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«Estamos ávidos de estar nas feiras»

Os últimos meses não foram fáceis e o resto do ano também deixa antever algumas dificuldades. A Vilartex, contudo, revela a administradora Carmen Pinto, está a retomar a atividade e a prosseguir a estratégia de internacionalização que tem vindo a implementar nos últimos tempos.

Carmen Pinto

Nesta retoma da atividade, dos 130 trabalhadores, 50% já tinham deixado o lay-off em julho e estavam a responder aos primeiros pedidos que surgiram de mercados como a Alemanha. Em setembro, o objetivo era potenciar a retoma com a presença em feiras, nomeadamente a Fabric Days, onde esteve a apresentar as novas propostas e tomar o pulso aos clientes, num contacto pessoal que Carmen Pinto acredita que não pode ser substituído.

Um passo para a Vilartex prosseguir a internacionalização, como revelou a administradora da produtora de malhas nesta entrevista em julho ao Jornal Têxtil, numa altura em que adapta a sua estrutura a uma nova realidade de encomendas, mais pequenas e com novas exigências.

Como tem sido a recetividade à nova coleção?

Esta coleção estava pronta até dois meses antes do habitual. Quando estávamos prontíssimos a enviá-la aos agentes surgiu o Covid-19, ou seja, tivemos que aguardar. Entretanto, dependendo de alguns mercados, porque uns começaram mais cedo do que outros, os nossos agentes começaram-nos a pedir a coleção, nós enviamos e muitos deles estão agora a começar com visitas. Notamos que a Alemanha está com as visitas a funcionar muito bem, outros países estão mais atrasados, por isso a recetividade é ainda um bocadinho aos soluços, digamos, mas estamos otimistas.

Vão agora começar com a apresentação em feiras?

Sim. A nível de feiras, a Vilartex vai fazer as mesmas que habitualmente, nomeadamente em Munique [a Fabric Days que substituiu a Munich Fabric Start] e [estava planeada] a Première Vision. As únicas que falhámos, não por vontade própria, foi a de Nova Iorque e a de Los Angeles, que foram mesmo anuladas. Naquelas que não foram anuladas, a Vilartex estará presente. Aliás acho que estamos ávidos de estar nas feiras.

Que expectativas tem para esses primeiros certames físicos?

As expectativas são mais limitadas, acredito que os visitantes vão ser em menor número, mas acho importante a Vilartex estar presente, com todas as medidas de segurança, não só impostas pela feira mas por nós próprios, no nosso stand. É importante aquele cliente que se vai deslocar à feira saber que a Vilartex está lá para o receber.

Apesar de vivermos um bocadinho nesta era digital, ainda é fundamental o toque, o cara a cara, a presença mesmo lá para estarmos com o cliente, percebermos um bocadinho também o que é que ele está a passar nesta fase. Acho que, para isso, é fundamental estarmos nas feiras.

O digital assumiu um papel mais relevante nesta fase. Faz sentido, para a Vilartex, estar em plataformas digitais como as que, entretanto, surgiram?

Nós não estivemos presente propriamente em nenhuma – estamos no marketplace da Première Vision, mas só isso. Criada por nós também não. Temos agentes e preferimos ainda essa forma de comunicação com o cliente. Temos vindo a falar e o nosso produto a nível digital não funciona muito bem – uma coisa é termos uns estampados, uns desenhos, tudo que é gráfico funciona melhor. O nosso foco nas matérias-primas exige o toque.

Durante os últimos meses, também produziram e certificaram malhas pensadas para a pandemia. O que pode destacar destes artigos?

A nível de estrutura, essas malhas não têm estruturas novas e a nível de fibras também não, com exceção de uma que tem Seacell [que ajuda no cuidado da pele]. Foi mais uma aposta nos acabamentos, nos antimicrobianos, na filtração de partículas, ou seja, tudo que era exigido para uma certificação do CITEVE.

Como tem sido a procura?

