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«Estamos em processo de fusão da SMBM e da Tearfil»

O processo de reorganização e modernização da Tearfil, adquirida ao grupo Moretextile há três anos, continua e o próximo passo é a fusão com a SMBM, revela, em entrevista ao Portugal Têxtil, Maria de Belém Machado, administradora de ambas as fiações, que com esta junção espera retirar ainda mais vantagens da complementaridade das duas empresas.

Maria de Belém Machado

Há três anos, precisamente a 26 de julho de 2019, Maria de Belém Machado adquiriu a Tearfil juntamente com os sócios Bernardino Andrade e Aurora Cunha. Meses depois chegaria uma pandemia que parou o mundo e, ainda mal refeitos dos confinamentos, seria a vez da guerra – e a consequente escalada inflacionária dos custos de produção – trazer desafios acrescidos.

Ainda assim, a estratégia da Tearfil, que acaba de participar na Première Vision Paris, onde o Portugal Têxtil entrevistou a principal acionista da fiação, mantém-se firme, focando-se em artigos de maior valor acrescentado e em propostas mais sustentáveis, produzidos com tecnologias cada vez mais eficientes, graças aos investimentos que têm sido realizados.

Com projeções de crescimento do volume de negócios em 2022, na senda do que aconteceu em 2021, a grande novidade da empresa será a fusão com a SMBM, uma mudança que está a ser preparada e que a empresária acredita que irá permitir explorar melhor a complementaridade das duas fiações.

Adquiriu a Tearfil há três anos. Como tem evoluído a empresa desde que está nas suas mãos?

Temos cumprido os objetivos a que nos propomos. Também temos sempre muita tendência a ser realistas nos objetivos, nem pedir demais, nem pedir de menos. Claro que com os custos energéticos atuais, com a guerra, com estas coisas todas que são imprevisíveis, é muito difícil. A energia aumentou 150% ou 200%, os transportes e as mercadorias também aumentaram imenso e depois há a imprevisibilidade da chegada das mercadorias, porque nunca sabemos muito bem se são cumpridos os prazos, há sempre adiamentos. É muito difícil trabalhar desta forma.

Qual tem sido a estratégia de gestão da Tearfil?

Primeiro estabilizamos e agora começamos com investimentos nos sectores que achamos que são mais problemáticos. Temos uma máquina, de fiação open-end, que há de chegar até ao final do ano – as máquinas novas estão a demorar quase dois anos a chegar –, que é um grande investimento, perto de 800 mil euros. Temos já seis open-end, mas esta consegue fazer mais e melhor, tem menos manutenção e gasta menos energia do que as outras todas. Também estamos a fazer investimentos, à volta de 400 mil euros, em painéis fotovoltaicos, que vão produzir mais ou menos 5% da nossa necessidade energética. É um começo.

E em termos do desenvolvimento de produto?

Essencialmente é tentar desviar um bocadinho este barco daquilo que é o consumo tradicional, das malhas, do que é o têxtil clássico, e tentar ficar mais próximo dos técnicos, focado em aumento em termos de valor acrescentado ou em áreas que tenha volume para fazer a produção avançar, portanto, mais quilos. Participámos na Techtextil e estamos muito voltados para os fios técnicos – não é fácil lá entrar, porque as coisas são muito protegidas, mas temos de teimar e vamos conseguir, com certeza.

Como está a revelar-se este primeiro semestre do ano?

 

Para nós está bem, estamos dentro do que prevíamos, embora este mês, concretamente, tenha sido um bocadinho mais fraco, mas isso não quer dizer que seja mau. A instabilidade está a começar a sentir-se. Estamos sempre com os nossos parceiros e se eles não trouxerem o volume e as encomendas, não adianta – não temos tecelagem, não somos verticais. As pessoas querem só novidades e mais novidades.

Quais são as novidades em destaque no salão?

 

Temos um fio que fazemos com marca própria, de reciclagem de desperdícios da nossa empresa, no qual estamos a apostar muito e, depois, temos também produtos com valor acrescentado, com caxemira, liocel e linho, mas sempre muito dentro dos reciclados.

Como correu o ano passado em termos de negócio?

O ano passado foi bom, fechámos com 14 milhões de euros, cerca de 20% mais [do que em 2020]. Primeiro, as pessoas tinham mais dinheiro. Segundo, vendia-se muito online e, portanto, as pessoas também não saíam para fazer outras compras. Hoje em dia, as pessoas começam a pensar mais em férias, em passeios e mais não sei em quê. Depois, os juros das casas estão a subir, nos supermercados trazem muito menos com o mesmo dinheiro e as pessoas começam a sentir que estão muito endividadas, porque a inflação está aí, e de uma maneira assustadora, e, portanto, começam a perceber que aquilo que viveram – a inflação era negativa, a taxa de juros era negativa – hoje já não acontece. Começam a ficar assustadas e a primeira coisa que deixam de comprar é moda.

Que expectativas tem, então, para o corrente exercício?

Penso chegar aos 17 milhões de euros, à volta de mais 20%. Vamos ver, são objetivos ambiciosos.

