referências à casa são evidentes, desde «os capitonês dos sofás, os motivos florais das camilhas ou das cortinas, detalhes tipo cortina em vestidos, o tecido que parece pele de vaca, mas é uma lã reciclada que nos remete para os tapetes, as próprias malhas que nos levam às mantas», aponta.

Manuel Alves

Já a dupla Alves/Gonçalves tem usado a tecnologia como um aliado na criação. «Estamos numa época de tecnologias e, portanto, aproveitamos isso para compor, para dar novos visuais a determinado tipo de peças que, por vezes, até são clássicas, mas que com estas tecnologias ganham logo uma vertente mais científica sob o ponto de vista de modernidade, de uma visão de futuro», avança Manuel Alves. Uma ideia vertida sobre a nova coleção, com a utilização de revestimentos e construções em espiral sobre um vestido mais clássico, por exemplo. «É algo muito próprio. Apesar de haver muita gente já a querer fazer coisas muito parecidas, nós continuamos sempre um bocado à frente», sublinha.