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espera da retoma

A crise financeira vinda do outro lado do Atlântico contaminou a Europa em Setembro. O impacto da turbulência financeira fez-se sentir no crescimento francês porque, segundo afirma o Institut Français de la Mode (IFM), não existe uma dicotomia entre a esfera da economia financeira e a da economia real. Por isso a actividade abrandou ligeiramente em diversos sectores da economia. Gildas Minvielle, responsável do Observatório Económico do IFM, faz a análise dos principais mecanismos de transmissão. A fragilização do sistema bancário conduziu à diminuição dos créditos concedidos às famílias, tal como às empresas. As empresas viram-se, por isso, privadas de um precioso complemento de tesouraria para investir ou simplesmente pagar aos seus fornecedores. Muitas já não dispõem de recursos suficientes para desenvolver a sua actividade. Do lado das famílias, o crédito é um apoio indispensável ao consumo. De acordo com o Observatório dos créditos às famílias, ao longo de 2007 um terço das famílias francesas recorreu ao crédito ao consumo e 31% entre elas subscreveram um crédito imobiliário. As restrições ao crédito às famílias, num contexto de abrandamento do poder de compra, vai incitá-las a diminuir o seu consumo. Ora o consumo é o principal motor do crescimento francês e essa quebra pode comprometer bastante as perspectivas de retoma da economia. Por outro lado, refere Minvielle, o que torna a crise profunda é que as turbulências financeiras intervêm num ambiente económico já degradado. Com efeito, o aumento dos preços da energia e dos produtos alimentares pesou no poder de compra das famílias e na rentabilidade das empresas desde o início de 2008. O Instituto Nacional de Estatística e estudos económicos francês (INSEE) prevê, assim, que as despesas de consumo se mantenham estáveis no terceiro e quarto trimestres de 2008 (em relação aos trimestres anteriores). No total, para o conjunto do ano de 2008, os gastos das famílias não devem aumentar mais que 0,8%, ao passo que em 2007conheceram um crescimento de 2,5%. A situação vivida pelo sector automóvel é sintomática dos efeitos da crise financeira na economia real: face ao abrandamento da procura, os produtores ajustam a sua produção em baixa. A Renault anunciou o encerramento de diversas unidades durante duas semanas para escoar os stocks, ao passo que a Peugeot Citroën prevê uma redução massiva da produção. No sector alimentar, de acordo com o Banco de França, as despesas das famílias conheceram um aumento de 2,9% em valor ao longo do período Janeiro-Setembro de 2008, num contexto de forte aumento dos preços de cerca de 6%. Como refere Gildas Vinvielle, os consumidores tiveram de refrear as suas compras em quantidade, o que, no entanto, não diminuiu o seu orçamento, devido ao aumento dos preços. Tratando-se de artigos de moda, os consumidores tiveram a tendência, num ambiente económico degradado, de restringir os seus gastos em quantidade, num contexto de ligeiro recuo dos preços, o que pesou mais no volume de negócios dos distribuidores. Ao longo do período Janeiro-Setembro 2008, o consumo de artigos têxteis e de vestuário registou uma diminuição de 2,3% em valor em relação ao mesmo período de 2007. Um recuo destes, assume Minvielle, já não era observado desde 1994. Tal como nesse ano, os consumidores diminuíram as suas compras em quantidade, enquanto que habitualmente tinham a tendência para aproveitar a baixa de preços para comprarem mais. A diminuição do consumo de têxtil e vestuário resulta, contudo, de condicionalismos orçamentais que as famílias impõem a si mesmas em tempo de crise e não deve ser interpretada, aponta Gildas Minvielle, como uma rejeição da moda. Já os resultados do mês de Setembro revelam um ligeiro aumento de 1% do consumo em valor, mesmo com o mês a ter menos um sábado do que em 2007. Por outro lado, a tendência média reflecte mal a diversidade das situações: as lojas populares e as department stores registaram, ao longo dos primeiros nove meses do ano, um aumento de 3,4% e uma ligeira quebra de 0,7%, respectivamente, ao passo que as vendas de pronto-a-vestir de homem ficaram ao nível das de 2007.