Quanto representa a exportação na Tearfil?

Neste momento, estamos a cerca de 25%, mas a meta é inverter: fazer 75% exportação e 25% mercado interno.

Que projetos tem para o futuro?

Vou fazer a fusão das duas fiações, estamos em processo de fusão da SMBM e da Tearfil, pegar na SMBM e transferi-la para a Tearfil e a Tearfil fica com duas marcas: a marca Tearfil e a marca Fifitex.

Qual é atualmente a capacidade produtiva das duas fiações?

Depende da grossura do fio. Na Tearfil temos 47.000 fusos em contínuo de anel, temos três open-end já com maior capacidade, temos dois air jet, … Em conjunto devem somar 50.000 fusos e devemos poder fazer cerca de 4.000 toneladas por ano, mas a Tearfil e a SMBM são muito diferentes uma da outra. A Tearfil está preparada para grandes quantidades, o que cria alguns problemas, porque quando não há grandes quantidades, estar sempre a mudar de produto, limpar a máquina, não é confortável economicamente. Já a SMBM está mais virada para pequenas quantidades e faz fios grossos, que a Tearfil não faz, e produz o borboto, que a Tearfil não produz, portanto, elas complementam-se.

Quantas pessoas trabalham nas duas empresas?

Neste momento, 270.

Como vê o sector da fiação em Portugal?

Acredito que a Europa tem de repensar a vinda de produtos mais baratos da China e de outros países, e repensar muito a sério. Porque se destruirmos a nossa indústria, na Europa, vamos ficar muito sujeitos à indústria de outros países, o que não nos dá segurança nenhuma, porque se, entretanto, eles fecharem um bocadinho a vinda seja do que for para a Europa, isso quer dizer que ficamos dependentes de terceiros, mas de terceiros com uma cultura longe de nós e muito diferente do que é a perspetiva europeia para estas coisas. Depois, a maior parte das grandes marcas, que vão para esses países e que fazem lá as suas grandes, e também as pequenas, produções, se for numa indústria aqui na Europa, querem as certificações todas, querem fazer auditorias, querem ver se há trabalho infantil, coisas que já não fazem sentido hoje em dia porque não há, quer dizer, nenhuma empresa tem trabalho infantil ou tem maus tratos ou tem más condições, penso eu, mas depois são capazes de fazer de conta que no Bangladesh, na China, etc., as empresas são todas iguais às europeias e aí já não se preocupam rigorosamente nada se há trabalho infantil, se trabalham 12 horas, se não têm condições sanitárias, nada. Ou seja, as grandes marcas querem é lucro, mais nada.

Tem sentido algum efeito do tão falado nearshoring?

Não. É o preço que dita, e os lucros e a margem desmesurada que as pessoas querem ter. Um grupo grande quando chega para comprar em Portugal, é para trabalhar pequenas quantidades, porque aquelas que a gente poderia ganhar com o volume, essas vão para a Turquia.

Isso quer dizer que o investimento que tem sido feito, nomeadamente em maquinaria, não tem retorno?

O retorno que sinto é porque reduzo custos. Ao meter uma máquina nova reduzo o preço da energia, reduzo o preço da manutenção, reduzo o número de pessoas que têm de lá estar, aumento a qualidade e a produtividade. O que a gente não nota é aqueles volumes de que se ouve falar. Se eu quiser um fio, vou a um importador de fio e eles têm fios da Turquia e daqui e dacolá a metade do preço que nós temos. Portanto, os fios mais de volume chegam cá muitíssimo mais baratos – a maior parte destes países protege a sua indústria para ter preços competitivos.

A Tearfil aumentou os preços face à subida de custos com a energia, matérias-primas e transportes?

Não conseguimos repercutir isso, até porque, neste momento, os algodões estão a cair, o dólar está a subir, portanto, a incerteza nos preços das matérias-primas também não nos deixa ter uma grande previsão do que é que vamos fazer aos preços dos nossos produtos. Os clientes querem baixar preços, eu disse “está bem, mas não pode ser agora”, porque isto agora está a cair, e, às tantas, daqui por 15 dias ou um mês, está tudo a subir outra vez. Não podemos andar com essas oscilações e com essas inseguranças nos preços dos produtos.

O Secretário de Estado da Economia esteve consigo durante a visita à Première Vision. Que medidas é que sente que fazem falta ao sector para minorar as dificuldades atuais?

Acho que o problema é estabilizar o preço da energia. Não sei se é com apoios, não sei como é que se faz, muito sinceramente, mas é preciso estabilizar. Não posso hoje ter este preço, amanhã aquele e daqui a um mês outro. Nunca sabemos quanto é que vai ser a fatura no fim do mês, só sabemos depois de consumir. A gente pode tentar, e estamos a tentar, melhorar a eficiência energética, mas é caríssimo. As fiações são fábricas que têm realmente muito consumo de energia e as máquinas são muito caras. Realmente é muito difícil dizer como vai ser daqui a três meses, não consigo – nem sequer sei como vai ser até às férias. E quando vier de férias, não faço a mínima ideia de como é que estarão os preços.