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Etiópia sofre primeira baixa de peso

A PVH Corp, que detém marcas como a Calvin Klein e Tommy Hilfiger, vai encerrar a sua unidade produtiva na Etiópia, duas semanas depois do país ter perdido o acesso sem taxas ao mercado americano devido ao conflito na região de Tigray, onde, de acordo com as Nações Unidas, estão a acontecer crimes contra a Humanidade.

[©Comissão Europeia]

Segundo Legesse Tulu, porta-voz do governo etíope, citado pela Reuters, esta decisão de encerramento mostra o impacto das «sanções injustas» dos EUA que afetam desproporcionalmente os pobres e as mulheres do país.

A decisão do PVH, que detém a Calvin Klein, a Speedo e a Tommy Hilfiger, é a primeira retirada de grandes produtores após a suspensão do acesso preferencial. É ainda um golpe para a economia etíope, que está já a ser afetada por uma elevada inflação, seca e uma guerra que dura há um ano e que já matou milhares de civis e obrigou milhões de outros a deslocarem-se.

Este ano, a PVH Corp reestruturou-se e a empresa afirma que isso levou a planear a transição de uma unidade própria para um parceiro de confiança ativo na Etiópia. «A rapidez e volatilidade da escalada da situação [na Etiópia] fez com que a transição não fosse possível, resultando na decisão difícil de fechar a fábrica», justifica a PVH Corp em comunicado.

A 2 de novembro, o presidente americano Joe Biden tomou a decisão de suspender a Etiópia do African Growth and Opportunity Act (AGOA) «por violações grosseiras de direitos humanos internacionalmente reconhecidos».

Os responsáveis etíopes advertiram que a suspensão pode acabar com um milhão de postos de trabalho, afetando desproporcionalmente mulheres pobres, que são a maioria dos trabalhadores da indústria de vestuário.

Indústria em risco

O conflito emergiu no ano passado entre o governo federal e a Frente de Libertação do Povo de Tigray (TPLF, na sigla em inglês), que costumava dominar a política nacional e governa agora a região de Tigray.

Acredita-se que cerca de 400 mil pessoas vivem esfomeadas em Tigray, onde as Nações Unidas já não conseguem entregar bens alimentares há um mês.

[©Comissão Europeia]
Todos os lados do conflito cometeram violações que podem ser consideradas crimes de guerra, apontam as Nações Unidas.

A PVH Corp começou a trabalhar na Etiópia em 2017. Tal como a maior parte dos seus pares, instalou-se no Parque Industrial de Hawassa, a sul de Adis Abeba, pensado pelo governo para atrair os produtores de têxteis e vestuário e tornar a Etiópia um centro de produção.

A suspensão do AGOA ameaça essas aspirações e pode também forçar outros produtores a fechar.

A Etiópia exportou 237 milhões de dólares (cerca de 210 milhões de euros) de produtos sem taxas para os EUA no ano passado, de acordo com os números do Departamento de Comércio dos EUA.

Em declarações à Reuters, a PVH garante estar ainda «comprometida» com os seus parceiros de produção na Etiópia.