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Etiópia: nova fábrica do mundo?

Muito se tem dito e escrito sobre a Etiópia como uma das próximas grandes potências do sourcing em vestuário. O grupo israelita Bagir Group acaba de passar da teoria à prática e exportar as primeiras calças fabricadas na sua nova unidade produtiva etíope, destinadas à gigante da fast fashion H&M.

Na última década, na tentativa de desenvolver o país e afastar-se das atividades do sector primário, a Etiópia tem estado empenhada em assumir o papel de potência global na indústria têxtil e vestuário, ainda que os passos dados na prossecução desse objetivo tenham sido relativamente lentos (ver Etiópia no mapa do sourcing).

No país, o investimento parece acelerar, com algumas das maiores marcas da Europa e dos EUA a colocarem ali as suas encomendas e com o governo local mostrar-se empenhado em construir uma plataforma de sourcing com futuro.

Dentro destas promissoras ambições, destaca-se o papel do grupo israelita Bagir, que fornece reputados clientes na Europa, EUA, Austrália e África do Sul. Recentemente, o seu CEO, Eran Itzhak, afirmou, em declarações ao portal Just-style, que este negócio pode «mudar o jogo», com a Etiópia a assumir importância crescente dentro do mapa da sourcing da empresa graças à sua capacidade de «produzir roupas de alta qualidade a preços mais baixos». «Somos os primeiros a fabricar e a exportar peças de alfaiataria da Etiópia», revelou, acrescentando que a fábrica está a produzir 600 calças de alfaiataria por dia e pretende aumentar a produção para as 3.000 calças nos próximos 18 meses, com linhas de casacos já em desenvolvimento.

Deste modo, a produção na fábrica deverá subir para os 4.000 fatos diários dentro de três anos, em linha com a meta da Bagir para colocar a Etiópia como a sua principal base de produção durante esse período.

A iniciativa faz parte de uma reestruturação em curso encetada pela produtora de vestuário israelita, agora sem dívidas – pela primeira vez em quase uma década –, que reorientou a sua cadeia de aprovisionamento na Etiópia, Egito e Vietname, e está a apostar em novos produtos e no reforço da inovação. «A África, na minha opinião, é o próximo melhor destino, e mais e mais marcas e fabricantes vão perceber isso, e já podemos ver enormes investimentos vindos da China para a Etiópia», referiu Itzhak, acrescentando que «sim, há questões como as infraestruturas, os transportes, a falta de tradição, a necessidade de trazer pessoas do Sri Lanka e do Bangladesh para monitorizar as linhas de produção, mas isso faz parte do jogo de aprovisionamento».

A Bagir despendeu mais de dois anos a acelerar a produção na Etiópia, onde investiu 1,5 milhões de dólares (aproximadamente 1,4 milhões de euros) numa participação de 50% na Nazareth Garments, cuja fábrica produzia uniformes para a polícia e companhias aéreas etíopes. A unidade emprega atualmente 450 pessoas.

Além de deslocalizar o seu diretor-geral, o CTO e o diretor de qualidade, a gigante israelita abriu ainda uma escola de formação no local porque «ninguém na Etiópia sabia como fabricar vestuário segundo os padrões do Bagir».

Apesar dos recentes distúrbios na Etiópia, o CEO acredita que o país tem «todos os elementos-chave», incluindo acesso preferencial ao mercado da União Europeia através do Everything But Arms (EBA), o acesso isento de impostos aos EUA através da African Growth and Opportunity Act (AGOA), custos de mão-de-obra competitivos, apoio governamental e o potencial para crescer ainda mais. «Esperamos arrecadar 34 milhões de dólares da Etiópia no próximo ano e não estamos a mudar o nosso foco ou expectativas», antecipou Eran Itzhak.

Até agora, os resultados da reestruturação parecem promissores, com o marco mais significativo a acontecer no início deste mês, quando a empresa saldou a sua dívida de 21 milhões de dólares, depois de pagar 6,3 milhões aos credores.

Contudo, as mudanças mais marcantes ocorreram na frente operacional. O grupo Bagir fechou as fábricas na China e na Roménia e agora está «a concentrar as suas instalações e operações em apenas três regiões geográficas – Egito, Vietname e Etiópia».

Cada um dos três países, explicou o CEO, «possibilita um valor agregado específico e único que não se pode obter noutros locais», acrescentando que as novas localizações vão permitir novas oportunidades para expandir as linhas de produtos da especialista em vestuário.