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«Esta estamparia estava parada no tempo»

A estreia na Première Vision Paris, que abre portas amanhã, assinala o início de uma nova era na Etexba, com foco na internacionalização e no trabalho direto com as marcas, apoiado em novos investimentos, na marca “Colorful People” e num website de comércio eletrónico em contagem decrescente de lançamento, pensado para servir as necessidades dos criativos aquém e além-fronteiras.

A irmã mais nova da Têxtil Luís Simões está apostada em conquistar um futuro próspero. Depois de ter mantido, desde a sua fundação, em 1989, uma atividade algo passiva intrinsecamente ligada à “irmã mais velha”, especialista em tinturaria e acabamentos, a Etexba, acrónimo de Estamparia Têxtil de Barcelos, está ativamente em busca de mais clientes e novos mercados. A presença na Première Vision (ver Portugal brilha na Première Vision) faz parte da mudança de paradigma que, como explica a atual equipa de gestão – liderada pelo administrador Luís Marques e pelo diretor comercial e industrial Manuel Lopes –, pretende retirar a empresa do anonimato, trazê-la para o século XXI, com a modernização do parque de máquinas, e projetá-la como um nome de referência.

Vão participar pela primeira vez na Première Vision. Que razões estão subjacentes a esta nova aposta em feiras?

Manuel Lopes – A ideia foi ditada pela necessidade de crescer. Efetuámos uma primeira experiência na SVP em Londres, no passado mês de janeiro, que foi bastante positiva, e em fevereiro decidimos candidatar-nos ao salão de tecidos parisiense.

O que permitiu à Etexba, com tão pouca experiência em internacionalização, entrar à primeira no certame francês?

Manuel Lopes – Estabelecemos uma estratégia que penso ter resultado muito bem. Associámo-nos a um parceiro que tem muita experiência em feiras e deu-nos indicações assertivas, incluindo em termos de coleção. Eu tinha perfeita noção que possuíamos uma equipa pequena mas que já desenvolvíamos bons estampados tanto sob o ponto de vista técnico como estético.

Luís Marques

Luís Marques – Acreditamos que temos um produto de valor para a Première Vision, algo que o próprio comité reforçou na visita que fez à empresa.

Quais são os pontos fortes desta coleção outono-inverno 2019/2020, que vai ser apresentada em Paris?

Luís Marques – A nossa coleção baseia-se muito em tela camiseira, para homem e senhora, e daí criámos uma coleção com uma série de padrões dentro daquilo que são as tendências da moda. A linha dos tecidos tem mais de 30 desenhos, mas no total são à volta de 80 padrões, em várias composições.

Na nossa coleção de estampados, mais nos tecidos e nalgumas malhas, também vamos levar uma coleção de bases, que depois o cliente pode escolher em função do seu negócio.

Quanto representam os tecidos nesta coleção?

Luís Marques – A coleção é composta por 50% tecidos e 50% malhas. Em termos de matérias-primas, temos uma série de misturas com algodão, linho, viscose, liocel… também começamos a estampar tecidos 100% seda natural, para lenços.

Manuel Lopes

Manuel Lopes – Procurámos apostar em produtos de valor acrescentado e apresentá-los de forma diferenciada, sob a marca recém-criada, mas registada, “Colorful People”, uma ideia de um dos nossos criativos.

Em que consiste essa marca “Colorful people”?

Luís Marques – “Colorful People” privilegia a cor e está inerente a criatividade.

Manuel Lopes – Julgo que devemos ser os primeiros a criar uma marca desta natureza. Na altura da feira, vai entrar nos websites das empresas [Etexba e Luís Simões], que foram completamente modificados, e no site de e-commerce que criámos, que está em fase experimental.

Que estratégia foi definida para o comércio eletrónico?

Manuel Lopes – Vai ser mundial. A nossa marca está registada em Portugal, mas estamos a tratar do registo internacional. O mercado-alvo do site é os designers e a nossa ideia é facilitar-lhes a vida.

Luís Marques – Eles podem escolher o desenho, comprá-lo e mandar estampar.

Quantas pessoas compõem o departamento criativo?