As máscaras nunca foram uma prioridade da Vilartex. Achámos que era importante ter produto para quem nos procurasse, para podermos oferecer uma gama desse tipo, mas nunca foi uma prioridade parar o resto e apostar em máscaras.

Mas é uma área para manter?

Sim, há clientes que ainda nos pedem e, por isso, iremos manter.

Que impacto teve a pandemia no negócio?

Economicamente, o impacto não é fácil. Vai ser um ano difícil, com vendas inferiores relativamente ao ano passado. Estamos a contar com uma queda de cerca de 15% a 20%, mas ainda temos meio ano pela frente e acho que vai ser um meio ano muito difícil. Vai ser um desafio para as empresas.

Acho que o Governo, as entidades competentes deveriam ajudar no sentido de chamar as pessoas e dizer que podem sair, seguras e protegidas, mas fazer um apelo ao consumo, para a economia, de facto, começar outra vez a acelerar. Vai ser um ano difícil, mas para aquelas empresas que se conseguirem aguentar, acho que os próximos anos poderão ter um impacto forte e será algo positivo para as empresas.

A Vilartex recorreu ao lay-off. Ainda mantém?

Neste momento estamos com 50% em lay-off e 50% das pessoas a trabalhar. Começámos com uma equipa muito reduzida, cerca de 20%, mas depois, conforme as encomendas foram entrando, fomos adaptando.

Para além do apelo ao consumo, que outras medidas poderia o Estado implementar que fossem úteis a uma empresa como a Vilartex?

Para além do consumo, o Governo poderia ter mais algumas ajudas na parte económica das empresas, por exemplo ao nível de impostos ou da segurança social. Seria um grande apoio.

Em que mercados sente atualmente a retoma?

Sentimos na Alemanha, onde os nossos agentes estão já com visitas e pedidos para produzirmos os primeiros protótipos. Também já sentimos na Bélgica, embora ainda recatada, não com tantos pedidos. E a Inglaterra funcionou muito bem e agora parou um bocadinho, também fruto dos confinamentos e desconfinamentos e das incertezas.

Quais são os principais mercados de exportação da Vilartex?

Diretamente, a Vilartex tem uma quota de exportação de 10%. O mercado europeu é o mais importante, com França, Espanha,… aliás, trabalhamos com quase todos os países europeus. Depois temos os EUA, que neste momento estão parados. Temos a China, onde possuímos um agente e está a funcionar. E temos igualmente um agente na Rússia, que neste momento já parou porque o país não está a passar um período muito fácil. Mas o mercado europeu é aquele com o qual trabalhamos melhor.

Como tem sentido, em particular, o mercado português?

O mercado português é muito dependente, como sabemos, do mercado externo e de Espanha, principalmente. Mas o mercado português também abrandou. Tivemos empresas e clientes que, como nós, não pararam, reestruturaram equipas e trabalharam conforme as necessidades, e tivemos clientes que pararam completamente. Trabalhamos também diretamente com Espanha e o mercado está já a retomar, estamos a receber encomendas – ainda na semana passada recebemos uma ótima encomenda de Espanha –, mas indiretamente, e com os clientes portugueses, acho que ainda não recomeçou. Também estamos a entrar num período de férias [na segunda quinzena de agosto], que poderá atrasar os pedidos.

Qual é o perfil do cliente da Vilartex?

Temos o cliente com uma gama média, temos o cliente com uma gama média-alta e temos clientes mesmo de gama alta, por isso temos que ter artigos que sirvam todos.

Claro que sabemos que um cliente de gama média não nos vai pedir uma seda ou uma caxemira. Mas é capaz de olhar para a malha e pedir para readaptar, reduzir a percentagem que tem de caxemira e tentarmos chegar ao que o cliente pretende. As coleções funcionam como montra.

Que expectativas tinha no início do ano?

