Início Notícias Mercados

Etiópia no mapa do sourcing

Na última década, a Etiópia tem vindo a mostrar-se empenhada em assumir o papel de potência global da indústria têxtil e vestuário, ainda que os passos dados na prossecução desse objetivo tenham sido relativamente lentos. Todavia, o investimento parece acelerar, pois algumas das maiores marcas da Europa e dos EUA estão a colocar no país as suas encomendas e o governo local revela-se empenhado em construir uma plataforma de sourcing para o futuro.

Nos últimos anos, as atenções têm vindo a concentrar-se na Etiópia como centro emergente de sourcing de vestuário, à medida que um número crescente de empresas se estabelece ou procura expandir a sua capacidade de produção no país. Empresas de vestuário como H&M, Asos, George at Asda, Calzedonia, Primark, Tesco e PVH encaminharam o seu aprovisionamento para a Etiópia, com a última a descrever a sua experiência no país como «nada menos do que excecional».

Contudo, os números publicados no mês passado pelo Ethiopian Textile Industry Development Institute (ETIDI) revelaram que as exportações de têxteis e de vestuário continuam a ficar aquém das expectativas, com questões como os conhecimentos técnicos, rede elétrica, escassez de mão-de-obra e atrasos na implementação de projetos de investimento a surgirem entre os principais entraves.

Arkebe Oqubay, ministro e conselheiro do Primeiro-Ministro da Etiópia, mostra-se positivo em relação à atualidade do país, explicando que o Plano de Crescimento e Transformação do país (GTP na sigla original) visa aumentar o crescimento económico e alcançar um rendimento mínimo justo em 2025. A expectativa é de que o PIB cresça 11% por ano durante os próximos 10 anos e que a indústria cresça 25% ao ano ao longo da próxima década.

«Sabemos que é realista, podemos consegui-lo», afirmou Oqubay. «A Etiópia tem sido conhecida, na última década, como a economia de mais rápido crescimento, algo notado por muitos líderes, incluindo Obama. Este crescimento foi de 11% a cada ano nos últimos 12 anos. A Etiópia não tem petróleo, diamantes ou cobre, sendo impulsionada pelos sectores produtivos, agricultura e, em parte, pela indústria».

Ambições industriais

A ambição industrial da Etiópia torna-se evidente com a construção do parque industrial Hawassa, criado em parceria com vários atores da indústria, como o PVH Corp, detentor das marcas Calvin Klein e Tommy Hilfiger. O ecoparque de 246 milhões de dólares (aproximadamente 215 milhões de euros) foi construído em tempo recorde – nove meses – em 130 hectares da capital Addis Abeba, deverá criar 60.000 postos de trabalho e gerar um valor total de exportação na ordem dos mil milhões de dólares.

O parque está alinhado com o foco do país na sustentabilidade e respetiva meta de redução das emissões de carbono em 67% até 2030. «A questão da sustentabilidade é fundamental para a nossa estratégia», sublinhou Oqubay. «Queremos que a Etiópia seja o país líder em termos de produção com baixo impacto de CO2».

Também no centro da estratégia do país está a sua ambição em construir uma indústria de têxtil e vestuário verticalmente integrada. O plano: usar terrenos baldios para plantar algodão geneticamente modificado.

A Etiópia dispõe de uma vasta quantidade de terra arável que pode ser usada para a agricultura. Arkebe Oqubay refere que o objetivo, ao longo dos próximos 24 meses, é que a Etiópia se assuma como um dos maiores produtores mundiais de algodão geneticamente modificado de alta qualidade.

Não obstante, alguns desafios para que o país possa atingir os seus objetivos incluem um foco na produtividade e na mão-de-obra qualificada para produzir vestuário para as grandes marcas que tem atraído para o projeto – incluindo a Arvind e Raymond da Índia, Epic e TAL Industries de Hong Kong e a Pityu da Indonésia.

Oqubay está confiante de que isso será exequível e num curto espaço de tempo, com a formação de trabalhadores a começar ainda este mês de abril. A força de trabalho, refere, está ansiosa para aprender e, em 24 meses, «irá alcançar os níveis de produtividade dos trabalhadores no Vietname».

Os planos de expansão

O Hawassa é apenas um dos sete parques industriais que o governo da Etiópia tem na calha, graças aos cerca de 750 milhões de dólares garantidos com a venda do primeiro Eurobond. Um terço desse montante será gasto nos restantes parques, alguns dos quais a construir no norte do país.

A expectativa é criar 2 milhões de empregos na indústria durante os próximos 10 anos, com a construção de 20 milhões de metros quadrados de espaço de fábrica por ano, com base numa taxa de crescimento estável para o sector de 20% ao ano nos últimos cinco anos. Tudo isto é possível graças ao investimento direto estrangeiro de países como a Turquia, Índia, China, vários países da UE e os EUA, que em 2015 ultrapassou os 2,5 mil milhões de dólares em termos de materiais e cash inflow.

«Esta é a melhor oportunidade para muitas empresas que querem estabelecer fábricas em África», destacou Oqubay. «A Etiópia é um dos melhores destinos». O país está localizado perto da Europa, Médio Oriente e Ásia, desfrutando de acesso preferencial ao primeiro mercado através do acordo Everything But Arms (EBA) e acesso livre de impostos aos EUA através do AGOA (African Growth and Opportunity Act).

Os principais pontos de venda da Etiópia, apontou Oqubay, incluem uma população de cerca de mil milhões de pessoas que está a crescer a 2,3 milhões por ano, uma economia estável, localização, baixa criminalidade, investimento em formação e investimentos significativos em infraestruturas – 60% do orçamento do governo.

O baixo crescimento

A Etiópia está a afirmar-se. Todavia, caso o país queira alcançar as exportações de vestuário de países como Myanmar (1,5 mil milhões de dólares), Turquia (18,7 mil milhões de dólares) e Vietname (24 mil milhões de dólares) ainda tem um longo caminho pela frente – em 2014, as exportações de vestuário etíopes cifraram-se nos 112 milhões de dólares. E, embora conhecida pela sua mão-de-obra barata – os salários médios mensais para trabalhadores na industria variam dos 46 aos 57 dólares –, os valores são significativamente afetados pela baixa produtividade laboral e a elevada rotatividade do efetivo.

Arkebe Oqubay também reconheceu que o país não está livre de corrupção, mas espera que os novos investimentos possam alterar essa problemática. «Não queremos que a Etiópia se transforme noutro Bangladesh, onde houve uma corrida para atrair fábricas de vestuário. Queremos construir algo sustentável e para isso precisamos de atrair as melhores fábricas», advogou, considerando que o país é «uma terra de oportunidades para a indústria».