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«Este vai ser um ano bom»

Apesar de não ser imune ao aumento dos custos produtivos, sobretudo da energia e matérias-primas, a capacidade de acrescentar valor aos seus artigos tem permitido à Orfama fidelizar e angariar novos clientes, revela o sales area manager António Cunha, garantindo-lhe a produção preenchida até meados do próximo ano.

António Cunha

O crescimento de cerca de 10% que conseguiu nos primeiros nove meses deste ano deverá manter-se no último trimestre e permitir uma subida do volume de negócios da Orfama, que emprega 220 pessoas.

Um resultado conseguido sobretudo com o aumento do preço dos seus produtos, resultante da atualização por causa da inflação, que chegou a 30% nos últimos meses, mas, sobretudo, pela incorporação de valor acrescentado nos artigos, como destaca o sales area manager António Cunha em entrevista ao Portugal Têxtil. Com uma quota de 99% de exportação, principalmente para a Europa, a empresa especializada em fully fashion está a sentir o regresso da Ásia de alguns compradores e uma maior procura por parte de clientes norte-americanos, tendo já a produção tomada não só em 2022, mas também no primeiro semestre de 2023.

Como correram os primeiros nove meses do ano para a Orfama?

Em termos de produção, estamos, mais ou menos, a produzir o mesmo número de peças. Produzimos à volta de 350.000 peças por ano e a capacidade que estamos a usar é praticamente a mesma, porque não podemos esticar a capacidade que temos. O crescimento tem sido na mais-valia dos produtos que apresentamos ao mercado, com um preço superior. Isso faz com que, fazendo as mesmas quantidades, tenhamos um incremento no volume de faturação à volta de 10%.

Quais são as expectativas, em termos de volume de negócios, para o corrente ano?

Prevemos terminar 2022 com um valor de faturação à volta dos cinco milhões de euros, cerca de 10% mais do que no ano passado, em que faturamos cerca de 4,5 milhões de euros.

Como tem sido gerir o negócio nestes tempos complexos, primeiro uma pandemia e agora uma guerra?

A pandemia teve um impacto grande nas empresas – o mundo fechou completamente, as lojas estavam encerradas e as empresas não puderam produzir. Quando as coisas estavam a melhorar, surgiu esta questão da guerra, que mudou completamente o mundo. Nada voltará a ser o que era. Passaram só seis meses e houve já uma mudança enorme na forma de trabalhar, essencialmente, pelos aumentos dos custos com as matérias-primas, o gás, a eletricidade e tudo isso. Fazendo as contas ao nosso tipo de produto, tivemos um aumento de cerca de 30% dos custos de produção, o que impacta, no nosso tipo de artigo, à volta de 10 a 20 euros por peça, dependendo das matérias-primas. Isto cria algumas dificuldades do ponto de vista da competitividade das empresas, não só da Orfama, mas das empresas em geral. Obviamente que a indústria têxtil está a fazer o necessário de forma a poder dar a volta à situação, mas o Estado também tem de fazer o seu papel e ajudar as empresas, porque, se não ajudar, as empresas não têm a capacidade de, sozinhas, poder evoluir e criar uma indústria que seja rentável e que o Estado possa, depois, tirar proveito disso através dos impostos que vai cobrar e pelas exportações que vamos fazer. Portanto, tem de haver aqui um compromisso de parte a parte para que a indústria continue no bom caminho.

Que medidas são prementes na sua opinião?

O Estado tem de ajudar as empresas para que possam tornar-se mais competitivas. Tem que baixar os custos da produção, ou seja, tudo o que está associado à energia tem de baixar para que as empresas possam ser mais rentáveis, para que possam exportar e, através das exportações que fazem, poder pagar os impostos ao Estado. Se as empresas não produzirem, o Estado não vai receber dividendos das exportações que possamos fazer. Não queremos, de maneira nenhuma, esmolas. Queremos é que o Estado ajude neste período para que as empresas se tornem mais competitivas, que através do seu know-how consigam exportar e aí haver um equilíbrio entre o dar e o receber. Porque, se o Estado não ajuda as empresas, as empresas tornam-se menos competitivas, não vendem e, ao não vender, a receita cai.

De que forma tem a Orfama procurado contornar o aumento dos custos?

