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«Estamos a entrar com uma dinâmica muito forte na indústria 4.0»

Mário Domingues, presidente da Somelos Tecidos, garante que a inovação é uma das forças motrizes da empresa, assim como a proximidade ao mercado e a formação dos trabalhadores, e acredita que 2018 traz, mais do que desafios, novas oportunidades.

Mais globetrotter que nunca e não menos trendsetter, a Somelos Tecidos começou por celebrar os recém-cumpridos 60 anos além-fronteiras, na Munich Fabric Start, onde apresentou oficialmente a sua coleção para a primavera/verão 2019, uma das mais procuradas pelos compradores que visitaram o certame alemão. O périplo continuou por Milão (Milano Unica) e Paris (Première Vision Paris) em fevereiro e culminou em março na capital nipónica (Jitac).

Mas na Somelos Tecidos, criação não rima somente com internacionalização, também versa sobre inovação. Apesar de uma história que começou a escrever em 1958, a produtora de tecidos está empenhada em manter-se na vanguarda do negócio e surfa já a onda da indústria 4.0, quer na digitalização dos processos, quer nas máquinas inteligentes.

Com um efetivo de 560 trabalhadores e um portefólio de 1.700 clientes em 60 países nos 5 continentes, a Somelos Tecidos revela uma flexibilidade do processo e uma rapidez da resposta raras numa empresa da sua dimensão.

Como se mantém uma empresa de 60 anos na crista da onda?

A Somelos Tecidos tem um dinamismo muito especial porque as pessoas que cá trabalham têm uma capacidade de renovação, com o objetivo de estar sempre na vanguarda, ir sempre à frente. Não paramos no tempo e essa é a razão pela qual hoje somos considerados dos melhores têxteis no mundo. Muitas vezes somos copiados, precisamente pelo nosso know-how e pela formação que temos. Conseguimos que os trabalhadores tenham uma formação extremamente capaz, quer em termos de saber trabalhar com as máquinas, quer em termos de tecidos, de fios, saber o que estão a utilizar – ganhar produtividade. Os nossos trabalhadores sabem para quem estão a produzir e os nossos clientes sabem quem é que produziu e se o tecido tem algum problema, que problema é que tem e quem o causou. Ou seja, conseguimos ter esta ligação entre a produção e o mercado que não é fácil encontrar noutras empresas com uma certa dimensão. O operário que está na máquina sabe para quem é que está a produzir e, muitas vezes, vê as peças confecionadas daquelas marcas nas lojas e sabe que foi ele que produziu aquele tecido. Parece que não, mas isso permite às pessoas trabalhar com outra dedicação. Nós conseguimos, ao longo do tempo, criar essa identidade e essa ligação. Trabalhamos com nomes em cima da mesa, não é uma coisa indiferenciada. Para além da parte técnica, tem esta ligação emocional também ao produto, à marca e à empresa.

Neste momento estamos a entrar com uma dinâmica muito forte na indústria 4.0. Estamos a fazer um esforço para dar este passo mais rápido que os nossos concorrentes mais importantes, porque entendemos que isso é fundamental para ganharmos competitividade.

Refere-se à digitalização dos processos?

Digitalização dos processos, das máquinas. Temos uma pequena empresa no grupo que se dedica às tecnologias de informação e que tem uma vantagem enorme: são pessoas que, além da componente técnica que têm ligada à informática, têm formação e vivência têxtil. Quer dizer que são parceiros indicados para alguém como nós na área têxtil – a maior parte da análise nem precisamos de a fazer, são eles que fazem por nós ou, quando a fazemos nós, eles complementam de uma forma positiva aquilo que pusemos em cima da mesa. Estamos a fazer um forcing enorme nessa área.

Quando começou essa área e que objetivos tem?

Nós somos pioneiros em algumas destas iniciativas. Por exemplo, criámos o controlo de produção da tecelagem, estamos a vendê-lo inclusivamente para outras empresas. Portanto, temos um sistema de controlo de produção muito avançado. Temos também um esquema sofisticadíssimo de tratamento automático das encomendas e do planeamento. Estamos numa fase em que queremos ir mais longe e integrar a estrutura. Temos a ambição última de que uma encomenda que nos chega do mercado por via eletrónica seja convertida imediatamente em instruções de produção, definindo um prazo de entrega. O grande trabalho é ligar as coisas. Outro é converter as máquinas um pouco mais antigas com sensores para lhes poder captar os sinais, ou seja, para tornar as máquinas inteligentes. É evidente que os equipamentos novos já têm acoplados um conjunto de componentes em que isso é inerente à própria estrutura da máquina, mas nas máquinas antigas não é assim. É um esforço que fazemos para tornar a informação disponível na máquina em informação tratável para podermos criar instruções automáticas, partilhar o trabalho de uma máquina com outras máquinas – no fundo é a filosofia da indústria 4.0. É neste caminho que estamos agora, sem nunca perder o ritmo da inovação porque sem inovar ficaremos pelo caminho.

A Somelos Tecidos adotou o conceito fast fashion na sua resposta ao mercado. Porquê?

Um dos grandes objetivos deste tipo de indústria em que estamos inseridos, uma indústria têxtil de moda com respostas rápidas, é também converter aquilo que é produção customizada como se fosse uma produção em série. Quem chegou aqui, chegou ao limite da eficiência. Nós conseguimos ter o melhor resultado com o custo mais ajustado. E este é o caminho e fazemos um esforço enorme para lá chegar. Estamos numa fase muito embrionária, mas temos alguns destes pressupostos que são uma filosofia que adotamos na nossa atividade e no relacionamento com os clientes. Portanto, quando algum cliente vem e tem urgência numa proposta nossa que tem que ser executada num prazo recorde de meia dúzia de dias, nós fazemo-la. É evidente que o segredo é fazer disto a regra. Por exceção fazemos isto sem problema nenhum. Fazer disto a regra é muito mais complicado.