Luís Marques – Atualmente temos três designers, num total de 65 trabalhadores.

Que expectativas têm para a Première Vision?

Luís Marques – Quantas mais empresas portuguesas participarem na feira, mais fortes somos e mais clientes temos para o mercado nacional. Se tivermos uma ou duas empresas, os clientes não vêm cá. Se tivermos muitas, as marcas vêm. Mas aquilo que vejo quando vou à Première Vision é que quem domina, em termos de criatividade, ainda é Itália.

É nessa equipa que querem jogar?

Luís Marques – Não queremos ser só mais uma empesa, queremos ter diferenciação.

Manuel Lopes – Não esperamos que isso aconteça a correr, mas vamos lá para isso.

Há outras feiras em agenda?

Luís Marques – Temos a Première Vision agora, por isso a porta está aberta. Sabemos que é uma montra para todo o mundo.

Manuel Lopes – Mas vamos a uma de cada vez. É preciso ir à Première Vision, ver o que acontece, analisar os erros que cometemos, porque também cometemos erros, melhorar, ver quais são os nossos pontos fortes e fracos e implementar depois uma estratégia de acordo com aquilo que sair desta feira. Neste momento, a nossa estratégia é ir às marcas, “aliciar” os designers, dizer-lhes que connosco têm uma ferramenta que podem usar e que está ao dispor deles.

Quais serão as prioridades da empresa neste novo paradigma?

Manuel Lopes – Temos que aumentar a nossa equipa comercial, principalmente para o mercado internacional. Mas queremos pessoas que tenham alguma experiência, porque demora muito tempo a serem preparadas. E tem-nos sido um bocado complicado encontrar, porque temos a filosofia de não ir buscar pessoas às outras empresas.

Luís Marques – A nível de equipamentos de estamparia convencional, esperamos, no médio prazo, substituir máquinas, porque é tecnologia que já tem mais de 20 anos.

Manuel Lopes – O próximo passo é também aumentar a nossa parte criativa. Gostávamos de poder servir ainda melhor as marcas, complementar mais o que fazemos.

Que capacidade média dispõem para estampar?

Manuel Lopes – Conseguimos estampar com as duas máquinas de convencional cerca de 20 mil metros diários e com as duas de digital cerca de 6 mil metros por dia.

Têm realizados investimentos recentes na estamparia digital?

Luís Marques – Quando chegámos, há três anos, havia uma máquina de digital, numa parceria com outra empresa. Fomos percebendo o crescimento que o digital estava a registar e negociámos a máquina com esse parceiro, que é também cliente. Adquirimos essa máquina e uma nova, igualmente da Reggiani, no ano passado e, em seguida, comprámos um vaporizador novo, que está ainda a ser montado. Precisamos de tecnologia recente em toda a linha de produção para manter a qualidade. Embora não diretamente, trabalhamos para marcas como a Moschino, que tem um rigor tremendo.

E qual foi a ordem de grandeza do investimento total realizado?

Luís Marques – Neste caso estamos a falar de quase um milhão de euros, entre o ano passado e este ano, só na Etexba.

Manuel Lopes – Esta empresa, desde que foi criada, em 1989, nunca mais teve investimentos em tecnologia. As nossas mesas de estampar são dessa altura, o vaporizador também… E o digital exige equipamentos topo de gama para que se possam fazer trabalhos com mais-valias, nomeadamente para que se possa trabalhar sedas.

Qual foi o volume de negócios da Etexba no último exercício financeiros?

Manuel Lopes – A empresa registou mais de 4 milhões de euros de volume de negócios em 2017.

E da Luís Simões?

Luís Marques – Ultrapassou os 10 milhões de euros, tendo crescido à volta de 8% comparativamente ao exercício anterior.

Nestes primeiros nove meses do ano, como têm evoluído ambas as empresas?

Manuel Lopes – Na Luís Simões, o primeiro trimestre foi razoável, o segundo trimestre foi de muito trabalho, mas com preços muito esmagados. Trabalhamos para clientes que trabalham para a Inditex, que está a esmagar muito os preços. Além disso, o mercado internacional de produtos químicos está completamente caótico. Os corantes e outros químicos estão a subir em flecha, porque a China, segundo nos dizem os nossos fornecedores, está a fechar muitas fábricas por questões ambientais.

