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Etiópia aquém das expetativas

O crescimento da Etiópia como exportador de vestuário será mais lento e mais difícil do que o governo e as organizações têxteis locais previram inicialmente. Teoricamente, existem todos os ingredientes necessários para transformar a Etiópia num fornecedor têxtil competitivo à escala internacional. Mais de 3 milhões de hectares, dos quais apenas 7% estão atualmente cultivados, encontram-se disponíveis para o cultivo de algodão. Relativamente a outros países africanos, como Burkina Faso, Mali ou Costa do Marfim, a Etiópia é um produtor de fibra de algodão insignificante (38.000 toneladas em 2013/2014). No entanto, enquanto a maioria dos países africanos exporta mais de 90% do seu algodão como matéria-prima, a Etiópia usa a grande parte do seu algodão no fabrico de têxteis e vestuário. O consultor francês Gérald Estur espera um desenvolvimento mais rápido da cadeia de aprovisionamento têxtil na Etiópia do que em outros países africanos por causa da capacidade de fiação disponível (mais de 100 mil toneladas/ano em 17 fábricas de fiação) e da grande prioridade que o governo etíope deu ao desenvolvimento do sector. O que é provavelmente mais atrativo na Etiópia para empresas como H&M, Tesco, Primark, PVH, George at Asda (WalMart) e Tchibo, é o muito baixo nível salarial. Narain Shahdadpuri, presidente executivo da Global Apparels Kenya, revela que «em Nairobi, pago às minhas costureiras 150 dólares por mês, enquanto na Etiópia as costureiras recebem apenas 50 dólares por mês». Por que razão a Global Apparels não muda para a vizinha Etiópia? Shahdadpuri explica que «foram necessários muitos anos de trabalho árduo para tornar esta empresa rentável. Seria o mesmo na Etiópia. E durante o difícil período da construção de uma nova empresa, [estou certo] que os salários etíopes aumentarão significativamente». Mas outros grandes produtores de vestuário localizados no Quénia, como Atraco (do Dubai) e New Wide Garments (de Taiwan) estão a arriscar na Etiópia e a criar novas fábricas no país. Outros trunfos que seduzem os investidores e os compradores estrangeiros são os baixos custos dos terrenos e da eletricidade, o grande número de escolas têxteis e institutos de formação, as numerosas obras de infraestrutura (como a zona industrial têxtil Bole Lemi em Adis Abeba, desenvolvida em cooperação com a empresa têxtil chinesa Zhejiang Jinda Flax), os incentivos fiscais e financeiros para os investidores, a estabilidade política e o impressionante crescimento macroeconómico do país, as relações comerciais privilegiadas com os EUA (AGOA) e a UE (Everything But Arms) e a sua localização geográfica favorável, permitindo que as mercadorias possam ser expedidas num espaço de tempo relativamente curto para a Europa via Djibouti e o Canal de Suez. Os principais investidores na indústria têxtil e vestuário etíope são empresas da Turquia (especialmente Ayka Addis e Saygin), da China e da Índia. A empresa chinesa Jiangsu Lianfa Textile Co pretende criar mais de 20.000 postos de trabalho em Adis Abeba. O grupo BDL do Bangladesh vai investir 30 milhões de dólares em Mekele numa fábrica têxtil e de vestuário com 3.000 trabalhadores. A Kanoria African Textiles Plc, uma subsidiária do grupo indiano Kanoria Chemicals & Industries, iniciou em 2013 a construção de uma fábrica de denim com uma capacidade de produção anual de 12 milhões de metros. O gigante indiano do denim Arvind quer produzir jeans na Etiópia, inicialmente em escala limitada e para exportação para a Europa e EUA. A Agência Etíope para o Investimento anunciou também que várias empresas têxteis asiáticas já se inscreveram para a nova zona têxtil Bole Lemi em Adis Abeba. Os construtores de máquinas têxteis também estão a explorar avidamente a Etiópia. Em julho de 2013, oito construtores italianos de máquinas visitaram o país e uma delegação alemã seguiu-se em outubro de 2014. Deve ser preocupante para o governo etíope comparar as suas previsões otimistas com os números do crescimento real das exportações de têxteis e vestuário. De acordo com o Plano de Crescimento e Transformação lançado em meados de 2010, durante o ano fiscal 2013/2014, a Etiópia deveria ter exportado artigos têxteis no valor de 435 milhões de dólares. No entanto, as exportações só chegaram a um quarto deste valor, cifrando-se nos 111 milhões de dólares. Vai demorar ainda vários anos para que a Etiópia possa explorar plenamente as suas vantagens como uma nação têxtil. Os salários muito baixos são contrabalançados pela baixa produtividade laboral. A utilização média da capacidade de produção não ultrapassa atualmente os 40% a 50%. A maioria dos parques de máquinas é obsoleto. Mesmo em Adis Abeba, as fábricas estão sujeitas a falhas de eletricidade, água e internet. Por todo o lado, a burocracia é abundante. As operações financeiras com moeda estrangeira são difíceis. Há até quem diga que é mais barato transportar matérias têxteis da China para Djibouti do que de Djibouti para Adis Abeba.