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«Estamos a preparar a Lipaco para o biénio 2020/2022»

Jorge Pereira, o CEO da produtora de fios e linhas de costura Lipaco, fez as malas e partiu a explorar os continentes da Europa, África e América. Pelo caminho, ousou investir vários milhões de euros na industrialização, assumindo, dentro de portas, áreas como a texturização e tinturaria de fio.

No espaço de cinco anos, a Lipaco passou de uma empresa maioritariamente focada no mercado interno para uma empresa cujos horizontes ultrapassam todas as fronteiras.

Os investimentos, tal como a ambição, não param, como revelou o CEO Jorge Pereira ao Jornal Têxtil, e há uma nova injeção de capital para o aumento da capacidade, automatização de processos, criação de novas valências e promoção de projetos próprios de I&D, já a pensar na Lipaco de 2022.

Que novos investimentos tem em agenda?

Estamos com uma nova fase de 1,5 milhões de euros, sem contar com a internacionalização e I&D, onde ainda temos mais dois projetos. Isto significa investir em equipamentos, em laboratórios e em novas competências dentro da empresa.

Essa fase já começou?

Já começou e será para terminar nos próximos meses, embora haja alguns aspetos que ainda estão um pouco atrasados por questões técnicas, que estão agora a ficar ultrapassadas. Vamos aumentar a capacidade da tinturaria, que vai duplicar, e ainda vamos ter outras mais-valias, nomeadamente máquinas novas, que já comprámos e estamos à espera que cheguem, e um forte investimento na área de laboratórios para promover a investigação e desenvolvimento de forma mais intensa dentro da empresa. Vamos construir laboratórios novos, que já estão a ser preparados, e há novos equipamentos que chegaram e já estão a ser usados. Tudo no âmbito da qualidade, I&D, química e mecânica. Contamos ter um bom espaço para isso, bons técnicos e bons colaboradores, que estamos a contratar e a formar. É uma realidade nova. Estamos a preparar a Lipaco para o biénio 2020/2022. Toda a fábrica vai sofrer uma restruturação muito grande, quer por dentro, quer por fora. É um projeto que está a ser feito por fases porque a fábrica não pode parar e, dessa maneira, estamos a atuar numa área de cada vez. Não é uma fábrica construída de raiz, mas no final ficará como se fosse, até porque a área vai duplicar.

Foi um projeto estruturado desde o início para chegar a esse ponto?

Sim, desta vez estamos a fazer um projeto total para a empresa, para o que ela vai ser daqui a cinco anos. Mesmo que não esteja completamente restruturada dentro de cinco anos, saberemos como vai ficar. Fizemos um estudo geral à nossa atividade e o que queremos até 2022, contratámos uma empresa especialista para nos ajudar e estamos a fazer um bom trabalho.

Nesse horizonte a cinco anos, quais serão as valências industriais da Lipaco?

Dependeremos cada vez menos de terceiros, de fornecedores. E teremos valências novas em áreas que até agora não tínhamos nem estavam pensadas. Ou seja, temos produtos, mas o que estamos a incorporar são mais-valias. Por exemplo, nos fios de alta tenacidade para o sector do calçado, entre outros, vamos passar a utilizar um processo de produção em que o fio ganha 50% mais de qualidade no geral, assim como elasticidade. E há muitos sectores novos em que vamos entrar, mas para já não posso adiantar mais.

No caso da tinturaria, já foram feitos investimentos avultados nos últimos anos.

Sim, no caso da tinturaria já comprámos uma série de equipamentos novos que estão para chegar e serem montados, máquinas de grandes e também de pequenas capacidades. Para os laboratórios, também para a área de tinturaria, comprámos igualmente novos equipamentos. E vai haver produtos completamente do zero, que já estão pensados – só estou à espera dos equipamentos.

Que produtos compõem atualmente o portefólio da empresa?

Temos duas áreas de negócio: a área das linhas de costura e a área dos fios. A área das linhas é uma área tradicional, em que vamos entrando lentamente nos mercados externos. Na área dos fios estamos a acelerar, estamos a entrar muito mais rápido porque se aplica a sectores muito diferentes, desde as meias às malhas seamless. Depois, estamos a trabalhar cada vez mais os fios para áreas mais técnicas, de recobrimento, e nota-se um crescimento significativo.

Que balanço faz de 2017?

Foi um bom ano, de muito trabalho. Crescemos 8%, para um volume de negócios de 2,6 milhões de euros. Não foi mau para aquilo que estávamos à espera porque tínhamos áreas de produção que, durante alguns períodos, não estiveram disponíveis por causa das obras e houve necessidade de abrandar certas secções.

O que permitiu tal crescimento?

Clientes novos e novos mercados que vamos conquistando, como a Turquia, o Brasil e a Rússia, que começou a ter um peso que antes não tinha.

Quais são, atualmente, os principais mercados de exportação?