Na Etexba estamos a crescer. A empresa não cresceu muito, foi à volta de 5%, mas é num mercado que, neste momento, é muito maduro. Esperemos agora que os efeitos desta nova estratégia de internacionalização se façam refletir. Mas temos a noção de que há muito caminho a percorrer em termos de investimento, de equipa comercial…

A Têxtil Luís Simões conheceu dificuldades no passado recente. Qual é a situação atual da empresa?

Luís Marques – É um rótulo que carregamos, mas não é da nossa gestão. É um processo que vem de 2012 e que só terminará em 2021.

Manuel Lopes – A situação neste momento, em termos do PER [Processo Especial de Recuperação], é estável. Poderíamos ter uma situação confortável e sem grandes preocupações se resolvêssemos não investir nada, que era o que estava a acontecer. Mas esta empresa já não tinha investimentos desde há muito tempo e nós optámos e sentimos a necessidade – os nossos clientes exigiam – de fazer investimentos.

Luís Marques – Senão teríamos morrido, passo a expressão.

Manuel Lopes – Fizemos esses investimentos – no último ano investimos na tinturaria um milhão de euros e na estamparia também muito perto disso – sem qualquer apoio da banca ou do Estado.

Luís Marques – Alguns investimentos que fizemos, negociámos diretamente com o produtor. No caso da Reggiani, que nos deu crédito, a máquina está paga, temos uma sexta râmula que é da Luís Simões, mas está na Etexba por uma questão de espaço, e foi negociada diretamente com a Unitech. Tudo está a ser cumprido.

Neste momento, a Etexba trabalha somente para o mercado nacional?

Manuel Lopes – Não. Temos alguns clientes estrangeiros, mas não são marcas. E nós queremos trabalhar para as marcas.

Luís Marques – A maior parte são espanhóis.

Manuel Lopes – Estamos também a entrar no mercado inglês com um parceiro que vem da SVP. Mas estamos com muitas expectativas relativamente à Première Vision, porque temos um bom produto.

Qual é a quota de exportação direta?

Manuel Lopes – Neste momento ainda é muito pequena, cerca de 15%.

Quem são hoje os principais clientes da Etexba?

Luís Marques – A nível do digital é a Valérius. Depois há outros clientes de perto – a Irmãos Rodrigues, a Pedrosa & Rodrigues, etc. –, para quem também vamos fazendo desenvolvimentos e algumas produções.

Quais têm sido os maiores desafios?

Luís Marques – Quando começámos, esta estamparia estava parada no tempo. Eram só alguns clientes que trabalhavam com a Luís Simões que, se tinham algum estampado, vinham aqui, outros que conheciam a Etexba apareciam aqui e pouco mais. Nós trabalhamos bem, temos bom know-how e, portanto, queremos estar no mercado e ser conhecidos como uma empresa que trabalha bem.

Três anos depois de terem assumido a gestão, que mais-valias reconhecem hoje à empresa?

Luís Marques – As pessoas que cá trabalhavam e trabalham. Temos bons técnicos e isso fez com que víssemos o potencial que a Etexba tem, porque senão mais valia fechar a porta.

Como projetam a Etexba no curto/médio prazo?

Luís Marques – Gostava de ver a Etexba como uma empresa de referência na área da estamparia. Sermos vistos não como mais uma estamparia no mercado, mas como uma empresa que trabalha bons produtos e que os clientes podem trabalhar com confiança.

Manuel Lopes – Dentro de cinco anos gostava de ver a Etexba sair do anonimato e ser reconhecida pelas marcas. Quando falarmos com uma Hugo Boss, por exemplo, a marca saber o que é a “Colorful People”, o que fazemos, o que lhe podemos oferecer e com isto alavancar a nossa faturação.

Luís Marques – Ter um crescimento sustentável, por exemplo de 10% ao ano, chegar aos 5 milhões de euros de faturação. E gostava que as vendas diretas ao estrangeiro representassem 50%.