Para este ano, o objetivo principal era manter os mercados, claro que conseguindo novos clientes, mas o objetivo principal era manter. Não sabíamos que ia acontecer esta pandemia, mas sabíamos que ia ser um ano difícil. Começámos o ano muito bem, acima das nossas expectativas, mas com tudo o que aconteceu com a pandemia, a atividade baixou bastante.

O ano de 2019 tinha sido positivo?

Foi um ano bom, mantivemos os 21 milhões de euros de volume de negócios, mas já antevíamos algumas dificuldades no mercado. A Alemanha está já em recessão há algum tempo, o que é muito mau para a Europa. Por isso também tínhamos a ideia de que este ia ser um ano difícil. De igual modo, sabíamos que a tipologia de clientes e de encomendas que estávamos a receber iria ser diferente, sabíamos que as grandes quantidades já não estavam cá, que as encomendas de toneladas já não iriam aparecer tantas vezes como estávamos habituados – seriam encomendas mais pequenas, de maior valor acrescentado, que é ótimo para nós, mas que, internamente, teríamos que reajustar a empresa a isso.

Que passos têm dado na readaptação da empresa para essa nova realidade?

Internamente fizemos uma restruturação a nível de produção, nas máquinas, mas também a nível de equipas.

Reduziram a capacidade produtiva?

Não, alteramos foi o tipo de máquinas que tínhamos, apostámos noutro tipo de máquinas que não nos exigissem tantas mudanças, porque o facto de serem encomendas mais pequenas, exige muito trabalho a nível de mudança e limpeza de teares. Precisávamos de teares mais modernos que, de certa forma, nos agilizassem essas tarefas.

Encontrava-se, então, num período de investimento?

Sim, investimento a nível de maquinaria e, principalmente, que às vezes é mais difícil, investimento a nível de mentalidades. É preciso formação nas chefias e tentar explicar-lhes o tipo de mercado que está lá fora, o tipo de cliente, porque mesmo agora acho que temos que aprender a perceber o cliente – o cliente vai ter exigências que, possivelmente, não tinha anteriormente. Essa mudança, essa formação de mentalidades e explicar aos nossos colaboradores que o mercado agora exige mais isto e menos aquilo, também é importante para as coisas funcionarem internamente. Não é só colocar ali um tear novo e já está. As pessoas têm que perceber porquê, isso também é muito importante. E também temos um projeto de internacionalização.

Esses investimentos continuam neste momento?

Continuamos a nível de internacionalização, com as feiras e, assim que possível, também a nível de visitas presenciais com os clientes.

A estratégia não se alterou?

Não se alterou, mantemos a mesma estratégia que no início do ano tínhamos para 2020.

Que oportunidades e desafios vê agora, tendo em conta a situação atual?

Há muitas incertezas, acho que neste momento ninguém consegue dar uma previsão – podemos fazer uma previsão mas não sabemos até que ponto ela estará certa ou não.

Na minha opinião, vai ser um final de ano difícil, não sabemos ainda se iremos ter uma segunda fase de confinamentos ou não – se acontecer vai ser muito mau porque vamos pagar ou economicamente ou então com a vida. De uma maneira ou de outra, iremos pagar. Agora esta altura deu-nos também tempo para pensarmos – já funcionávamos um bocadinho automaticamente, com prazos muito curtos que às vezes nem permitiam pensar bem. Deu tempo para pensar, para restruturar, vermos de facto o que poderíamos fazer com o que temos internamente e podermos, de certa forma, valorizar o que temos, readaptando à situação. Se conseguirmos sobreviver a este tempo, no próximo ano poderemos tirar coisas muito boas. Sabemos que há grandes marcas que estão a fugir da China, da Índia, do Bangladesh. Sabemos que, primeiro, o têxtil europeu é muito procurado e que Portugal está muito bem preparado. É um país que, lá fora, sabem que tem qualidade e serviço e somos também um país em que elas podem acreditar. Acho que poderemos tirar partido das oportunidades que possam surgir dessas grandes marcas que estão a surgir de outros destinos.