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EUA entre os alvos da internacionalização

O país liderado por Biden é um dos focos de interesse para a internacionalização da moda portuguesa, principalmente numa altura em que o país dá mostras de um forte dinamismo no consumo. Um mercado abrangido pelo projeto 100% ModaPortugal e onde as empresas nacionais podem beneficiar da força da diáspora portuguesa.

Luís Figueiredo

No webinar “A retoma dos mercados de moda na era pós-Covid” que serviu de balanço ao projeto 100% ModaPortugal, houve espaço para analisar o mercado dos EUA e o seu potencial, numa altura em que a indústria procura ultrapassar o choque provocado pela pandemia. «Embora estejamos já a ver a luz ao fundo do túnel, ainda estamos a sentir os efeitos desta pandemia que nos atingiu de uma forma avassaladora», afirmou Luís Figueiredo, presidente do CENIT, na abertura do evento, acrescentando que, «no entanto, e uma vez mais, o sector do vestuário mostrou a sua resiliência e está pronto para arrancar de novo».

Este arranque faz-se, em parte, com a participação em feiras físicas, que estão de volta. Nas que são organizadas pelo CENIT, no âmbito do projeto 100% ModaPortugal, está prevista a presença em seis feiras e numa missão empresarial, visando cinco mercados e 26 participações de empresas. «Este segundo semestre parece estar a ser bastante animador», reconheceu Marlene Oliveira, head of International unit do CENIT.

Iniciado no segundo semestre de 2018 e terminado com o primeiro semestre deste ano, o projeto 100% ModaPortugal contemplou a presença em 44 feiras (incluindo já as do primeiro semestre de 2021) em sete mercados e em 10 marketplaces online, num total de 213 participações de empresas, num esforço para apoiar a internacionalização da indústria de vestuário portuguesa. Este esforço tem continuidade a partir deste segundo semestre de 2021, com um novo projeto que «irá assegurar a internacionalização por mais 24 meses», garantiu Marlene Oliveira.

Um mercado em rápida retoma

Entre os mercados-alvo deste projeto estão os EUA, um país onde, «devido ao pragmatismo e flexibilidade que caracteriza a sua economia, a retoma tem sido particularmente rápida, com as previsões a apontarem para um crescimento do PIB de cerca de 6,4% já em 2021, superior pela primeira vez em vários anos ao da própria China», avançou Domingos Fezas Vital, embaixador de Portugal em Washington.

Domingos Fezas Vital

Um crescimento que se deverá traduzir-se na recuperação das importações «e, consequentemente, em mais oportunidades de negócio para as empresas portuguesas», sublinhou.

Os EUA são atualmente o quinto maior importador de produtos e serviços portugueses e o maior fora da Europa, mas, destacou o embaixador, são também o mercado mais competitivo do mundo, implicando que «para aqui ter sucesso, as empresas precisam de ser persistentes, pacientes, encontrar o parceiro certo e, acima de tudo, oferecer um produto com uma boa relação preço-qualidade», enumerou Domingos Fezas Vital.

A recuperação do mercado americano sente-se também na área da moda. As vendas no retalho «têm crescido mais do que o esperado: 18,3% em março face a fevereiro e uns impressionantes 101,1% quando a comparação se faz com março de 2020», revelou o embaixador, acrescentando ainda que, «devido ao elevado investimento necessário para se implementar com sucesso, e no curto prazo, uma marca distintiva nos EUA, as empresas portuguesas mais bem colocadas para recolher de forma mais imediata os benefícios desta evolução positiva do mercado deverão ser as que apostam na produção em regime de private label para os segmentos elevado e de luxo». Inovação, sustentabilidade, durabilidade e personalização são alguns dos predicados exigidos por estes segmentos de mercado, apontou Domingos Fezas Vital.

