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Estratégias para combater a crise – Parte 2

A crise mundial não deixou indiferente a indústria têxtil e de vestuário francesa, que se queixa sobretudo do clima de incerteza que se vive actualmente (ver Estratégias para combater a crise – Parte 1). Com efeito, a dificuldade de projecção para o futuro é praticamente transversal, como explica Claude de Pau, novo presidente delegado da Saic-Velcorex-Concord. Contudo, quatro meses apenas após a sua compra (em administração judicial desde Maio de 2008, a empresa de tecidos do grupo Dmc foi comprada pela Bernard Krief Consulting com o grupo paquistanês Kohinoor), a empresa está de novo em equilíbrio, de acordo com o responsável. Segundo Pau, o volume de negócios no final de 2009, que será estabelecido após um exercício de 16 meses, deverá situar-se entre os 20 e os 25 milhões de euros. No entanto, considera, temos uma visibilidade muito incerta. E por isso reforço ainda mais os meus serviços, antecipo ao máximo tudo o que posso antecipar. Não posso fazer mais. Não tenho ainda nada para o mês de Maio, mas isso não é anormal. Este estado corresponde, de facto, a uma tendência de fundo: ciclos cada vez mais curtos». Apesar do tamanho da sua empresa estar nos antípodas da Saic-Velcorex-Concord, com um volume de negócios muito modesto (dos quais 50% para exportação), Patrick Sokol, director-executivo da produtora de tecidos Jersey Sprint, observa também que os clientes do longo prazo aproximam-se cada vez mais do curto prazo» e arranjam formas para que os stocks fiquem do lado dos fornecedores. Após um ano de 2008 em forte retracção (menos 25%), o profissional observa um início de ano difícil, muito parado». No entanto, Patrick Sokol garante que não baixamos os braços». A empresa enfrenta agora um duplo desafio: tentar continuar a trabalhar com qualidade tendo cada vez mais em atenção os preços, enquanto que se dirige a uma clientela de marcas e de cadeias femininas mais gama média-alta, com misturas de fibras nobres (algodão, seda, viscose, caxemira); e encontrar bons parceiros, já que a empresa produz os seus produtos em França. Tínhamos o hábito de ter uma tinturaria por cada gama de produtos (viscose, lã, ), mas desapareceram. Actualmente, somos obrigados a ter apenas um único parceiro, que concentra todas as especialidades», revela. A redução da fileira pode, contudo, beneficiar alguns actores. No grupo S&L Participations, que agrupa a empresa comercial Siat&Lang e as duas unidades industriais TBC (Teinture et Blanchiment de Cernay) e a S&L Productions (tinturaria de fio e tecelagem), esta última – que trabalha em 60% para a produção interna e 40% para outros compradores – conseguiu duplicar o seu volume de negócios em 2008. Já a filial TBC foi reorientada, desde 2007, para os tecidos técnicos (nomeadamente com microencapsulação), nem sempre destinados a vestuário. Consolidamos este investimento em 2008 e esperamos colher os frutos em 2009», afirma a presidente, Martine Mutterer. Na Philéa, Pierre Schmitt, o director, não se deixa desencorajar pela conjuntura actual. Vê mesmo o momento como uma forma de ter bases mais sãs para a indústria e de se dar a conhecer melhor aos clientes. é verdade que, em 2008, a empresa especialista em fios especiais de viscose, misturas poliamida-lã ou lã-seda registou um forte recuo (menos 20%) das suas vendas. Em 2006, tinha duplicado o seu volume de negócios, ainda em alta de 10% em 2007. Fomos impulsionados, nomeadamente na exportação (80% das nossas vendas), pela moda dos fios metálicos, uma das nossas especialidades», explica Pierre Schmitt. Mas em 2008, a Alemanha, o nosso maior mercado, altamente interessado neste tipo de produtos, entrou em recessão». Por isso, o responsável recusa-se a fazer prognósticos para 2009, mas acredita que os clientes vão tornar-se mais receptivos às nossas mensagens de produto. A crise obriga-os a consagrar mais tempo a este aspecto: têm de procurar o produto certo e serem mais reflectidos e selectivos no seu sourcing». Segundo Schmitt, vai-se provavelmente assistir ao fim de um período de banalização de oferta, onde os preços estavam a ter o papel principal. é preciso uma adequação perfeita entre o produto, a cor e o estilo do vestuário». Num outro plano, a Philéa conta também com a moda e com o regresso de uma certa feminilidade para favorecer os tecidos de viscose trabalhados num espírito sedoso. Em resumo, para Schmitt, a crise não rima forçosamente com depressão. Um período como este apresenta oportunidades», afirma. Mas é preciso trabalhar para haver boas soluções». Se as estatísticas da indústria têxtil não têm o que comemorar e reflectem as dificuldades que tocam de novo a fileira, a maioria das empresas que fazem ainda parte da paisagem da ITV francesa não se rendem ao desespero. Habituadas a lutar e a contar com os seus próprios meios, não baixam os braços nem dão a guerra como perdida.