Que balanço faz de 2017?

Tivemos um ano muito bom, crescemos cerca de 8%. Estamos em crescimento com algum significado não só em termos de negócio – devemos registar um volume de negócios próximo dos 35 milhões de euros –, mas também de rentabilidade. E estamos, sobretudo, com um leque mais alargado de clientes e em geografias mais distantes. Por exemplo, crescemos muito no mercado dos EUA.

Quais são hoje os principais mercados da Somelos Tecidos?

O primeiro é os EUA e o segundo é Itália, depois a Escandinávia, França e Reino Unido.

O nosso negócio não é um negócio de produto final, só por exceção é que fazemos produto final, as camisas. Nós vendemos o tecido. Quando vendemos o tecido, por vezes estamos a fazer negócio cuja origem é, por exemplo, na Suécia e as camisas acabam por ser feitas em Portugal ou então negócios em que a marca é italiana, o tecido é feito em Portugal e a confeção é feita na Roménia ou na Turquia e depois as camisas são vendidas em todo o mundo. O nosso negócio tem esta componente em que é difícil seguir todas estas geografias, portanto, a grande aposta que fazemos é estar ligados a quem decide o negócio, ou seja, não vamos ligar-nos a quem faz a camisa, a não ser se quem faz a camisa tenha influência dominante no negócio que vai ser feito para a marca. Portanto, ligamo-nos sobretudo às marcas, aos decisores. Não excluímos a ligação que temos aos outros intervenientes, mas só na medida em que têm capacidade de influenciar a decisão.

A origem do negócio é as geografias habituais onde está a funcionar o mercado da moda – trabalhamos um pouco o mercado de luxo, onde funciona o mercado do segmento médio-alto, que acaba por ser a Europa, EUA, China, Japão.

Temos ainda uma componente que nos permite ir de uma forma diferente a marcas mais locais e a empresas mais pequenas que, numa primeira fase, se diferenciam localmente. Temos a capacidade de responder porque somos muito flexíveis e, muitas vezes, essas marcas crescem connosco.

O nosso trabalho é continuamente fazer propostas que tenham valor para os clientes.

Nos EUA há uma grande apetência pela compra do produto final, a peça de vestuário. Deste modo, há planos para investir na confeção aquém ou além-fronteiras?

Não precisamos, desde que se consiga ter parceiros. Existem confeções em Portugal que dão um tipo de serviço ao nível daquilo que, por exemplo, os nossos clientes americanos procuram. Ou seja, temos criado em Portugal um sistema muito atrativo de que alguém chega cá e, passado uma semana ou duas, leva a sua coleção completa, total look, incluindo as camisas, os sapatos, as calças, etc., porque temos uma oferta que responde praticamente a tudo. No entanto, estes clientes de que falamos também têm parceiros na área de confeção que os servem de acordo com as suas necessidades sem problema nenhum. De forma alguma os queremos substituir.

Trabalhamos com algumas marcas que vão buscar a componente mais competitiva na área da confeção e vão ter que fazê-la no Extremo Oriente, Bangladesh, Turquia, Norte de África, seja onde for – nunca teremos a oportunidade de fazer esse negócio, nem queremos. Encaro muito mais depressa a possibilidade de criar uma empresa, por exemplo, nos EUA, de tecidos, porque não há, do que uma empresa no Bangladesh para servir os EUA, até porque nos EUA há cada vez mais uma procura pelo [produto] americano.

Não é isso que estamos a pensar, mas é uma hipótese que eu, pessoalmente, encaro como mais interessante. Se fosse fazer alguma coisa de deslocação em termos industriais seria provavelmente no mercado dos EUA, que é um mercado em crescimento, na área industrial, exatamente com tecido e não em confeção.

Que perspetivas tem para o corrente ano?

A nossa perspetiva é de crescimento, nos 5% a 6%, mas queremos crescer de forma sustentável, ou seja, queremos criar bases sólidas para que os passos que damos no sentido de crescer não signifiquem ter que recuar de uma forma significativa. É um conjunto de fatores que temos que pôr ao mesmo tempo em cima da mesa e que passam por algumas coisas que dominamos: a nossa capacidade de criar, de inovar, a nossa obsessão pela qualidade, pelo prazo, ou seja, um conjunto de serviços que temos associados à nossa oferta. É tudo um pacote da nossa oferta e depois fazer chegar tudo isto de forma inteligente ao mercado.

É sobretudo nesta última componente que estamos a fazer um esforço adicional. Sabemos que temos que ir a mais gente, a mais mercados e tratar o mercado de uma forma mais generosa, mais próxima, mais disponível – é isso que estamos convencidos que vai dar uma solidez maior ao nosso crescimento.

Como encara o atual boom da indústria portuguesa?

Acho que a indústria têxtil tem criadas as condições para ir um pouco mais à frente e afirmar-se de forma diferente e mais competitiva, quer dizer, mais moderna, mais eficiente, mais virada para o futuro, mais indústria 4.0. Portanto, com uma capacidade de resposta diferente e com uma capacidade de se afirmar e de mostrar uma imagem diferente. Isso é uma coisa estruturalmente muito diferente e que dá mais resistência, mais capacidade de crescimento, mais negócio.

Se isso é suficiente para resistir a uma enorme crise, não sei. Normalmente, nas crises há sempre alguém que fica pelo caminho. Mas que as empresas e o sector estão melhores e mais bem preparados, não tenho dúvida nenhuma.