O embaixador destacou ainda três das tendências do mercado americano: o total look no retalho; o crescimento do comércio eletrónico; e a sustentabilidade. «O consumidor americano está hoje muito virado para a defesa do meio ambiente. Procura, por isso, materiais ecológicos, que não atentem contra o ecossistema e comprometam o futuro», indicou o embaixador português em Washington, assinalando que estas tendências «favorecem as empresas que incorporem esta vertente no fabrico e saibam transmitir essa informação, de forma clara e assertiva, aos consumidores».

O papel da diáspora portuguesa

Domingos Fezas Vital enalteceu o dinamismo com que a diáspora tem alimentado as relações entre Portugal e EUA desde os primórdios da fundação deste último. «Esta ligação longa [entre os dois países], cada vez mais rica e diversificada, tem na nossa diáspora uma das suas principais armas», salientou.

Representantes dessa diáspora estiveram no debate que se seguiu à intervenção do embaixador de Portugal em Washington, revelando o que têm feito e mostrando-se disponíveis para contribuir para o desenvolvimento da moda portuguesa do outro lado do Atlântico.

Maria Meco, diretora de design técnico na Tory Burch, considera que o grande problema de Portugal é que «não nos sabemos promover». Na área da moda, onde tem trabalhado com empresas de todo o mundo, da Ásia a Itália e Portugal, «ninguém ainda conheceu bem o que Portugal pode fazer», admitiu. Como exemplo, referiu que «a mão de obra em Portugal é muito superior à da Itália», mas que tal é desconhecido.

César Araújo, Ana Viriato, João Maia e João Pinto Machado

Sentindo-se como embaixadora de Portugal, «porque ao longo da minha carreira tento sempre promover Portugal e o que podemos fazer no sector da moda», Maria Meco afiançou que «tem sido muito difícil» pelo desconhecimento de Portugal como produtor de moda de luxo. «São muito poucas as marcas americanas que sabem desse poder português», asseverou.

O luso-americano Carlos Ferreira, CFO da Plusable, acredita também que «[na diáspora] podemos ser pontes estratégicas para ambas as partes e para ambos os lados do Atlântico», nomeadamente num cenário que, como descreveu Isabelle Coelho Marques, presidente-emérita da NYPALC, é de crescimento do mercado, com estímulos ao consumo e aumento de salários e, consequentemente, aumento das importações, nas quais «esperamos também de moda portuguesa».

César Araújo, presidente da ANIVEC, assegurou que «temos vindo a trabalhar com parceiros portugueses locais para tentarmos dinamizar o mercado» e assumiu que «notamos a disponibilidade dos portugueses que estão nos EUA em quererem ajudar e partilhar as boas práticas e a recordação que têm de Portugal».

Ana Viriato, empresária, apontou a importância da digitalização e João Maia, diretor-geral da Apiccaps, sublinhou, por seu lado, que os maiores promotores de Portugal são os clientes, de renome internacional, com quem a indústria trabalha. «Estes são claramente os maiores embaixadores e promotores de Portugal e da imagem de Portugal, são aqueles que promovem Portugal nos seus próprios mercados. Não são necessariamente pessoas que tinham relações com Portugal, que nasceram em Portugal, mas são pessoas que criaram relação com Portugal e que hoje vêm a Portugal de forma muito frequente, que fazem negócios com Portugal e promovem Portugal, não só as empresas com quem trabalham mas todo o sector português».

Ainda assim, realçou César Araújo, «Portugal tem uma posição muito tímida no mercado da moda», que precisa de ser expandida com iniciativas como a realizada em 2018 em Nova Iorque, até porque «há um potencial muito grande».

Para Eurico Brilhante Dias, Secretário de Estado da Internacionalização, apesar de ser um grande mercado, os EUA são um país «para onde Portugal ainda exporta pouco e pode exportar muito mais. E no sector têxtil e vestuário, pode fazê-lo de forma diferenciada». Nesse sentido, e na área da moda, «temos de continuar a investir na promoção de Portugal como uma origem qualificada de produtos», concluiu.

Eurico Brilhante Dias