Estão um pouco por toda a Europa. Trabalhamos com 17 mercados – agora, como entrou a Turquia, já posso dizer que são 18. E temos cerca de 350 clientes ativos.

Qual é o peso de Portugal na faturação?

Cerca de 60%, mas começa a ter cada vez menos peso. Queremos continuar a crescer em Portugal, mas vai haver uma fase em que o nosso objetivo é ter 50% aquém e além-fronteiras.

Porquê privilegiar essa divisão igualitária?

Pela diversidade do mercado externo comparado com o interno. O mercado interno é muito importante para nós, mas fora de Portugal temos uma diversidade maior, quer de clientes, quer de países, pelo que não ficamos tão dependentes de possíveis alterações de conjuntura, por exemplo.

Quantas pessoas trabalham na Lipaco?

Neste momento temos 50 trabalhadores, mais do dobro do que tínhamos.  Há muitos colaboradores que estão a ser preparados para o futuro, que já estão à espera de serem treinados para as máquinas novas que estão a chegar.

E quantas pessoas prevê ter a trabalhar na empresa dentro de cinco anos, no final da atual fase de investimentos?

Cerca de 60 pessoas. O crescimento passa mais por novas valências e menos pelo efetivo. Estamos a recorrer muito à automatização de processos, que também vai permitir duplicar em termos de produção.

Esse aumento de produção ocorrerá em que áreas?

Na tinturaria, na área dos fios texturizados e na parte das linhas. Mas vai sobretudo aumentar a produção em áreas e produtos novos, com novas apostas.

Porquê essa necessidade de fazer tudo dentro de portas?

É para não depender dos outros. No passado tínhamos muitos problemas para competir, e, sobretudo, para cumprir prazos ou fazer acabamentos especiais. O que nos interessa hoje é ter produtos com mais-valias e cada vez menos commodities, e não controlar a produção trazia-nos muitos dissabores no cumprimento. Para se estar no mercado externo, tem de se cumprir prazos, ter padrões e um controlo de qualidade muito grandes. E subcontratando nem sempre é fácil termos um parceiro que esteja disposto a trabalhar desta forma, porque é muito mais fácil fazer quantidades e não estar preocupado com detalhes.

Face à situação do mercado, aos investimentos realizados e ao aumento de competências internas, que expectativas tem para 2018?

O que pretendemos é voltar aos nossos níveis de crescimento, sempre na ordem das duas casas decimais. E estamos a contar com a disponibilidade de algumas capacidades de produção, que nesta fase estão um pouco limitadas, para começarmos outra vez a atingir esse ritmo, assim como das novas valências que vamos ter e que nos vão permitir dar outra vez um salto.

A Lipaco tem sido uma das empresas que mais aposta em certames internacionais e no ano passado estreou-se na Première Vision Yarns, que era um marco que a empresa almejava. Os objetivos foram confirmados com a segunda participação no início do ano?

Sim. O primeiro dia foi razoável – atendendo que era dia de Carnaval e alguns visitantes de alguns países não vieram. O segundo dia foi espetacular, muito acima das expectativas, com novos contactos com grande potencial. Tivemos muitos clientes do mercado francês, um pouco de mercado italiano, o Egito apareceu bastante, não sei bem porquê, e também o mercado marroquino, que está cada vez mais ligado à Europa. Mas o que nos deixou mais satisfeitos foi o mercado francês, porque era um objetivo que tínhamos e aos poucos temos vindo a crescer neste mercado – e com esta segunda participação em fevereiro parece que vamos dar um salto um pouco maior face à qualidade de compradores que recebemos no stand.

A empresa iniciou o processo de internacionalização há cerca de cinco anos. O que trouxe esta mudança de foco, do mercado interno para o externo?

O que posso dizer é que tudo mudou porque crescemos de uma forma completamente diferente, a estrutura é diferente, as pessoas são diferentes – a mentalidade das pessoas começou a mudar mesmo internamente, a forma de trabalhar, a língua inglesa passou a ser dominante, o francês passou a ser dominante e as formas de olhar para as coisas passou a ser diferente. Obviamente, neste momento ainda sofremos dores de crescimento, o que é natural. Foi tudo muito rápido e estamos ainda a ajustar a equipa, a ajustar equipamentos, sempre a investir e isso tudo leva tempo a estabilizar. Mas é um mundo completamente diferente. A nossa empresa não é mais aquilo que era há cinco anos, mas nos negócios é assim, o que é hoje, amanhã já é diferente e depois de amanhã será outra coisa – está sempre em mudança. Se pararmos, morremos. Ou estamos em mutação constante e adaptamo-nos à nova realidade, porque a realidade dos negócios está sempre a mudar – há sempre novidades, há sempre tendências novas – ou morremos. E isso foi o que nós descobrimos há cinco anos atrás, no pico da crise: ou fazíamos alguma coisa ou não saíamos da cepa torta e desaparecíamos, como muitas empresas desapareceram. Tivemos a coragem de fazer alguma coisa diferente.