A inflação é um problema para toda a indústria. No nosso caso, também é um problema, mas temos que apresentar produtos diferenciados ao cliente, que lhe permita identificar estes aumentos como uma mais-valia no produto que está a comprar e não propriamente no preço. Felizmente, com o trabalho que temos feito nos últimos anos, e com esta dinâmica que temos tido das matérias-primas nobres, dos algodões orgânicos, das lãs recicladas e tudo isso, permite-nos ter uma coleção diferenciada no mercado e, consequentemente, captar clientes que pagam o preço justo destes aumentos. Este vai ser um ano bom e o próximo ano, se tudo continuar como está neste momento, também vai ser um ano equivalente a este. Há um ligeiro crescimento até, o que é excelente. Portanto, as perspetivas para 2023 são boas se tudo se mantiver de acordo com as dinâmicas que temos neste momento. Agora, se piorarem, tudo pode mudar de um momento para o outro.

 

A subida de preços já está estabilizada ou prevê novos aumentos até ao final do ano?

Até ao momento, da experiência que tive nestes últimos seis meses, temos tido aumentos semanais. Portanto, não posso confirmar um preço ao cliente com uma antecedência de 15 dias, é impossível, porque todas as semanas temos aumentos de matérias-primas, de corantes, de eletricidade, de gás, dos processos produtivos. O preço final ao cliente só pode ser confirmado quando o cliente me entrega as encomendas, porque é aí que eu vou fazer a encomenda de fio e que vou ter os custos finais do processo. E, muitas vezes, quando terminamos a encomenda, os custos inerentes ao processo já estão completamente fora daquilo que foi calculado inicialmente. É muito difícil. Muitas das vezes não conseguimos atingir o break-even. Tentamos pôr sempre uma margem de segurança, mas a margem de segurança que temos colocado não tem sido suficiente nestes últimos meses para suportar os custos que temos tido. Agora estamos a ser mais cautelosos de forma a podermos ultrapassar essa questão e se me perguntar se, até ao final do ano, vamos ter aumentos, com certeza que vamos ter aumentos.

De que grandeza?

Se, nestes últimos seis meses, tivemos um aumento dos custos de produção de 30%, não quero acreditar que possamos ter mais 30% nos próximos seis meses. Isso seria dramático. Portanto, se tivermos um aumento de mais 5%, já consideramos as coisas, mais ou menos, controladas. Mais do que isso, começa a ser difícil. As empresas perdem competitividade a todos os níveis.

Mas têm surgido novos clientes?

Sim, essencialmente do mercado americano. Eles estão muito voltados para a Ásia, mas com todas as dificuldades que o mercado asiático lhes está a colocar, viraram-se muito agora para a Europa. Não podemos esquecer que qualquer tipo de cliente que se decida a produzir têxtil na Europa, não tem muitos países que o façam. Portugal é um dos países que tem mais know-how nesta área da fast fashion e da quick response. Nesse aspeto, estamos na vanguarda. Depois temos Marrocos, o Norte de África, que também produz algum têxtil, mas não com a qualidade que nós produzimos, e temos a Turquia, que está mais vocacionada para o produto do denim, das camisas, do corte e cose, não propriamente no nosso tipo de artigo. Portanto, no nosso tipo de artigo, malhas fully fashion, somos, de certa forma, líderes a nível europeu. Temos mais a concorrência italiana, mas no produto que fazemos, em termos de qualidade/preço, estamos bem posicionados nessa área e por isso é que os clientes nos procuram.

Que perfil têm esses clientes?

Estamos a falar de clientes como a Saks Fifth Avenue em Nova Iorque, mas também de alguns europeus, como a Zenggi na Holanda ou a Zadig & Voltaire em França. Estamos a falar de marcas de referência, que têm uma reputação no mercado e querem qualidade e um produto diferenciado, e é isso que nós oferecemos. É esse mercado que nós atendemos.

Quais são hoje os principais mercados de exportação da Orfama?

O mercado europeu é importante – o mercado francês, o alemão, o inglês e o italiano são os mais fortes. O mercado norte-americano não é tão importante, ou não era tão importante até ao momento, porque havia um gap grande entre o dólar e o euro, que era um segundo problema, para além de o mercado norte-americano estar muito vocacionado para o mercado asiático por causa dos preços. A aproximação que houve nos últimos meses, no último ano, faz com que esta diferença entre o dólar e o euro tenha reduzido e nos tornemos mais competitivos e um mercado interessante para os americanos.

Que perspetivas tem para este último trimestre de 2022?

Nós estamos cheios, não podemos aceitar mais encomendas. Todas as encomendas que temos neste momento em carteira são as necessárias para preencher a capacidade que temos este ano. No próximo ano, perante o cenário que temos das confirmações das encomendas dos nossos clientes, também já estamos completamente cheios até meados do próximo ano. Isto se as coisas se mantiverem conforme estamos neste momento. Porque, a qualquer momento, pode surgir qualquer coisa que altere tudo. Ainda não chegámos ao inverno, não sabemos quais vão ser os problemas do fator energético, da pandemia e de como tudo isso vai impactar o negócio.